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Quando estou contigo.

por Fernando Lopes, 12 Out 14

Quando estou contigo as palavras enrolam-se-me na língua, tremo das pernas, começo a transpirar em bica. Quando estou contigo, as coisas são simples, o mar e o céu azuis, não há dúvidas, incertezas, insegurança, amanhã. Quando estou contigo a poesia não é distante, hermética, mas coisa viva, à minha frente, que me sorri. Quando estou contigo, me recolho no teu ombro e choro, todos os males do mundo são insignificantes. Quando estou contigo, estou sempre nu, porque me despes no mais íntimo da alma. Quando estou contigo sou com uma criança que se ri divertida das suas próprias tontearias. Quando estou contigo pareço um marinheiro bêbado, delirante e alegre, porque sei que vou estar contigo.

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Na parede.

por Fernando Lopes, 12 Out 14

drunk_face.JPGRua Miguel Bombarda, Porto

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O histerismo criado à volta dos infectados com ébola em Espanha é uma das hipocrisias do mundo ocidental; enquanto foi uma doença de pretos era indiferente, quando atingiu missionários e religiosas, a estirpe ébola VIP nasceu. Direito a repatriamento par avion e essas tretas. Agora que contaminou europeus que nunca puseram os cotos em África é um Deus-Nos-Acuda.

 

Recordo um conto queirosiano, camiliano, ou qualquer coisa do género, que rezava mais ao menos assim: Duas burguesas senhoras estão a ler o jornal. Ocorreu um terramoto em que morreram 5.000 japoneses. Põem ar sério e grave a comentar a tragédia. Na Europa um incêndio matou 100 operários; aqui já se soltam vários ais e uis, coitadinhos dos operários, que grande drama. Na página última reporta-se que a D. Felismina caiu e partiu uma perna. Gritos, suores frios, grande aflição, saem as duas porta fora alvoroçadas a saber da enferma.

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Caminhada.

por Fernando Lopes, 9 Out 14

Ao sair do trabalho deparo quase diariamente com o passeio de um pai e filho. Não é uma caminhada vulgar, uma vez que o filho terá perto de setenta anos e o pai parece ter ultrapassado os noventa. O pai, curvado, magro e pequeno, de fato e gravata, exibe a dignidade dos anciãos. Caminham de braço dado, apoiando-se, num reflexo de toda uma vida. Enquanto passeiam, conversam baixinho, alternando entre o ar grave de quem se inquieta com os problemas do mundo e o sorriso de pai e menino que nunca deixaram de ser. Perdi o pai precocemente, e com ele morreu também uma relação algo conflituosa. Discutíamos muito, discordávamos frequentemente, debatíamos qualquer coisa, mas sempre tudo acabava em bem. Não tive tempo de amadurecer, de recolher o seu saber, de ser complacente. Gosto de imaginar que também um dia discutiram política, tiveram visões antagónicas do mundo, mas que a relação filial superou tudo isso. Penso que, de algum modo estranho, a nossa relação seria idêntica.

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Como português há cinquenta e um anos ganhei uma enorme indiferença perante a incompetência dos governantes. Pensava que já tinha visto tudo, que nada me poderia surpreender ou indignar.

 

Há no entanto uma questão a que sou extremamente sensível; detesto que me tomem por parvo. Ora isso não tem parado de acontecer nos últimos dias, sem que ninguém assuma responsabilidade pelos falhanços. Ser líder não é apenas «mandar», é coordenar uma equipa e os seus projectos, aceitar com humildade os sucessos, dar o peito às balas nos fracassos. Não é uma prática corrente, bem sei, basta olhar para o néscio que este povo brando e parvo elegeu para PR.

 

Nunca ocorreram problemas significativos, apenas pequenos sobressaltos, que se resolvem com desculpas, como se este tipo de penitência fosse suficiente ou mesmo digno de um governante.

 

Paula Teixeira da Cruz, sempre tão rápida a pedir a cabeça dos seus antecessores, tem a desfaçatez de afirmar que existiram «perturbações» com o Citius, quando todos sabemos que a justiça esteve paralisada durante praticamente um mês.

 

Crato, o bom do Crato, o do «rigor e exigência», aplica-os a todos menos a si mesmo. Um início de ano escolar caótico, erros nas listas de professores, crianças ainda hoje sem aulas. A pérola sobre a questão das colocações: «Todas as minhas afirmações na altura têm de ser lidas com atenção e interpretadas dentro do quadro legal. Os professores mantêm-se, disse. Mantêm-se até às novas listas de colocação corrigidas, que tacitamente revogam a anterior. É a lei.» Algo digno de Pôncio Pilatos.

 

A fleumática ministra das finanças que garantiu que a solução encontrada para os despojos do BES «não continha qualquer risco para os contribuintes», desdiz-se afirmando que a Caixa Geral de Depósitos, vulgo contribuintes, pode ter de «assumir perdas».

 

Dentro desta linha, proponho não a demissão dos ministros, mas a sua exoneração por manifesta incapacidade.

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Pessoas que ardem.

por Fernando Lopes, 8 Out 14

... porque só me interessam as pessoas doidas, que estão doidas por viver, por falar, desejosas de tudo ao mesmo tempo e nunca bocejam nem dizem nada banal... mas que ardem, ardem, ardem como fogos-de-artifício riscando a noite.

