Domingo, 06.04.14

As mulheres só gostam de quem não podem ter.

Algumas – muitas – mulheres nascem com uma certa atracção pelo abismo. Um tipo simpático, trabalhador, humor estável, sexualmente activo e emocionalmente maduro, é uma seca, previsível, chato. Dêem-lhes um que salta de cama em cama, capaz de as deixar penduradas de vestido de noite, com tendência para a hipérbole e fogacho da paixão, problemas com a bebida ou tendências S&M, encará-lo-ão como um desafio. O normal é sinónimo de sensaborão. Esta mania feminina que faz delas psicólogas e enfermeiras em potência causa a solidão de muito bom homem. E mulher também.  

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Fernando Lopes às 21:54 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Sábado, 05.04.14

Sobre as probabilidades de ser corno.

Existem «estudos» sobre tudo e um par de botas; no JN uma análise certamente científica das probabilidades de ser corno tendo em conta a profissão. Como é que alguém confessa o inconfessável? Através de um site de encontros para pessoas casadas. A experiência ensinou-me que ninguém é totalmente confessional sobre o que se passa debaixo dos panos ou fora deles, e ainda bem que assim é.

 

Ser corno afecta sobretudo a auto-estima do traído. Seguindo a tradição de serviço público do purgatório deixo aqui aviso solene: se o vosso(a) companheiro(a) é dona de casa, vendedor, médico ou enfermeira cuidai por onde passais pois podereis ter barrosã elegância.

 

Se pelo contrário, poucos dados a análises idiotas, amai o vosso parceiro e dizei-lho com frequência, criai pequenas surpresas, fazei o amor sempre que puderdes, respeitai-vos, e já agora, não percais tempo com estudos idiotas ou blogues que os analisam com um toque blasé.

Fernando Lopes às 12:41 | link do post | comentar | ver comentários (9)
Quinta-feira, 03.04.14

Sobre a Madame Xoné, Soliplass diz tudo.

É por isso que em boa verdade vos digo: mandai levar na bujarrona a Jonet e as suas redes sociais como inimigo, feicebuquai quanto quiserdes, horizontalizai com estranhos ou próximos que não só de empregos é feita a vida em sítio onde valha a pena viver. É de trabalho e humanidade.

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Fernando Lopes às 19:46 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Mulheres sem volante.

Ocasionalmente deparámo-nos com fenómenos que conhecíamos apenas intuindo e o peso que podem ter no nosso quotidiano. Quase todas as mulheres entre os 40 e 50 anos estão legalmente habilitadas a conduzir. No entanto uma imensa minoria tirou a carta na juventude e recusa-se a pegar num automóvel e levá-lo de um lado para o outro. Vieram-me logo à memória uma boa meia dúzia de casos assim enquanto um amigo me recordava um episódio pícaro. Acometido de uma gastroenterite teve de se conduzir ao hospital com a comparsa ao lado enquanto parava ocasionalmente para vomitar e contraía os esfíncteres para não se borrar pelo caminho. Tudo porque num daqueles bloqueios de difícil explicação, a mulher escusa-se a ficar atrás de um volante. Amputadas de mobilidade, seguem de um modo próprio o mote da “Farsa de Inês Pereira”, «antes quero asno que me conduza que cavalo que me derrube». Guiar, goste-se ou não, pode ser sumamente útil numa urgência ou doença súbita, além de nos permitir não depender de ninguém para ir onde se quiser, quando se quiser. Como deduzo que a maioria dos leitores aqui da tasca são senhoras, alguém me explica a razão para esta mania, muito mais comum do que se julga? 

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Fernando Lopes às 19:34 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Terça-feira, 01.04.14

O carácter como bem escasso.

Numa organização altamente hierarquizada habituei-me a ser leal; não digo amém pela frente e ridicularizo por trás. Independentemente da bondade ou justeza das decisões, nunca contarão comigo para ser sorrisos no frontispício, facadas pelas costas, esse modus operandi que é hoje a anormalidade normal.  Hoje A disse a B, «gosto muito de ti mas evito falar contigo para não desagradar a C, que não te suporta». Sinal dos tempos, o medo como motor, o carácter como bem escasso. 

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Fernando Lopes às 20:02 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Segunda-feira, 31.03.14

Arte na rua.

Óptica na Travessa de Cedofeita, Porto

Fernando Lopes às 22:43 | link do post | comentar
Domingo, 30.03.14

Casa de Pasto "O Luís", Castelões.

