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Os papéis de género já eram.

por Fernando Lopes, 1 Dez 14

Em 40 anos quanto mudou. Quando era criança os papéis de género era coisa bem definida: o macho provedor, a fêmea fada do lar. A mãe sempre trabalhou, o que à época era caso raro. Hoje em dia é vulgar ver um homem entre tachos e panelas ou uma mulher de berbequim na mão. Cá por casa, a minha mulher tem muito mais dotes para a bricolage que eu.

 

Mas a verdadeira revolução dá-se entre os jovens e crianças. Com uma filha de apenas nove anos admiro com frequência o quanto os paradigmas se alteraram. O raio da miúda anda a fazer colecção de cromos de futebol, actividade totalmente masculina quando tinha a sua idade. Surpreendi-me quanto os rapazes desataram a fazer pulseiras de elásticos com grande entusiamo. Há uns anos atrás seria coisa marcadamente feminina. Hoje, as equipas de futebol são escolhidas independentemente do sexo, tendo em consideração apenas a qualidade dos jogadores(as). Para mal dos meus pecados, o jeito da cria para a bola custa-me uma fortuna em sapatilhas.

 

Daqui a dez, quinze anos, o abraço castrador das coisas de menino e menina não será mais que uma «estória» de velhos marinheiros como eu. Ainda bem.

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Princesa atrás do balcão.

por Fernando Lopes, 29 Nov 14

Animal de hábitos, ao sábado costumo almoçar sempre no mesmo local. Conheço os proprietários e empregados, sei as especialidades, não necessito de me guiar pelo menu. Ao contrário do habitual nos cafés-pizzarias-hamburguerias-cervejarias do tipo, quem faz torradas, tira cervejas, sumos e ice teas, é uma rapariga jovem, não um cinquentão de bigode farfalhudo.

 

Ainda muito nova, está lá desde sempre. Magrinha, pequenina, cabelo escuro e pele muito clara, tem um ar infinitamente melancólico. Ocasionalmente, para quebrar o gelo, mando uma piada, um piscar de olho, um sorriso. A menina-mulher corresponde timidamente e esconde-se atrás da bica de cerveja, como se nada do mundo para lá daquele balcão fosse com ela.

 

Hoje, na falta de empregados de mesa, a princesa saiu do seu castelo e veio trazer-me uma cerveja à mesa. Não resisti a agradecer efusivamente, saudá-la, à rapariga que se libertou da prisão de bolos, croissants e chamuças. Eficácia, num trabalho deste tipo, é fazê-lo sem que se note que alguém existe, como se tudo fluísse sem intervenção humana. À Rapunzel que se esconde atrás do balcão, o meu agradecimento e carinho.

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Bom dia, alegria!

por Fernando Lopes, 28 Nov 14

anibal cunha.jpgLoja abandonada, Rua Aníbal Cunha, Porto

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Vagina com cheiro a pêssego.

por Fernando Lopes, 25 Nov 14

peaches-012.jpgImagem: The Guardian

 

Segundo o «The Guardian» uma startup americana, a «Sweet Peach Probiotcs», propõe-se comercializar um suplemento probiótico, que além de uma acção anti-bacteriana, permitiria uma espécie de truque biológico fazendo com as zonas íntimas das utilizadoras produzissem cheiro a pêssego.

 

Isto cria um problema grave para os fruticultores e consumidores em geral. Quem iria pedir um Compal de pêssego? E se após uma breve passagem pela banca da fruta saíssemos de lá com embaraçosa erecção? Os pêssegos em calda consideram-se uma espécie de vagina pronta a consumir? Os que não são particulares apreciadores de pilosidades púbicas optam apenas por pêssegos carecas?

 

Recorda-me um episódio de décadas, em que uma nossa amiga adolescente recém-vinda de França, quando perguntada sobre que produto usava para a higiene íntima, afirmou convicta: Bilitrão, um velho detergente para a loiça em tamanho XL. Estava obviamente a confundir com o famoso Dystron, um anti-séptico muito em voga nos anos 80.

 

A minha experiência diz-me que o melhor odor feminino é o de uma mulher bem-lavada, a cheirar a mulher. Excepção feita àquelas que por razões de pura falta de higiene não o fazem e consequentemente emanam um desagradável cheiro a pito-mal-lavado.

