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Sentir-me bem só por me sentir mal.

por Fernando Lopes, 13 Ago 17

Olho ao meu redor e invejo-os, a eles, às suas vidas normais, às suas mulheres anafadas, aos filhos com ar de parvo, corte de cabelo estranho e Playstation na mão. Invejo-lhes o BMW em segunda mão, as férias em Quarteira, o polo aperreado a salientar a pança. Queria que a minha única preocupação fosse a derrota do Porto, aceitar tudo, não questionar nada, não ter angústia, desconforto, insatisfação permanente. Depois olho para as minhas mãos, permanentemente transpiradas. Assim desde sempre. Entendo que esse estado estranho de aflição é a minha natureza. Sorrio, porque sei que sentir-me mal é o meu modo de me sentir bem.

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As iludências aparudem.

por Fernando Lopes, 8 Ago 17

Estava com um amigo a conversar sobre a vida, o amor, as mulheres – nós homens, falamos tanto de mulheres como as mulheres de homens. Trocavam-se ideias sobre frustrações e sucessos, amores e desamores.


- Oh pá, há já 25 anos que vejo sempre o mesmo pipi.

 

O companheiro soltou uma sonora gargalhada. Constatou que pelo meu ar descontraído e desbocado tinha a ideia que seria um conquistador ocasional. Nada mais falso, é-me intrínseco ser caninamente fiel. Fiquei a pensar quantas pessoas me julgariam assim. A minha natureza informal é inversamente proporcional ao jeito e vontade para relações ocasionais.

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O Facebook como prova de vida.

por Fernando Lopes, 6 Ago 17

Não ligo nada para o facebook. Como qualquer fenómeno global, traz apenso uma enorme camada de pessoas desinteressantes e os seus pensamentos vazios, repetidos por outros seres igualmente desinteressantes até à náusea. Os que utilizam este rede de forma intensiva acham que nada mais existe. Já me convidaram para festas através do facebook – tãoooo estranho e despersonalizado –, já questionei se tinham chegado bem da viagem e recebi como resposta : «não viste no facebook?». Por acaso não, até tenho mais que fazer. Basicamente ignoro a coisa, não merece que se gaste cera com tão ruim defunto. Outro princípio é que aceito amizade de toda a gente. Custa apenas um clique fazer de conta que alguém tem importância para nós. Há um rapaz que conheço pessoalmente de quem tive de desligar as notificações, pois o marmanjo fazia check-in em tudo quanto era sítio. Manuel está a tomar um copo em Leça, está nos Passadiços do Paiva, na Piazza del Popolo em Roma, enfim, só não recebi notificações de que estava na casa de banho. Tudo acompanhado de bonitas fotografias. Não conheço bem a sua história, acho que a mulher lhe pôs os patins, a namorada fez o mesmo. Anda o pobre, quase cinquenta anos de vida, igualzinho às putas que chamavam clientes à porta de pensões de alta rotação. Uma tristeza profunda, ali à vista de toda a gente.

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Nós é que somos o sexo fraco.

por Fernando Lopes, 3 Ago 17

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Perdoar-me-ão as minhas queridas leitoras, mas este é um momento de algum machismo. Não o sendo, perpassa pelos meus olhos passa uma visão masculina do mundo. Sendo alguma coisa – que não sou – enquadar-me-ia no «masculinismo». Tenham paciência, mas não posso deixar de defender a mundividência no masculino. As senhoras são mais espertas que nós, têm habilitações superiores, orgasmos múltiplos, capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, geram humanos e humanidade nas vossas barrigas. Nós é que somos o sexo fraco. Não fossem tão competitivas entre vós já dominariam o mundo há séculos. Tenho para mim que a maioria das mulheres prefere não aparecer, governando por entreposta pessoa. Gosto muito do meu género, mas entendo bem os transexuais que passam do masculino para o feminino. Há ganhos óbvios. Já o contrário parece-me má transacção. Surge isto a propósito de trabalho. Uma mulher – principalmente as solteiras, que abdicaram de uma vida e das responsabilidades familiares – são feras, conseguem trabalhar mais e melhor durante mais tempo. Pelo que observo as casadas dispersam-se mais, os filhos e os cretinos dos maridos consomem-lhes muitos recursos. Se fosse empreendedor contratava preferencialmente mulheres, solteiras se possível. Antes que comece o apedrejamento digo já que as minhas amigas casadas são igualmente competentes. Algumas delas são académicas reconhecidas, outras comandam departamentos, têm negócios, eu sei lá. Livres dos emplastros masculinos, o céu seria o limite.