Mais uma peregrinação anual a S. Torcato, um momento de agradecimento ao santo pela maior das bênçãos recebidas até hoje; uma filha saudável.

 

Depois da fé a comezaina, um repasto-convívio com quem partilhou connosco momentos difíceis, esteve e está sempre ao nosso lado. Os meus amigos são um manual vivo das tascas da região. Desta vez propuseram um local rústico na freguesia de Castelões, no extremo do concelho de Guimarães. É uma casa de pasto, numa freguesia rural, com a simplicidade típica deste tipo de estabelecimento. A especialidade da casa é o bacalhau, podia-se também optar por vitela e polvo.

 

O local tem bancos corridos, propicia a conversa, o «picar» de todos os pratos. A vitela assada não desilude nem deslumbra, o polvo, apresentado de modo simples, acompanhado de azeite e batatas a murro apresentava-se com a consistência ideal, nem demasiado cozido, nem sofrendo do efeito chiclete.

 

Não sendo grande apreciador do «fiel amigo» comi com gosto o bacalhau à casa. Boa posta, desfazendo-se em enorme lascas, correctamente temperado com um toque de alho e batatas a murro. Encontrámos no local o presidente da Câmara de Guimarães, um toque interclassista demonstrativo da frequência da casa.

 

Não direi que foi o melhor bacalhau da minha vida, mas certamente um local a conhecer para os apreciadores do gadídeo. O Luís tem facebook, donde foram retiradas as fotos.

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Fernando Lopes às 22:35 | link do post | comentar
Sábado, 29.03.14

Lenine (o outro).

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Fernando Lopes às 23:37 | link do post | comentar

Parado.

Há momentos em que a vida pára. Não no sentido de morte, mas na encruzilhada em que não  estamos certos do caminho a seguir. Continuamos fiéis a ideais e princípios transformando-nos numa imitação barata de Quixote, adaptámo-nos ao tempo estranho que corre, deixámo-nos ir na corrente ou nadamos vigorosamente contra?

 

Não tive vontade de sair do quente e recolhido útero materno, debati-me 7 horas para levar com este mundo nas ventas. Na verdade não nasci, obrigaram-me, pressentia que tudo o que se recorda são efemeridades de fortuna e alegria. Nasci roxo, como qualquer criança que luta para não nascer. De forma estranha, quase premonitória, vinha com a cor do luto em mim.  

 

Assim, perdido e parado, olho em volta sem saber o rumo. Melhor manter a cerviz direita, escolher um destino e seguir a estrada. A algum sítio me há-de levar.

Fernando Lopes às 02:51 | link do post | comentar | ver comentários (8)
Quinta-feira, 27.03.14

Pequenos monstros competitivos.

Ser criança hoje é muito mais difícil que há 40 anos. A minha filha, no 3º ano já sofre da «angústia dos testes». A escola do meu tempo era baseada na memória, não no raciocínio. Debitávamos conhecimentos – aprendi p. ex. todas os apeadeiros da linha da Beira, eu que nunca pus os pés em Moçambique. Hoje os miúdos são colocados perante problemas e testa-se a sua autonomia e raciocínio, não a memorização.

 

Não sou de todo um especialista em educação, mas tenho a ideia que a escola prepara-os mais para pensar que para decorar e isso é bom. Terão menos conhecimentos enciclopédicos que se recordam e desmemoriam enquanto o diabo esfrega um olho.

 

O espírito competitivo é muito maior, as exigências dos pais também. A Matilde chorou de frustração quando tirou um “suficiente” a matemática, no meu tempo o importante era que passássemos de ano. Sou incapaz de avaliar se o ensino é melhor ou pior, sinto no entanto que estamos a roubar a infância às nossas crianças. Exigimos mais, a escola exige mais, as crianças brincam e socializam pouco, têm imensos trabalhos de casa, perde-se o lado lúdico e descontraído da infância. Será que estamos a criar seres humanos ou pequenos animais de competição? 

Fernando Lopes às 19:50 | link do post | comentar | ver comentários (10)

O cão que cheirou o cretino.