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Honestidade.

por Fernando Lopes, 25 Nov 14

Neste tempo estranho em que tudo e todos são alvo de suspeição, em que a já reduzida confiança nas instituições, empresas, homens públicos, é abalada todos os dias, um pequeno acto de honestidade pode parecer algo singular e simultaneamente espantoso, devolvendo por um momento fé na espécie humana.

 

A estória conta-se em duas penadas. O comando da garagem vinha manifestando desobediência ocasional ao seu portador, este vosso criado. Como em qualquer situação idêntica e dada a multiplicidade de tipos de pilhas existentes – não estou certo que tal não seja propositado para nos confundir – dirigi-me a uma daquelas lojas de chaves, comandos e afins. Sou atendido por um jovem barbudo e aloirado com pronúncia brasileira e explico o problema. Abre cuidadosamente o aparelho, retira a pilha, mede-lhe a corrente e sentencia:

 

- A pilha está nova, está tudo a funcionar, provavelmente o comando deu um queda que deslocou a pilha ou algum contacto. Verifiquei, limpei, está tudo bem, pode levar, não lhe vou cobrar 2,5 euros por uma pilha nova quando esta está com 80% da carga.

 

Agradeci e vim dali a pensar como tudo seria tão mais simples se as nossas relações, comerciais ou outras, sofressem, como este jovem rapaz, do «síndrome da honestidade».

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Galinha velha ainda faz boa canja.

por Fernando Lopes, 23 Nov 14

A vida de uma mulher pode ser recordada por pequeno actos simbólicos de quebra do statu quo, como casar com um homem mais novo. Ocorre-se-me isto a propósito da morte da Duquesa de Alba, duas vezes viúva e lembrada por ter quebrado convenções ao casar com um homem vinte e tal anos mais jovem.

 

Existe uma razão orgânica para os homens se sentirem «confortáveis» junto de mulheres jovens; somos capazes de reprodução por um período mais longo que as mulheres. Se isto fazia sentido em sociedades patriarcais ou quando ter muitos filhos era o que mais se aproximava de um PPR, nos dias de hoje o preconceito subsiste porque a maioria das mulheres não são capazes de desligar a sua afectividade e sexualidade do que a sociedade convencionou como aceitável.

 

A desculpa feminina muito comum que «não estão para aturar crianças» é completamente falsa. Nós homens, somos e permanecemos crianças, independentemente da idade constante no cartão de cidadão. Uma mulher apenas pode optar por gradações do nível de infantilidade do companheiro, não se pode alhear que a mesma estará sempre presente.

 

Não tenho preconceitos em relação a mulheres mais velhas, se me apaixonasse por uma, seguiria em frente. Apaixonamo-nos por pessoas, não por idades. Cumpre pois às mulheres libertarem-se de estigmas patetas e viverem livremente, ignorando o socialmente correcto.

 

Como diz o ditado, «galinha velha ainda faz boa canja». Provem-no.

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Não peço muito.

por Fernando Lopes, 22 Nov 14

Não peço muito. A frase, ouvida entre a morte do Botas e a desbotada Primavera do Marcello. Poderia exprimir uma humildade ou frugalidade sentidas, na verdade é um manifesto à resignação. Aquando dos desejos para 2014, um dos mais recorrentes era «manter o emprego». Três anos de austeridade, desemprego, humilhação, ajudam a quebrar uma já frágil auto-estima colectiva. A gente já não sonha, não se indigna, já só quer trabalhar, ter comida na mesa, ir ao restaurante uma vez por mês ou num aniversário. Quem podia fugiu, restaram os incapazes e os que os exploram, ridicularizam e humilham numa base diária. Mea culpa, mea maxima culpa. Restaram abutres, sobrevoando a carniça em círculos cada vez mais apertados, e nós, os animais assustados que empurramos os despojos para os bicos dos necrófagos. Restou uma imprensa económica que abraçou a austeridade, flagelou um povo simples e humilde endividado maioritariamente pela compra de casa própria, e continuou subserviente a lamber o rabo aos poderosos. Restou a revolta de meia-dúzia de cretinos como eu, que com uma arma na mão hesitariam entre «limpar» a assembleia da república ou acabar com a sua miséria dando um tiro nos cornos. Mea culpa, mea maxima culpa.