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O reino do espertalhaço.

por Fernando Lopes, 2 Ago 17

É desde ontem destaque nas notícias um restaurante lisboeta que rouba turistas à descarada. No espírito sobrevivo do nacional-parolismo, os estrangeiros que nos visitam ainda são aqueles seres endinheirados, louros e gordos, que devem pagar uma espécie de imposto por estar a usufruir do espaço que é nosso, à boa maneira da idade média. Embora vergonhoso, é bem o espelho do chico-espertismo nacional, no país onde quem foge aos impostos não é criminoso mas espertalhão.

 

Paga-se e têm-se a sabujice, o servir primeiros os camónes em vez dos nacionais – esses ao menos deixam gorjeta, o linguajar em portunhol e quejandos, o desfazer-se em mesuras com a alemã avantajada como se da Claudia Schiffer se tratasse. Num velho jogo adolescente em que ingenuamente cheguei a participar, «sacar uma estrangeira», feia que fosse, dava mais pontos que conquistar a mais bela lusa. Está.-nos no sangue e pronto, aplica-se indiscriminadamente da alcova à restauração.

 

Este episódio fez-me lembrar um outro, mais de quarenta anos passados. Nas primeiras vezes que fomos ao Algarve (71 ou 72), jantamos em Faro num local que só tinha lista em inglês. Perante os protestos do pai – lembro-me porque o episódio me constrangeu – lá se justificaram que ainda estavam a fazer a lista em português. Uns percebes a saber a borracha, uma açorda de marisco de onde o dito se encontrava ausente – ao menos o pão estava molinho – e uma conta exorbitante depois, guardei para sempre essa imagem de como era ser estrangeiro no seu próprio país. Não mudou nada, os portugueses continuam a ser uns espertalhaços.

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Uma noite, uma tarde, dois filmes.

por Fernando Lopes, 27 Jul 17

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Quando era solteiro ia pelo menos uma vez por semana ao cinema. Casei, a vida mudou, os cinemas e os filmes também.

 

A primeira vez que fui ao cinema à noite tinha dez anos. Eu e o meu melhor amigo contamos aos pais a velha treta que íamos com o pai do outro e bora lá para uma sessão nocturna no Carlos Alberto. As cadeiras de pau custavam 7$50 (0,035 cêntimos para os mais novos), a plateia com cadeiras acolchoadas 10$00 (0,05 cêntimos). Sim, há 40 e tal anos, nos velhos cinemas populares, um bilhete custava 5 cêntimos.

 

Ontem, no Hollywood, vi um filme francês, «Amigos Improváveis», baseado numa história verídica, que conta a amizade entre um milionário francês paralisado num acidente de parapente, e um emigrante senegalês com um passado/presente atribulado. Uma bela história, plena de humanidade e momentos de humor. O jovem senegalês traz à vida de Phillippe uma irreverência e um tratamento igualitário a que este se tinha desabituado.

 

O de hoje, «Planeta dos Macacos: A Guerra» diverge muito do blockbuster de sci fi que esperaríamos. É sobretudo um filme sobre o mais humano dos sentimentos, a ânsia de vingança. Não é carne nem peixe, pois se desiludirá os intelectuais, terá efeito idêntico sobre quem espera um filme de acção. Está algures entre uma coisa e outra, e sem ser brilhante, também não desmerece.

 

Ide ao cinema jovens, ide, nem que para isso tenham de pregar um pêta aos pais.

