Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Momento do dia.

por Fernando Lopes, 12 Jan 16

- Sabes quem é a pessoa de que o pai gosta mais no mundo?

- De mim.

- Já te tinha dito?

- Já, muitas vezes, mas podes continuar a dizer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

A pergunta.

por Fernando Lopes, 11 Jan 16

o-marciano.jpg

 

Na juventude era consumidor ávido de ficção científica e fantasia em duas colecções de livros de bolso, «Argonauta» e da Europa-América. Há mais de uma vintena de anos que não pegava num livro do género, mas todo o ruído no Goodreads e na net em geral levaram-me a adquirir «O Marciano» que viria a dar origem ao filme «Perdido em Marte» protagonizado por Matt Damon.

 

À parte uma série de patuá científico que as mais das vezes me passou ao lado, é um livro escrito num estilo simples, quase coloquial, onde as peripécias da personagem se sucedem a um ritmo acelerado, mantendo o leitor preso. No fundo é a história de um Robinson Crusoe do futuro, arraçado de MacGyver, com enorme sentido de humor e capacidade de rir de si mesmo e da sua desgraça.

 

Uma das coisas que mais me diverte é ver se os filmes baseados numa determinada obra se mantêm fiéis ao original, e se a minha imaginação foi superada pelo milagre do cinema. Para dizer a verdade a maior parte das adaptações são muito piores que os livros. Lembro-me da honrosa excepção de «O Senhor dos Anéis» em que algumas vezes abri a boca de pasmo para dizer com os meus botões: isto está melhor do que tinha imaginado.

 

O livro, para exponenciar as vendas, vinha com uma sobrecapa referente ao filme. A minha filha ao vê-lo não resistiu à pergunta sacramental.

 

- Pai, esse livro não existe em filme?

- Sim.

- Então porque é que estás com esse trabalho todo?

- Quero imaginar antes de ver o filme.

 

Uma questão inocente de uma criança de 10 anos que estou certo seria replicada pela maioria dos adultos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Partilhar a cama e dividir as contas.

por Fernando Lopes, 8 Jan 16

Nunca o fiz, nem mesmo quando namorava. Juntava-se a massa de ambos e ia-se até onde o dinheiro desse. Quem faz a gestão financeira da minha casa – para dizer verdade a gestão quase toda – é a minha mulher. Um conhecido, divorciado há uns tempos, decidiu juntar-se com uma moça. Como ela já tinha casa, resolveram ficar em casa dela. Tentou um acordo que se revelou impossível. Como só preciso de 500 euros por mês para as minhas despesas, deposito o resto na tua conta e tu fazes a gestão que quiseres. A rapariga encarou mal, achou que ele se estava a desresponsabilizar, que as despesas tinham de ser divididas a meio e cada um ficar com o seu dinheiro. Diga-se de passagem que ele ganha bastante mais que ela e que a jovem não ficara de modo algum prejudicada.

 

Lamentava-se de nos fins de mês andar a rachar contas com a mulher com que tinha feito amor na noite anterior. Compreendo-o, penso da mesma forma.  Ganho o suficiente para viver sem dificuldades ou luxos, e procederia do mesmo modo. Não me quero chatear com dinheiro, só comprar cigarros, ir a umas jantaradas, comprar uma ou outra peça de roupa. Este procedimento é assim tão anormal? Digam as senhoras e os homens de sua justiça. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há muito que deixei de ler jornais diários, tanto pelo seu custo, como pela disponibilidade que exigem. O mundo de hoje, sempre em gás a fundo, não se compadece com um ritual de uma hora para ler notícias de ontem que já vimos e lemos na TV e internet. Assino a «Visão», um formato de news magazine que me agrada mais, que tem reportagens de fundo e artigos de opinião. É essa a mais-valia que a imprensa escrita pode trazer hoje, jornalismo de investigação, que custa dinheiro e demora tempo a fazer. Por muito cruel que possa parecer, os diários fazem pouco sentido, vivem mais do imediatismo, com orçamentos encolhidos e não respondem ao que pretendo.