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A minha metade feminina.

por Fernando Lopes, 21 Nov 14

Sempre me soou ridícula a ligação mental que certas mães diziam ter com os filhos. Isto antes de ser pai, claro. Nós homens, muito másculos, a expelir testosterona por todos os poros, não somos dados a essas sensibilidades. Verdadeiros machos, honrosa excepção feita a bruxos e poetas, não querem que se saiba que também temos intuição, sensibilidade, e essas coisas tão femininas. Ora eu tenho uma metade feminina, de 9 anos, a quem me ligam laços para lá do que a ciência define como conhecido.

 

Como eu, a minha metade irrita-se, desespera, e bate com as portas. Tal como eu, logo esquece. Como eu, adora prolongar abraços e beijos repenicados, num perpetuar de carinhos que poderiam ser definidos como «pegajosos». Como eu salta, rapioqueira, se há petiscos e dança, pronta para enfrentar a noite, até que esta, cansada e empurrada pelo nascer do sol, nos segrede ao ouvido que são horas de voltar a casa.

 

O elo inqualificável, fino como um fio de teia de aranha e resistente como um cabo de aço, existe. Já o tinha sentido antes. Hoje, com a criança doente, mesmo antes de ligar a indagar do seu estado, sabia que estava bem. Uma comunicação por essa linha inexistente, e pela qual no entanto, transmitimos. Mandando para trás das costas preconceitos, percebi finalmente o que quis dizer Shakespeare quando escreveu «Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia».

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Faca na banca de jornais.

por Fernando Lopes, 20 Nov 14

Bowling4columbine.jpg

 

No ano de 2002, Michael Moore lançou um documentário, «Bowling for Columbine», que na sequência do massacre na escola com o mesmo nome, questionava a tradição da liberdade de porte de arma existente nos EUA. Olhámos com incredulidade na facilidade com que os cidadãos norte-americanos podiam adquirir todo o tipo de armas, inclusive material de guerra. Como máxima deste disparate, um banco no Texas, que na abertura de uma conta oferecia uma carabina e respectivas munições. O narrador questionava a sra. do banco, sobre o paradoxo de um lugar apetecível para assaltos, oferecer aos clientes material para os mesmos.

 

- Não acha perigoso? Não lhe parece tolo? Nunca um cliente insatisfeito ou demente vos ameaçou com a vossa «oferta»?

 

Com impassibilidade a bancária achava tudo aquilo absolutamente natural. Rimo-nos – eu ri – das maluquices e idiossincrasias americanas.

 

Hoje, quando fui comprar cigarros à tabacaria do Sr. Lopes, bem por cima do JN e Correio da Manhã, um enorme conjunto de facalhões de cerâmica. Numa pequena tabacaria, em que normalmente só trabalha o proprietário, desprotegida, com dinheiro na caixa, aquilo pareceu-me tão despropositado como a oferta bancária americana. Indaguei-o, reagiu com a bonomia habitual. É natural, nunca aconteceu nada, etc. etc.

 

No dia em que se der um drama, e um tresloucado assaltar, ou pior, matar um pequeno comerciante, de quem é a culpa? É o nosso ridículo assim tão diferente do americano?

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Porque escreves, Fernando?

por Fernando Lopes, 18 Nov 14

Podia tentar respostas complexas, falar de sensibilidade, armar-me em candidato a artista. A razão é muito mais prosaica: escrevo porque necessito de ser amado. Em mim ainda existe o rapazinho que foi criado como filho único, sem companheiros de brincadeiras, que se entretinha sozinho. Nunca fui especialmente popular ou dotado. Aluno razoável, desportista mediano, tirando meia-dúzia de amigos incondicionais, sempre fui um solitário. Escrever publicamente funciona como uma dupla catarse; encontro alguém que do lado de lá da internet faz minhas as suas dúvidas e partilha idênticas angústias. Um modo simples de dizer aos outros e a mim mesmo, não estás só.

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