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Tão perto quanto possível.

por Fernando Lopes, 25 Jul 17

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A minha filha deve ter engolido algum plano quinquenal soviético, pois nesta semana que vai passar comigo estava preocupadíssima em «planear actividades». Gosta de ter tudo planificado, já marcamos a sessão de cinema, o safari fotográfico e sei lá mais o quê. Hoje era dia de ir ao Zoo de Santo Inácio, em Vila Nova de Gaia. Diverti-me tanto quanto ela a admirar búfalos, girafas, rinocerontes, lontras, capivaras e demais bicharada. Os leões estão num enorme recinto e passeamos pelo seu habitat dentro de uma espécie de tubo vidrado como nos oceanários. Parece que os bichos gostam de se deitar ao sol em cima dos vidros. Não terão estes mais de dois metros de altura, e o vosso escriba podia tocar na leoa a bronzear-se. Por muito que tentasse, não consegui deixar de exprimir um entusiasmo quase infantil. Fica a fotografia como testemunho desta criança que insiste em não me abandonar.

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Das maravilhas do «outsourcing».

por Fernando Lopes, 25 Jul 17

Um tipo bateu no carro da minha mulher, que estava estacionado. Enviei a participação de sinistro para o primeiro email que me apareceu daquela companhia. Como uma semana passada não obtive resposta, liguei para um call center. Lá explicaram-me que apesar de todas as companhias pertencerem ao mesmo grupo segurador, deveria enviar para a companhia A e não para a companhia-mãe. Assim fiz. Oito dias depois recebo um email do remetente original a dizer, não é connosco é com B. Sem indicação do endereço para o qual enviar. Nada. Insisti para ver se a sra. fazia forward para o endereço correcto. Recebo mais um email lacónico a dizer «Esta mailbox é de X, envie para a companhia Y». Endereço, de grilo. Percebo que o email é de uma outsourcer. Era mesmo. Quer a jovem que os clientes entendam por si a relação que existe entre as várias seguradoras do grupo. Um atendimento deste tipo é assassino para a reputação, no entanto muitas das grandes empresas portuguesas continuam a externalizar serviços a empregados de ninguém, a quem pagam patacos. A poupança em custos com pessoal é imediata, os danos na imagem só serão visíveis no longo prazo. Continuem o bom trabalho, e já agora, citando Saramago, externalizem também a puta que vos pariu.

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É assim paroquial este nosso Portugal.

por Fernando Lopes, 21 Jul 17

Vejo a síntese das notícias num canal televisivo. É destaque a visita de Madonna e refere-se que a artista «visita Lisboa cada mais frequentemente e até já reservou hotel para a próxima estadia». Portugal é de um provincianismo assustador. Pense-se se a visita privada de uma cantora seria notícia de abertura de telejornal na Inglaterra, França, Alemanha. É assim paroquial este nosso Portugal.

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Estilhaços do «ajustamento».

por Fernando Lopes, 19 Jul 17

Falava há dias com um amigo a residir e trabalhar em Inglaterra, em como a «crise», o «passismo», continuavam bem presentes no nosso dia-a-dia. Recorda-mo-nos todos de como antes de 2008 um ordenado de 1.000 euros era quase o mínimo para um licenciado. Dizia-se «um mileurista» como sinónimo de mal pago, a roçar o limite do aceitável, aquele ponto que permitia sobreviver mas que não possibilitava independência ou vida em comum. Nove anos passados a maioria de nós achará, sem pensar muito nisso, uma remuneração razoável. O «passismo», o manbo jambo do «vivemos acima das nossas possibilidades» entram pelas nossas percepções dentro como dado adquirido. Classes sócio-profissionais inteiras foram obrigadas a baixar remunerações. Os mais novos que decidiram não emigrar trabalham por uma côdea, saltando de estágio em estágio sem sonhos ou futuro. Quando os direitos, os salários, são assim cortados, esmagados, diz-me a experiência que já não há volta a dar-lhe, que nada voltará a ser como dantes. Como um estilhaço, está cá dentro, às vezes dói, e no entanto já nos habituamos a negar a evidência da sua existência.

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