Ontem no JN, uma pequena notícia de última página que poderia constar dos absurdos de Nuno Markl. Numa escola do interior as forças da ordem, numa acção de prevenção ao consumo de droga, levaram equipas cinotécnicas para uma demonstração das capacidades dos canídeos. Durante a palestra os animais ficaram excitados com um determinado aluno. A polícia resolveu aclarar o motivo do entusiasmo e descobriu mais de 5 gramas de haxixe num jovem de 18 anos. Fica-me a dúvida se o miúdo era parvo, ignorante ou reunia ambas as qualidades. Provavelmente a expressão «equipa cinotécnica» era-lhe desconhecida. Estupidez ou ignorância, este marmelo não tem perdão. Castigo sugerido: dois abanões, um bom par de calduços e como Bart Simpson escrever 100 vezes no quadro «Não vou levar droga para a escola, especialmente se lá forem as autoridades.»

Fernando Lopes às 00:04 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 25.03.14

Kidults.

Uma interessante reportagem do The Guardian avança com dados sobre jovens entre os 19 e os 29 anos que vivem em casa dos pais. Se hoje entre mestrados e doutoramentos se prolonga a permanência na domus paterna, isso não explica tudo. O rácio de mestrandos e doutorandos em Portugal não é justificação capaz para que 55% dos jovens estejam nesta situação. Os simplistas neo-liberais avançam com o sacrifício financeiro, o investimento de tempo que é necessário à parentalidade. Os nossos filhos são criados com mais conforto que nós, que nos transformamos em pequenos lordes face às adversidades com que os nossos pais lidaram. Querer dar qualidade de vida melhor que a nossa não é pecado, é legítima aspiração.

 

O estudo demonstra que a autonomia está directamente ligada ao emprego e à capacidade de com os seus rendimentos ser capaz de uma vida independente. Cerca de 60% dos jovens com trabalho vivem sozinhos ou com companheiro(a) e crianças. O problema demográfico não tem nas dificuldades em encontrar trabalho a única explicação, no entanto uma percentagem significativa do aumento da dependência paterna - algum tipo de privação* - acontece nos países em crise (mais 20% em Espanha, 18% em Chipre, 17% em Portugal e 15% na Grécia). 

 

Se é certo que a relação trabalho-natalidade não é linear, não parecem existir dúvidas que com uma menor taxa de desemprego jovem, esta tenderia a aumentar. Os jovens em idade fértil estão a emigrar em massa, irão ter os seus filhos nos países de acolhimento, não quererão viver nesta colónia de gerontes em que Portugal se está a transformar.

 

Ser pai é uma decisão irrevogável, ter filhos nunca foi tão difícil, como escreve um dos arautos do saloio-liberalismo à portuguesa, Henrique Raposo. O jovem cronista teve nas suas próprias palavras, uma vida fácil, criado em «redor do abastecimento do eu». Nem todos foram educados assim, muitos estão dispostos ao abdicar, palavra-chave da paternidade, assim os deixassem.

 

Como tudo agora se mostra em gráficos, aconselho a leitura atenta do estudo linkado acima, mais este pedaço de prosa. Faça a sua análise, tire as conclusões.

 

(*) adicionado

Fernando Lopes às 20:47 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Para desanuviar.

Uma turista francesa olha com estranheza para a vendedora com um saco de nozes à frente:

 

- Comment s’apelle?  

- Não menina, isto tem casca.

- Comment?

- Parte-se com um quebra-nozes, um martelo.

- Je ne comprends pas.

- Atão se num’quer comprar para que é que me está a chatear?

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Fernando Lopes às 18:54 | link do post | comentar
Domingo, 23.03.14

Masterchefa.

Arroz: de pato, polvo, sarrabulho, cabidela, adoro arroz. Cá em casa vivemos em permanente dilema, eu quero sempre arroz, a filha massa. A Teresa é uma excelente cozinheira mas o dia-a-dia não permite grandes sofisticações na cozinha; importa algo rápido e nutritivo.

 

É famoso o arroz de pato destas bandas, mas somos poucos e o tempo demasiado escasso para ser perdido entre tachos e panelas.

 

Um dos pratos preferidos cá em casa é o arroz de polvo com filetes do mesmo. Hoje, num assomo de Masterchefa a senhora que manda cá em casa decidiu presentear-nos com uma das suas pérolas culinárias. É como a foto demonstra, em bom. 

Fernando Lopes às 14:09 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Sábado, 22.03.14

Leituras.

