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Suavidade.

por Fernando Lopes, 16 Nov 16

Dado o meu temperamento stressado, desbocado, intempestivo, admiro quem consegue passar pela vida com alguma suavidade. O Paulo Bento tinha a tranquilidade, eu é mais a suavidade. Procuramos compensar o que nos falta, daí que admire esta faceta, em particular, no feminino. Uma mulher que nos chama à razão, nos dá uma descasca, de um modo tranquilo, meio pedagógico, ligeiramente matriarcal, é outra loiça. À hora que tomo pequeno-almoço, está quase sempre uma jovem mulher muito alta, na casa dos 30. Não sei se pelo tamanho imponente, se por natureza, a rapariga é extraordinariamente calma, aprazível, com um tom de voz e um jeito de se exprimir tão calmo que quase apetece confessar-lhe todas as dores de alma e pecados do mundo. Hoje falava com a senhora do café sobre o seu filho, com o seu modo tranquilo sem ser xóninhas. Muitos tendem a confundir uma coisa com a outra. A uma mulher abebézada, não acho grande graça, marca uma fronteira muito ténue entre doçura e patetice. Mas aquele lado calmo, quase ternurento, exerce sobre mim enorme fascínio. É tudo o que não sou.

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bicicleta.jpgRua de Gonçalo Sampaio, Porto

 

Encontrei esta bicicleta amarrada a uma caleira com um grosso cadeado e sem a roda traseira. Ficou a dúvida se um proprietário hiperzeloso a levou consigo, se tinha sido vítima de roubo e apenas lhe restava um monociclo.

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Lisonja.

por Fernando Lopes, 14 Nov 16

Apesar da minha provecta idade continuo a ser surpreendido por algumas fraquezas do ser humano. O tempo têm-me vindo a provar que praticamente ninguém é insensível à lisonja. Não estou a pensar em alguém normal, mas digamos, por conveniência, pessoas de inteligência superior. Na minha ingenuidade, um intelecto de excepção não cederia à «graxa», por mais elaborada que fosse. Puro engano. Por muito brilhante que seja, ninguém resiste a afagos no ego. Porque ele é enorme, e como uma sequóia, crescerá indefinidamente, ou por mais prosaico motivo; debaixo de toda a inteligência e argúcia, continua a existir alguém frágil e inseguro. Admiro poucos, lisonjeio ninguém, mas apercebo-me dessa debilidade transversal a todo o ser humano, do pateta ao erudito.

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À hora de almoço, a Pizza Hut estava a oferecer fatias de pizza aos passantes num centro comercial da Cidade do Porto. Nada de mal, uma acção promocional, não deixei de pensar que aquelas fatias seriam mais úteis a sem-abrigo, idosos, crianças, pessoas com dificuldades. Sei bem que esses não consomem pizza, estando longe de ser o alvo da benquerença da cadeia americana. Pensei como seria bom se essas grandes empresas se preocupassem mais com o impacto social que económico de actos como este. Sou um estúpido, bem sei, mas na minha utopia, um dia, as Pizza Hut deste mundo serão substituídas por campos de margaridas.

 

(*) título inspirado em «Nothing But Flowers» dos Talking Heads.

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Not My People.

por Fernando Lopes, 10 Nov 16

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Li e reli várias análises sobre a vitória de Trump. Por alguns dados estatísticos fica claro que quem elegeu o milionário foram os eleitores mais idosos e menos informados, minorias com a atitude «eu já cá estou, os outros que lixem», pessoas excluídas desta nova revolução, já não industrial, mas tecnológica, que vivemos. Entristece-me que saiam à rua gritando «Not My President». Quem participa numa brincadeira dessas pode ter mestrados e doutoramentos, mas percebe muito pouco sobre a essência da democracia. Não valoriza a opinião de quem trabalhou para lhe possibilitar esses estudos. Desceu ao nível do homem de estranho escalpe, apenas em sentido contrário.  Não gosto de Trump, mas assim é a democracia. Nada nos impede de combater ideias com ideias, de lutar pelo que achamos justo, pelo bem comum. Nada disso pode começar se a primeira batalha se inicia menorizando o eleitorado de Trump porque é mais velho ou ignorante.