 

No cafezito onde costumo tomar o pequeno-almoço a proprietária decidiu substituir o «JN» pelo «Público». A experiência apenas resistiu dois dias, pois os clientes preferem o tablóide. O que os meus vizinhos de café, trabalhadores de uma seguradora, querem é ver as notícias do rapaz de 15 anos que assassinou outro por ciúmes, do homem que matou a mulher e se suicidou, da mãe cancerosa que envenenou primeiro o filho e depois a si mesmo. Isso, raparigas mamalhudas, e bola, muita bola, da 1ª liga aos regionais.

 

Fecham jornais, reduzem-se redações. Os únicos que resistem airosamente são o «CM» e o seu clone nortenho «JN».

 

Todos os jornais deviam ser sérios, no entanto o espaço para o jornalismo sério está a encolher a olhos vistos. Sinal destes tempos de urgência na informação, da iliteracia da generalidade do povo, da falta de tempo e dinheiro. A imprensa não-tablóide tenderá a definhar e morrer, também porque os jornais sempre se declararam «independentes» como se essa independência fosse sinónimo de bom jornalismo. Acho absolutamente normal que existam jornais de tendência como o «Observador» dos inenarráveis José Manuel Fernandes e Rui Ramos. Quando leio a imprensa estrangeira procuro sempre o «Libération» ou «The Guardian», de esquerda ou centro-esquerda. Não consigo entender que em Portugal apenas um jornal online assuma o que pensa e em que campo ideológico se situa.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Veganismo como religião.

por Fernando Lopes, 5 Jan 16

«Cada um come daquilo que gosta». G.A.N.E. – Grupo de Anarquistas e Negócios Escuros. A frase, pichada numa parede perto de casa das tias, ficou-me na memória até hoje. A comida ganhou demasiada importância, passou a sinónimo de luxo, requinte, ou a ter conotações quase religiosas. Poucos poderão ser tão estupidamente fundamentalistas quanto os radicais da defesa dos animais. A P.E.T.A (People for Ethical Treatment of Animals), poderosíssima nos Estados Unidos, chegava a ir a marisqueiras comprar lagostas presas num aquário para posteriormente as devolver ao oceano – e os donos dos restaurantes certamente preocupadíssimos com isso.

 

Estive dois anos sem comer carne, em parte por ter assistido a um documentário sobre a produção industrial de animais. A forma como são criados, como se inventou uma «indústria» da carne, desagrada-me profundamente. Não obstante este facto, concedo que a «criação» de porcos e galinhas proporciona uma fonte de proteína animal barata a muito boa gente que de outra forma a ela não teria acesso. «Comenos demais e proteína animal a mais» é absolutamente verdadeiro na generalidade deste mundo ocidental.

 

E depois? Os poucos vegan que conheço passam o tempo a pensar no que podem ou devem comer, no que é ético e não ético. Tanta preocupação mata o simples prazer de saborear uma refeição. Uns desses tipos estão na fase seguinte do veganismo, quase nem cozinham os vegetais, tofus, seitans e demais tretas vegetarianas. Transformaram-se numa espécie de «Adventistas do Sétimo Dia» gastronómicos, sempre receosos que o pecado lhes invada o prato e o estômago. Quando a comida se transforma num substituo da ética, metafísica e filosofia, existe algo de muito disfuncional naquelas cabecinhas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Da vida.

por Fernando Lopes, 4 Jan 16

mae.jpg

 

Talvez porque seja demasiado sensível, demasiado estúpido, ou tenha a estranha capacidade de reunir ambas as qualidades, frequentemente comovo-me com coisas simples. A cadela da fotografia acima foi mãe. É tratada melhor que muita gente por esse mundo fora. Apesar disso não deixei de tremer quando peguei ao colo um dos cachorros após uma maratona alimentar. A fragilidade, o mistério que é gerar vida, continuam hoje tão surpreendentes como quando era criança.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Aviso à navegação.

por Fernando Lopes, 3 Jan 16

Não há cão ou gato que não dê a sua opinião sobre o artigo 170º do Código Penal, vulgarmente conhecido como «lei do piropo». Inúmeras personalidades se pronunciaram, prevendo a sua utilização exclusivamente no feminino. A Constituição da República Portuguesa no seu artigo 9º, alínea h, consagra a igualdade de género. Embora não me aconteça desde meados dos anos 90, fica o alerta: se alguma senhora ou menina maior de idade se dirigir a mim em termos como «ainda fazia coisas más contigo, ó cota», «apesar da barriguinha manténs um cu jeitoso», «ainda dás para gastar meias-solas» ou algo de similar, arriscar-se-ão a queixa e uma correspondente pena de 120 dias de multa ou um ano de prisão. Sentir-me-ei alvo de «propostas de teor sexual» e não de uma brincadeira. Ou há moralidade ou comem todos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Marmitas.