 

Diário de um monstro e crónica de intrigas de uma sumptuosa corte italiana na Renascença, “O Anão” (1944) é um retrato exemplar da perversidade humana e uma exímia dissecação do mal. Piccolino é um anão na corte de um poderoso príncipe, que, a mando do seu amo ou por vezes, a seu bel-prazer, espia, despreza e tortura os que o cercam. Mas, abandonado pela mãe à nascença e rejeitado pelo mundo devido à sua fealdade, o seu ressentimento e ódio ao ser humano são o reflexo desesperado da sua solidão. É por este emissário acometido de delírios de grandeza que assistimos a conspirações, a traições, à peste que assola a corte e a assassínios. É por ele, também, que vemos o que o protagonista se recusa a ver: a sua deformação moral, e não a física, está na origem do mal que o rodeia, e a sua maldade faz dele uma criatura mesquinha e miserável.

 

 

Um pequeno livro sugerido pelo Carlos, que é um tratado sobre a deformação não física mas moral, sobre o maquiavelismo da mente humana, o totalitarismo, guerra, servidão, tortuosidade, uma antítese da teoria de Rosseau do «bom selvagem».

 

Intemporal porque profundamente revelador de uma certa natureza humana, hoje com maior agudeza que nunca.

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Fernando Lopes às 12:30 | link do post | comentar | ver comentários (6)
Quinta-feira, 20.03.14

Desrespeito pelos desempregados.

Embora aqui e ali surja um lampejo de esperança, quem está desempregado, independentemente das qualificações, raramente vê luz ao fundo do túnel. Hoje em dia a maior parte das ofertas de emprego surgem não através dos media convencionais, mas da internet. Pedem o envio de um curriculum via email. Tudo normal, a rapidez e simplicidade do meio, para ambas as partes, justifica-o plenamente. Mas empregadores ou empresas de RH adoptaram uma prática desrespeitosa para quem procura trabalho. Não enviam uma resposta. Seria expectável que fizessem uma mailing list e agradecessem, dizendo que às pessoas não tinham sido seleccionadas. Nada. Em cada cem empresas, uma tem essa delicadeza. E isso também diz muito sobre a sensibilidade de quem contrata e o apoio que irá prestar aos futuros colaboradores.

Fernando Lopes às 19:23 | link do post | comentar | ver comentários (13)
Quarta-feira, 19.03.14

Prova de esforço.

Na segunda-feira fiz pela segunda vez na vida este teste cardiovascular. Eu, macho orgulhoso, que procuro evitar todo e qualquer exame, lá fui, rabinho entre as pernas. A rapariga que controlava o teste manda-me tirar a camisa. Se pudesse exibir um corpo atlético certamente o teria feito com outra desenvoltura, assim fiquei constrangido em exibir uma cintura de 98 cm e umas mamas que fariam inveja a muitas pré-adolescentes.

 

Não bastava este embaraço evidente, a jovem arma-se de Gillette e avisa que vai ter de me depenar para colar os eléctrodos. Fiquei assim tipo Cristiano Ronaldo em badocha, mas só em algumas partes. Dá um efeito giro, qualquer coisa de pós-punk, mas faz uma comichão do caraças.

 

Entendi porque não sou feito para ginásios; a passadeira faz-me trocar os pés, eu que não sou propriamente dos tipos com a melhor coordenação motora do mundo. A geringonça andava cada vez mais depressa e tinha inclinação, pelo que só resisti até aos 85%. Podia ter feito um bocadinho mais, mas tenho a sensação que me finava antes do teste terminar.

 

Suado como um cavalo que acaba de fazer as alegrias dos apostadores, lá me limpei e constatei uma possível melhoria de serviço. Não usam tolhas, antes um papel tipo rolo de cozinha. Nem sou um cliente exigente mas uma toalha de algodão daria certamente outra qualidade ao serviço prestado.

 

Saí dali com a certeza que a prova de esforço foi tão dura para mim como para a técnica. É que ver um tipo de 51 anos, longe de atlético, transpirado e ofegante, não deve ser propriamente o sonho de uma rapariga de 30 anos. Mas ao menos a ela, pagam-lhe!

Fernando Lopes às 01:03 | link do post | comentar
Segunda-feira, 17.03.14

Heterodoxias.

Ao ler a crónica de José Manuel Pureza, com que concordo em grande parte, gostaria que a questão fosse colocada de modo mais abrangente. “Há quem ainda o faça à bruta - as 14.700 queixas de violência doméstica apresentadas à polícia só no primeiro semestre do ano passado atestam-no bem.” Nesta guerra, como em todas aliás, é este maniqueísmo assusta. Um homem que é vítima de violência física e principalmente psíquica por parte da companheira raramente apresenta queixa, e no entanto muitos são vítimas de constante pressão psicológica, desvalorização, achincalhamento, numa base diária, não há é estatísticas que o comprovem.