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Temas:

Desodorizante, não.

por Fernando Lopes, 8 Nov 16

Hora de almoço. Sobem nas escadas rolantes mesmo à minha frente dois indivíduos para quem o banho deve ser um luxo. O que fala tem o blazer particularmente sebento, o que lhe dá um lindo ar lustroso, parecendo quase desses fatos da moda, cinzentos e brilhantes, em que um tipo neles enfiado parece uma sardinha ou pescada consoante o tamanho do utilizador. Nos ombros do que fala há caspa suficiente para conseguir o efeito neve numa árvore de natal. Eu, que devido ao tabaco nem tenho o olfacto apurado, noto que os senhores exalam um desagradável cheiro a cebola. Nisto um deles vira-se e diz:

 

- Não pá, desodorizante não, que provoca cancro.

 

Está tudo explicado, há que manter a luta pela saúde.

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Boa semana, uma ova.

por Fernando Lopes, 7 Nov 16

monday.jpg

 

 

Detesto as pessoas enérgicas em geral, as que o são logo à 2ª feira em particular. O retomar das rotinas depois de um fim-de-semana em que se gozou de um pouco de liberdade, é para mim, dramático. Sei que ter trabalho, ser razoavelmente remunerado, é um privilégio nos dias que correm, mas são muitos anos, quási trinta numa rotina de sobrevivência. Há-os privilegiados, que encaram o seu trabalho como um hobby, cheios de prazer e fulgor.  Não é o meu caso, faço-o porque necessito do dinheirito para pagar as contas ao fim do mês. Não me desejam boa segunda-feira, desejem-me que a semana passe depressa, indolor, e que cumpra com lealdade e qualidade as funções que me são destinadas. Só isso.

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Não sei bem quando as paredes do nosso quarto me começaram a esmagar, quando o espaço de intimidade passou a cela, o momento em que o edredão ganhou peso de grilheta. Já nem recordo quando partilhá-lo se tornou um fardo. Num tempo há muito tempo cresceram barreiras invisíveis, o olho de Hórus cegou. Hoje, estamos juntos e separados, vivendo em mundos e realidades alternativas que nunca se encontram. A cama, demasiado grande para dois, tornou-se pequena para os nossos sonhos, tão-somente porque nunca neles nos encontramos. Debaixo dela existem monstros assustadores de que nunca falamos, por cima, o amor que fazemos é a mecânica do prazer a sobrepor-se à poesia do amor. É uma cama grande, preparada para dois, onde não caibo.

 

(*) de um mote lançado pelo Filipe.

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Sob o céu da cidade que tenho no nome.

por Fernando Lopes, 5 Nov 16

cidade misterio.jpg Este blogue oferece uma sandes de presunto, dois rissóis e um copo de tinto a quem adivinhar em que cidade foi tirada este foto. :)

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Hoje, como a cria não tinha aulas, meti um dia de férias para implementarmos a famosa «diálise pai-filha». A mãe deixou-nos uma lista de compras de supermercado. Almoçámos juntos, depois fomos a um centro comercial e finalmente ao Pingo Doce. Após um carrinho cheio de víveres, o rapaz da caixa informa: nesta caixa só pagamento por MB. Era o único cartão que tinha, no stress. Depois de passar tudo pelos apitos, o marmelo diz-me que o MEU MB não funciona. O meu, com chip, contacless e a puta que o pariu. Dórado, como se fosse de um gajo rico. Foda-se, foda-se, foda-se. Ó meu amigo a culpa é da sua máquina, já paguei restaurante, compras, e o raio que me parta e isto funcionou sempre. O sr. desculpe, mas a única solução é anular a compra, levantar dinheiro e passar tudo por outra caixa. Refoda-se.

 

Se quiser eu pago e dá-me em dinheiro, diz a senhora atrás na fila. Obrigado, obrigado, obrigado. Fui a correr a um MB dentro do supermercado, levantei o dinheiro e paguei à senhora que, entretanto, já se tinha chegado à frente. Não sei quem é, provavelmente nunca mais a vou ver, mas obrigado por tudo, sobretudo pela confiança.

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