 

Jack Kerouac «Pela Estrada Fora - O Rolo Original»

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A pornografia é «coisa de homens»?

por Fernando Lopes, 6 Out 14

Foto: Mark Mawson/Robert Harding /REX

 

A iniciação deste vosso criado ao mundo da pornografia não podia ter sido mais convencional. Após o 25 de Abril surgiram as primeiras revistas da especialidade, nomeadamente a afamada «Gina». No então ciclo preparatório analisávamos o conteúdo com interesse quase hermenêutico. Passado anos surgiram os filmes em betamax que circulavam entre amigos até as fitas ficarem gastas e cheias  de riscos. Recordo-me de, por várias vezes, reposicionar a cabeça, tentando entender a suruba.

 

Leio no The Guardian que o que se convencionou chamar «indústria para adultos» está no seu estertor. Aparentemente o negócio encolheu «cerca de 90%» nos últimos anos. O problema é idêntico ao dos jornais ou cinema, os conteúdos grátis matam a procura convencional.

 

Não sendo conhecedor da matéria sempre me soou a mito urbano o conceito de que as mulheres gostam menos de pornografia que os homens. Um estudo alemão, envolvendo 102 mulheres, logo, com a cientificidade possível, confirma-o. Acredito que enquanto era preciso alugar um filme ou comprar uma revista as mulheres se inibissem de o fazer. No recato possível de um computador somos muito mais parecidos do que imaginamos.

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Ocasionalmente, este coração empedernido, comove-se. Não com histórias de amor grandiosas, daquelas que dão livro e filme, carregadas de erotismo, corpos perfeitos e libidos insaciáveis. Vidas como a do Joaquim e Maria, pacatas, de gente humilde, simples, mas em quem arde inextinguível o fogo da paixão.

 

Foram namorados de infância e juventude em tempos em que o amor, como o conhecemos, era fruto proibido. Joaquim era carpinteiro, exuberante e um bocado boémio. Os pais de Maria não viam nele um futuro para a filha. Quando este foi prestar serviço militar para a Guiné, logo a convenceram de que não retornaria vivo, ou, no caso improvável de tal acontecer, regressaria ainda mais pobre do que tinha abalado.

 

No intervalo da separação forçada, começou a ser visita de casa o Manuel Costa, empregado no Banco Fonsecas & Burnay, moço com alguns estudos, de fino trato e ambições a gerente. A distância corrói a paixão como o metal é consumido pelo ácido. Maria cedeu e acabou casada na Igreja do Bonfim.

 

O ex-militar passou tempos como cão sem dono, gastando aqui, embebedando-se acolá, sendo salvo da sua solidão por Maria da Fé, viúva de peito generoso, pensão certa e tendência para acolher desvalidos. Viveram juntos por décadas, sempre sobre a sua asa prudente e piedosa.

 

Maria enviuvou, Joaquim viu-se também sem a companheira protectora. Encontraram-se por acaso, numa loja modesta da baixa, e logo ali retomaram conversa como se não a intervalasse três décadas de separação. Contra conselhos de filhos e netos, resolveu a mulher do ex-bancário viver com Joaquim. A pensão de viuvez e as modestas poupanças do carpinteiro eram suficientes para uma vida digna.

 

Contam a história como se o seu reencontro fosse uma inevitabilidade, mão na mão, olhos tranquilos, sorriso doce e cúmplice. Há sempre uma segunda vida para o verdadeiro amor.

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g'noc noc

por Fernando Lopes, 3 Out 14

Imaginem arte em qualquer espaço, numa casa, bar, restaurante. Dança, artes plásticas, poesia, performance, em locais improváveis. Uma cidade que se transforma num enorme museu colaborativo, aberto a todos. Cede a sua casa para uma exposição de pintura e com simpatia abre as portas e coração a todos que desejam participar. No seu jardim assentam arraiais músicos e espectadores. É isto o g noc noc, uma imagem da generosidade desta cidade. Porque esta prodigalidade, partilha, é minhota, mas plural. Vemo-nos em Guimarães.

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O cabo Almeida.

por Fernando Lopes, 2 Out 14

Nos idos de Março, o cabo Almeida fez furor por ter dado um show de strip-tease com a arma de serviço. Exibiu o militar, além do material de peleja, depilado rabinho e vistosos abdominais, para gáudio da raparigada. Nada me move contra cabos da GNR ou espectáculos eróticos. Com as remunerações que todos auferimos não me surpreende que o jovem se sentisse tentado a reforçar o modesto pecúlio.

 

Leio agora que, além de jeitoso, o cabo é também trabalhador, pois naquele 8 de Março actuou quatro vezes, performance digna de registo. Querem julgá-lo por «comércio ilícito de material de guerra». Parece-me mal. Primeiramente porque não creio que tivesse intenção de comerciar a Glock, em seguida porque as espectadoras estariam interessadas em outros produtos e serviços que não uma pistola. A não ser que nos estivéssemos a referir à «espingarda de carne», horrorosa metáfora, ao que sei de Lídia Jorge, para pénis. Quem se refere a um pénis como «espingarda» concentra-se demasiado no que é exibido e não no que se faz com ele, além de demonstrar uma visão bélica do acto sexual, que, de todo, não partilho.

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  • Fernando Lopes

    Parece que, pelo menos este blogue, está cheio de ...

  • redonda

    Também sou um bocadinho assim :)

  • Fernando Lopes

    Do que me apercebi, com frequência tentam a quadra...

  • bloga-mos

    Num destes dias no Intendente dizia uma para outra...

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