Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Putas com sentimentos.

por Fernando Lopes, 29 Out 14

Há muito, muito tempo atrás, este vosso amigo teve um ano sabático. Com a namorada nos Açores, bebeu para afogar a saudade. Bebeu muito, sentou-se lado a lado com a pobreza, fome, alcoolismo. Conviveu com gente simples, cuja única ambição era ter sempre comida na mesa. Conversou o inconversável, ouviu o incontável, ganhou-lhes um enorme respeito. Sentiu-se uma das ovelhas ranhosas, entendeu os seus porquês, descobriu que as margens são povoadas de gente como nós, só que com menos sorte. Aprendeu técnicas de gamanço, a distinguir vários tipos de haxixe, onde parava a bófia, com quem falar em caso de ajuste de contas. Amou-os e por eles foi aceite, não como invasor ou animal de circo, mas como amigo. Partilhou a mesa do café com prostitutas e ouviu a «estória» que a seguir se reproduz:

 

- O Manel ontem bateu-me por ter levado pouco dinheiro.

 

- E tu?

 

- Chamei o Artur para o pôr fora de casa. Refilou, ainda se engalfinharam, mas não teve outro remédio. Já estou farta de andar com agarrados que mamam o guito todo. Que o pariu, não o quero ver mais.

 

- Bem feito, para ele ver que a gente somos putas mas também temos sentimentos.

 

Tinham.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A minha mulher chama-se Pigmaleão.

por Fernando Lopes, 29 Out 14

Segundo o mito, Pigmaleão, escultor e rei de Chipre, apaixonou-se por uma estátua que esculpira ao tentar reproduzir a mulher dos seus sonhos. Tinha-se tornado celibatário, pois não aprova o comportamento das mulheres da ilha. Afrodite, ciente da sua solidão e não encontrando mulher que em beleza ou virtude fosse digna de tão grande amor, premiou-o transformando-a numa mulher de carne e osso.

 

Em abono da verdade Pigmaleão deveria ser mulher. Para muitas os homens que escolheram são uma espécie de work in progress, algo a aperfeiçoar, moldar, tornar ideal. Espantosamente, ao fim de 21 anos, a Teresa ainda não desistiu de me tentar reprogramar.

 

Antes de mais, convivo bem com as minhas imperfeições. Dotado da teimosia do asno, resisto a todas as tentativas, mesmo as que fazem sentido, por me serem «impostas». Ocasionalmente esta discrepância de pontos de vista gera acaloradas discussões que terminam como habitualmente as disputas entre teimosos, em empate técnico.  

 

De duas coisas estou certo: é preciso ser de fibra para, quando se ama, resistir durante tanto tempo, é necessário gostar muito de um tipo para ao fim de décadas ainda o tentar mudar. Talvez seja esse o nosso segredo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Emocional.

por Fernando Lopes, 28 Out 14

Sou um chorão, não é algo que goste de admitir. O mito moderno «sou um tipo muito sensível, por isso choro», não me agrada. Fui educado num ambiente de contenção, onde a expressão de emoções extremas não era coisa particularmente bem vista. Sou chorão porque nasci com incapacidade para controlar emoções. Uma parte da adolescência foi um longo round por não conseguir conter a raiva. O que sinto sobrepõe-se a tudo, ao bom senso, à calma, e simplesmente flui, numa espécie de torrente incontrolável.

 

Tenho dificuldade em dominar ira ou choro. Fico com os olhos mareados de água por causa de uma cena de um filme, livro, músicas, um abraço amigo ou dor alheia. O que me emociona não é tipificável, simplesmente surge do nada e mexe com algo que me é intrínseco.

 

Desconfortável, pois nunca sabes exactamente como vais reagir, habituas-te a viver assim, a ser aplaudido ou olhado com desconfiança pelos outros. Chegas a um lugar onde a percepção de terceiros passa a ser indiferente, e dentro de padrões «socialmente aceitáveis», deixas-te ir. Acho que é a isso que se chama «uma pessoa emocional».

Autoria e outros dados (tags, etc)

Chave.

por Fernando Lopes, 26 Out 14

IMG_1180.JPG

Passei pela loja do homem das chaves. Não é um artesão vulgar, antes um sábio que se dedicou à nobre arte de desvendar o que não deve ser ocultado. Expliquei-lhe que necessitava de abrir uma porta especial, a tua. Quero algo poderoso, quase sobrenatural, que abra a cabeça, coração e corpo. A cabeça, porque te amo tão intensamente que desejo que partilhes comigo as tuas dores, alegrias e espantos. A do coração, porque sei da tua generosidade, para que possa, inspirado, ser tão bom, solidário e compreensivo como tu. A do teu corpo, porque pouco vale amar sem que nos possamos unir fisicamente, tornando num só, o que a natureza cruelmente transformou em dois. Sentir-te o cheiro, os seios, a pele, e saber que também eles são um pouco meus.

 

- Essa chave não existe, disse. Não podes abrir o que seja, sem que antes sejas tu mesmo capaz de lhe abrir todas as tuas portas. O segredo está em ti, na tua cabeça, coração e corpo. Tu és a chave, e uma vez abertos os teus mistérios, ela saberá se és digno de desvendar os seus.

 

Um sábio, como vos disse, este misterioso homem das chaves.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Zizi Sexuel

por Fernando Lopes, 24 Out 14

zizi_sexuel.jpg

Uma exposição sobre sexo, destinada a crianças e pré-adolescentes, entre os 9 e os 14 anos? É possível, mas em França. Zizi é o nome com que muitas crianças francesas se referem ao órgão sexual masculino e de um «guia» sexual para jovens, muito popular em França.