por Fernando Lopes, 30 Dez 15

Habituei-me a ver marmitas desde criança. Eram usadas sobretudo pelos operários da construção civil que vinham de terras tão distantes como Lousada, Penafiel, Amarante, trabalhar para as obras no Porto. Porque a paga era escassa e os restaurantes abertos à hora de almoço também não abundavam, trazia-se o almoço de casa. Às vezes, no caminho da escola para casa, ficava do outro lado da rua a observar os homens regressarem temporariamente à cozinha da aldeia. Havia sistemas simples e outros mais complexos. Normalmente apenas um tacho, embrulhado num pano, mais largo no fundo e com um laçarote na pega do testo. Esse pano era precedido de um embrulho prévio em jornais, várias camadas, para manter o conduto quente. As mais das vezes aquela gente simples comia apenas com garfo ou uma colher. Comer de faca e garfo era requinte de citadinos, pouco prático dadas as circunstâncias. Existiam também uma espécie de pilhas mágicas em que sobre um tacho maior encaixavam outros menores. Umas vezes dois, outras três. Tinham ganchos laterais e o fundo do menor servia de testo do que se lhe sobrepunha. Uma torre de tachos afunilando para o infinito. Eram mais finos e a comida aquecida sobre brasas improvisadas. O pequeno tinha a sopa, o maior o almoço propriamente dito. Mandavam piadas uns aos outros sobre as qualidades culinárias das mulheres e um piropo à jeitosa do outro lado da rua. Lembrei-me disto ao ver um anúncio qualquer às novas marmitas. Hoje é algo in, sinal de frugalidade. Naquele tempo significava apenas dificuldade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Cura de águas na região dos vinhos verdes.

por Fernando Lopes, 26 Dez 15

arcos.jpg

 

Neste dias em que tudo em pára, remete-se este vosso escriba a silêncio campestre. Recolhe-se ao seu abrigo, e irá conviver com a gente da sua aldeia adoptiva, cabras, garranos e demais bicharada. A porca que se dava pelo nome e gostava de festas foi assassinada. Porque muito que custe a nós citadinos, os animais valem pela função, a sua era ser criada, engordada e comida. Escusado será dizer que não vou ferrar o dente em nenhuns salpicões que ofereçam com medo que pertençam à minha defunta amiga. Aproveitarei sem pudor todo o verde, desde que não seja tinto. Uma malga de tinto deixa os dentes pretos e provoca tal distúrbio intestinal que é melhor nem lhe chegar os beiços. Levo cadernos de notas e um livro oferecidos por dois amigos blogosféricos cuja amizade passou para lá do monitor. Até já.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Carta de princípios para o novo ano.

por Fernando Lopes, 23 Dez 15

Diverte-te como se o fim do mundo fosse já amanhã. Protege os fracos, enfrenta os fortes. Pensa com a tua cabeça, e sobretudo com o coração. Foge do rebanho, sê tu mesmo. Marimba-te para o que os outros acham de ti, excepção feita aos que te são queridos. Dá. Dá o que te for possível e dá sobretudo amor. Não te resignes, luta contra que o achas errado, importa menos quem vence mais o empenho com que se lutou. Sê justo, leal, frontal, mesmo que isso te possa trazer dissabores. Ama até que o peito se fique gasto, cansado, mas esplendorosamente feliz.  Perdoa sempre que puderes, o rancor gasta mais energia que ser magnânimo. Abraça um estranho. Bate palmas a um músico de rua. Sorri, mesmo quando o lógico seria chorar. Um novo ano é metaforicamente um renascimento. Aproveita-o, renasce, vive. Tu mereces.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

  • Fernando Lopes

    Cito-te um grande filósofo desconhecido:- Era capa...

  • soliplass

    Alinhas nisto carago? http://ancorasenefelibatas.n...

  • Fernando Lopes

    São «ajudas» simples, baseadas na sensatez e obser...

  • pimentaeouro

    Não deve ser por acaso que o procuram, parece que ...

subscrever feeds