 

Não sei bem em que planeta vive JMP, mas existem muitos homens que se dedicam à paternidade em full-time sem que isso os diminua ou estigmatize. É uma opção, respeitável como qualquer outra. Embora subsistam desigualdades – a questão de salários p. ex. – notam-se claramente mais mulheres em cargos de chefia, governação, na sociedade em geral.

 

O lugar das mulheres – e dos homens – é onde se sentirem felizes, completos como seres humanos; se isso é em casa ou à frente de uma multinacional é-me completamente indiferente.

 

Antes da identificação de género, há um grupo mais abrangente a que todos pertencemos – a humanidade. Um homem declarar-se feminista é perfeitamente legítimo, eu cá prefiro proclamar-me humanista. 

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Fernando Lopes às 00:00 | link do post | comentar | ver comentários (10)
Domingo, 16.03.14

Fidelizado.

Tenho passado as últimas três semanas em casa, com ocasionais caminhadas por prescrição médica. Detectei uma nova praga, a dos vendedores de triple - agora é quadruple - play. A concorrência é tão grande que não há um único dia em que não receba duas ou três chamadas a propor as maravilhas incomparáveis de um qualquer operador. Ora como sou um rapaz bem-educado, costumava receber e responder a todos. Um inutilidade, uma vez que os serviços ligam a confirmar se o vendedor cá esteve, aparecem-me no mesmo dia dois tipos da mesma empresa, telefonam ininterruptamente e a coisa já roça o massacre. Resolvi a coisa dizendo que estou «fidelizado».

- Boa tarde, queríamos falar-lhe da ZON.

- Desculpe, estou fidelizado ao MEO.

Repito a resposta independentemento do operador.

Que se fodam, e assim sucessivamente como diria o saudoso João César Monteiro.

Fernando Lopes às 02:04 | link do post | comentar | ver comentários (8)
Sexta-feira, 14.03.14

Churrasco à Angolana.

Há no meu bairro uma churrasqueira já com umas décadas, especializada em «churrasco à Angolana». É um local simples, toalhas de papel na mesa, que vende comidas populares; frango assado, fêveras, costelinhas, tripas. É frequentado por trabalhadores da construção civil, vendedores, amanuenses, funcionários públicos e todo a imensa mole que se convencionou chamar classe média ou trabalhadora.

 

O dono é um homem baixinho de um ar sinistro. Deve ter mais de sessenta anos, olhos encovados, careca. Os poucos cabelos laterais que lhe restam são de um preto muito profundo, nada natural. Anda sempre ligeiramente curvado, deslizando entre as caixas registadoras, ora a do take-away ora a do restaurante. Tudo nele é insidioso, como se empregados ou clientes estivessem a preparar-se para o assaltar. Põe sempre os pacotes de batatas com muito menos quantidade do que seria expectável, tem um cuidado meticuloso quando enche os recipientes de alumínio de arroz, como se uma batata ou colher de arroz a mais fossem a sua ruína. Uma personagem de Dickens nos tempos modernos.

 

Quem está à frente do grelhador da comida para fora é uma mulher mestiça, de idade indefinível; tanto pode ter quarenta e muitos como sessenta. É a responsável pelas costelinhas, frangos, espetadas. Vira as carnes, chama o número de cliente para ser servido com uma melancolia profunda, maquinalmente, como se nada fizesse sentido. Os olhos castanhos são vítreos, olha como se não estivesse a ver, vejo reflectido neles a minha própria angústia, como se estivéssemos já mortos por dentro e nos limitássemos a fazer maquinalmente o que esperam de nós, sem lampejo de paixão ou revolta.

 

Só frequento o estabelecimento em desespero de causa, para dizer a verdade já lá não vou há anos. Naquelas duas personagens estão duas mundividências, a do avarento explorador e a do trabalhador resignado. Um microcosmos a cheirar a frango e carvão onde está reflectida a nossa sociedade. Não gosto do que vejo, identifico-me com a mulher. Também eu, com um diferente grau de sofisticação estou há vinte e tal anos a «virar frangos», a fazer o que se espera que seja feito. Quantas centenas de milhares como nós terão abdicado da vida para a ganhar?

Fernando Lopes às 02:12 | link do post | comentar | ver comentários (11)
 

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