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Meu Deus, fui «piropeado».

por Fernando Lopes, 31 Jan 17

 

Confesso que já me não acontecia desde finais dos anos 80, início dos 90. Uma rapariga mandou-me uma piada ininteligível e uma tentativa de assobio – é por todos sabido que as raparigas que assobiam alto não casam. Olhei à volta para ver se era mesmo comigo, a moça sorriu com ar malandro. Ultraje! Procurei um bófia para fazer queixa, mas é sabido que as FdaP das autoridades nunca aparecem quando delas necessitamos. Queria seguir conselho dos camaradas do Bloco, ser o primeiro macho a apresentar queixa por ter sido piropeado. Senti-me ridículo e apercebi-me do que já aqui tinha escrito. Um piropo, desde que não seja ordinário ou vulgar, não traz mal ao mundo. Outra verdade é que os papéis de género já não são o que eram, nos dias de hoje uma mulher pode mandar uma piada a um homem sem que caia o Carmo e a Trindade por causa disso, e sem que o visado – neste caso o vosso humilde escriba – se sinta ferido, objectificado, sexualizado, e uma série de advérbios que a boa esquerda usa em circunstâncias análogas.

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Pequenas Coisas.

por Fernando Lopes, 26 Jan 17

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Talvez esteja a ficar velho, talvez sábio, provavelmente nenhuma das duas. Se é certo que cada vez mais me distancio do e de quem me não agrada, fechando-me numa concha, também encontro alegria nas coisas mais inesperadas. Perto do local onde trabalho existe um pequeno pomar – no resto do país chamam-lhe frutaria – onde vou buscar maçãs ou laranjas para o lanche da manhã. Por lá circulam duas pequenas cadelas que mimo sempre que posso. Hoje, saído para comprar cigarros, ao regressar, a da da foto correu para mim a solicitar o carinho da praxe. Aquela coisa do animal sair do seu conforto para me cumprimentar, comoveu-me. Dali saí a assobiar, feliz por encontrar afecto numa cadelita. Pequenas coisas ganham valor de revelação.

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É oficial, sou um querido.

por Fernando Lopes, 25 Jan 17

Quem, como eu, trabalha na área de RH tem de ter uma noção de serviço. Tanto quanto as regras – que importa cumprir e fazer cumprir – é fundamental ajudar o outro. Uma das minhas tarefas é apoiar novos pais e mães com a legislação, explicar os procedimentos administrativos e outros, esclarecer as dúvidas. Faço-o com enorme gosto, procurando sempre, dentro das regras, a melhor via para resolver todos os escolhos que a burocracia coloca. Recebo muitas vezes agradecimentos de pessoas auxiliei e de que me nem recordo. Hoje, uma nóvel mãe, enviou um email a agradecer o apoio prestado durante licença de maternidade. Chamou-me querido. Só fiz o meu trabalho, mas é sempre agradável vê-lo reconhecido. Querido? Sou eu, o tipo dos RH.

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Ainda o fogo.

por Fernando Lopes, 21 Jan 17

Talvez os meus melhor anos tenham passado, contudo, não os quero de volta. Nada é como dantes, e, no entanto, algo em mim permanece intocado, rude, selvagem, como se de um rapazinho se tratasse. De uma maneira só minha, nunca envelheci. Sou capaz de chorar como um bebé, dançar como um louco, rir como um parvo, apaixonar-me como um adolescente. Deve ser a isso que chamam «estar vivo».

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Em contra-mão.

por Fernando Lopes, 20 Jan 17

Como a maioria das pessoas «do meu tempo», fui educado com padrões éticos que hoje são considerados antiquados, desajustados, sem valor. O que antigamente seria gabarolice hoje é auto-estima; a compaixão é vista como uma fraqueza; o carácter como algo adaptável aos que nos rodeiam e às suas circunstâncias; a lealdade algo que se vende por bem menos de trinta dinheiros; a forma mais importante que o conteúdo. Por estas e outras, este tempo do «pós-ética» já não é o meu. O problema, se é que existe, é que algumas pessoas mais velhas embarcam alegremente nesta onda pouco recomendável para se sentirem modernos. Não ambiciono viver neste momento em que tudo é negociável, em que a integridade é algo que, como um ramo de árvore, baloiça ao sabor do vento. Assim, como um velho tonto que se enganou na entrada da autoestrada, circulo em contra-mão. A vantagem é que por muito que achem que vou no sentido errado, sei que o caminho é o que a minha consciência – algo também em desuso – me diz para seguir.