 

Além de informar de forma descontraída sobre as transformações na puberdade, tem também uma secção que alerta para a pedofilia, incesto e os perigos da internet. Serviço público para pais, educadores e crianças.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O pior inimigo da igreja está dentro de portas.

por Fernando Lopes, 22 Out 14

IDiabo_Edição1973_21Outubro14_CAPA-326x406.jpgImagem alterada por sugestão do caçula

Ateu confesso, sigo com moderado interesse as questões que à igreja dizem respeito. No sínodo dos bispos sobre a família, e dada a abertura em questões de costumes do Papa Francisco, resta uma moderada desilusão.

 

Apesar da crescente aceitação dos homossexuais nas sociedades em geral, não me parece que os bispos estejam disponíveis para discutir e aceitar estas questões, pois muitos deles recusam assumir a sua própria homossexualidade, consequentemente, estariam menos disponíveis para tolerar uma diferença que ocultam, como se as opções sexuais fossem pecado.

 

Já no que concerne ao reconhecimento de casais constituídos por divorciados ou em união de facto, a recusa em aceitá-los como membros activos da instituição me parece um erro crasso, ele mesmo é ultrapassado pela realidade. Uma amiga, católica praticante, teve um casamento infeliz e divorciou-se, apenas do marido, não da sua fé. Aquando do segundo casamento fez questão de, numa cerimónia privada, receber a bênção de um sacerdote da sua confiança, que o não negou. Mais ainda, é catequista, ensina os mistérios da fé a crianças que os pais iniciam no catolicismo.

 

Ora se esta mulher – uma excelente pessoa – é boa para ser abençoada no seu segundo casamento, se confiam nela para ensinar o bê-á-bá da religião aos jovens, não é suficientemente boa para receber os sacramentos? Apenas os velhos bispos, numa atitude autista, se recusam a entender que as boas pessoas, com fé ou sem ela, são poucas, demasiado poucas para poderem ser tratadas como renegados.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

O abraço.

por Fernando Lopes, 21 Out 14

Desço a Rua da Boavista em direcção à rotunda. Do meu lado direito dois jovens caminham um para o outro. São altos e magros, ela loura e elegante, face ainda de bebé, ar jovial e roupa desportiva. Ele tem o cabelo encaracolado, jeans gastos e um sorriso de orelha a orelha. Beijam-se e depois abraçam-se. Ficam envolvidos nos braços um do outro durante minutos. Olham-se, sorriem, voltam a enlear-se, bem apertados.

 

No carro, fico a olhá-los pelo canto do olho, entre o voyeur e enternecido. Não há muito, talvez há uma eternidade, éramos assim, jovens amantes despreocupados, para quem a paixão era a única coisa neste mundo que fazia sentido. Inocente, também agarrei a rapariga amada numa árvore eterna de ternura, segundos que duravam para sempre. O tempo foge, estes enleios apaixonados mostram-me que o sonho do amor único, eterno, intenso, não mais é que uma quimera. São jovens, bonitos, apaixonados. Não há coisa mais bela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Olhares.

por Fernando Lopes, 20 Out 14

«If looks could kill, they probably will» cantou Peter Gabriel. No departamento está uma jovem estagiária, analista de métodos, a preparar a sua tese de mestrado. Um companheiro de trabalho comentou algo que também tinha notado: quando lhe estamos a explicar algum procedimento, olha-nos fixamente nos olhos. Gosto de olhares, de olhos nos olhos, o prolongar dessa fixação provoca-me sentimentos mistos. Por um lado sabemos que está atenta ao que explicamos, por outro não consigo deixar de sentir algum desconforto, uma espécie de nudez, algo de hipnótico. Diga-se o que se disser, é difícil assentar os olhos nos de alguém que não nos é familiar durante períodos prolongados de tempo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

A menina que ia sozinha para a pré.

por Fernando Lopes, 19 Out 14

Hoje já quase não se vêem crianças, mochila às costas, a ir para a escola. Recordo-me bem do dia em que a avó me levou ao primeiro dia de escola, ensinou o caminho. Fê-lo duas ou três vezes. A partir desse momento estava por minha conta. O percurso, embora longo, só implicava atravessar a Rua dos Bragas com paragem obrigatória na confeitaria do Neves, para abastecimento com uma bola de Berlim.

 

Mas às vezes levamos um soco no estômago da nossa infância protegida, despreocupada. Há tempos, falando de crianças, uma rapariga de trinta e poucos anos, contou-nos que na localidade onde habitava, na zona de Aveiro, ia sozinha para a pré. Com quatro anos. Regressava a casa para o almoço e retornava ao infantário. Sempre só. Assumiu esta bizarria com ar de pretensa normalidade, mas os olhos negavam-no. A mãe era doméstica, mas não possuía o tempo ou empenho para a acompanhar. E isso dói, dói para a eternidade, mesmo que o tentemos negar. Não me atrevo a imaginar a solidão que acompanhava essa menina. Já mulher, enquanto os lábios diziam uma coisa, o rosto mostrava outra. Ia sozinha para a pré.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temas:

Porto adentro.

por Fernando Lopes, 18 Out 14

abelhas_cedofeita.jpgPorta da abandonada esquadra de polícia, Cedofeita

rua do mirante.jpgRua do Mirante

leoes.jpg«From The Lions Mouth»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Feedback

Na boca do povo

Subscrever