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Tudo e um par de botas.

por Fernando Lopes, 19 Jan 17

Muitas mulheres têm rituais sazonais com roupa. Mudam as coisas do armário de verão para o de inverno, colocam umas num local prioritário em relação às restantes. Nenhum homem perde tempo com isso. Gajo que é gajo está-se nas tintas, apenas veste uma camisola quando está frio, nem sequer sendo muito exigente com o que lhe calha em sorte, bastando que esteja lavada. A chefa cá de casa andou a organizar os trapinhos, aproveitou para me propor uma limpeza dos meus. Tinha coisas que não vestia desde os anos 90, mas porra, eram as minhas coisas. Ora eu tenho «roupa afectiva». Explico o conceito: preservo um blusão de pele há mais de trinta anos porque a minha avó mo deu e porque naquela altura custou cinquenta contos, uma pequena fortuna; existem Levi's já meias podres que me recordam momentos felizes e não quero delas abdicar; tenho uma t-shirt de cada país que visitei e não planeio deita-las fora; conservo algumas tralhas de juventude porque me recordam esses tempos de Frei João Sem Cuidados. Obviamente, tive de ouvir a piada: mas é tudo afectivo para ti? É. Sou um tipo de afectos, até com as roupas crio algum tipo de relação. São cenas de gajo, minhas, as meninas não têm que compreender, apenas aceitar. Só um gajo ganharia alguma forma de amor a um par de botas.

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Estou a almoçar e vejo na televisão sem som uma reportagem sobre o mítico «Pérola Negra». Para os que não conhecem o Porto, o local teve, pelo menos, duas vidas. A primeira, no início do dos anos 80, o único sítio do país com shows de sexo ao vivo. Não sendo um habituée assisti a duas ou três performances inenarráveis, como a da senhora que, entre outras maravilhas, enchia balões com o pipi, ou a recriação de uma outra que, literalmente, trazia uma estátua grega à vida. A segunda, já como strip club em várias moças em pouca ou nenhuma roupa, faziam «acrobacias» no varão. Leio na internet, e o actual proprietário propõe-se transformar o sítio numa discoteca normal, mantendo o kitsch da decoração, agora renomeado de vintage. Para mim «Pérola Negra» será sempre sinónimo de bas-fond, por mais que lhe queiram lavar a cara, dar respeitabilidade. Podes tirar a puta da vida, mas não a vida da puta. 

 

 

P.S. - Antes que feministas venham lançar-me maldições por causa do título da posta, cumpre esclarecer que acredito que todos devem ter uma segunda oportunidade. Trata-se tão-somente de constatar que a nossa «estória» é parte indelével das nossas vidas.

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I fought the law and the law won.

por Fernando Lopes, 16 Jan 17

Como moro muito perto da estação de metro da Avenida de França, venho por uns quelhos para cortar caminho, passo junto ao metro, táxis e paragens de autocarros, o famoso «interface». Na rua estacionam imensos carros de pessoas que o usam para ir para a baixa. Hoje a polícia estava a multar alguns deles, que embora em local «ilegal», não incomodam ninguém. Um dos bófias vê-me vindo de 5 de Outubro e, no meio da rua, vira-me ostensivamente a enorme peida. O filho da puta acha que ser autoridade lhe dá imunidade ao atropelamento. Fiquei com o pé preparado para acelerar a fundo e uma mão por cima da buzina. Ao contrário do que me é habitual, racionalizei e nada fiz, melhor, esperei que aquele cu sem fim me saísse da frente. Quando um agente da autoridade dá este exemplo, está tudo dito sobre a merda de país que temos. Um pardieiro em que os que são mandatados para cumprir a lei, pagos por nós, encontram prazer nestas afirmações menores de poder.

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Photo Opportunitity.

por Fernando Lopes, 15 Jan 17

 

Gosto muito de fotografar pessoas embora raramente o faça, excepção às fotos familiares. Aquela treta de «uma imagem vale mais que mil palavras» é, ocasionalmente, verdadeira. Caminhava em frente à igreja do Marquês quando vejo um casal de idosos. Um com uma muleta no braço esquerdo, outro com idêntico aparelho no direito, o braço sobejante dado ao companheiro. Uma coisa enternecedora, uma imagem da vontade férrea daquele casal em caminhar junto, apoiando-se. Peguei no telemóvel e preparei-me para os fotografar de costas. Uma photo opportunitity como poucas, um momento singular e belo. Apontei, desisti. Algo me dizia que estava a invadir a privacidade daquela dupla de resistentes. Ficam esta pobres palavras, que por muito eloquentes que fossem nunca conseguiriam descrever a grandeza daquele momento e casal.

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Profetas.

por Fernando Lopes, 13 Jan 17

A turba gosta do sentimento de pertença, vai daí afadiga-se a militar em associações várias, de clubes a partidos, passando por sindicatos, associações culturais e recreativas, clubes de golfe, religiões esotéricas ou nem por isso. Talvez por ter sido descartado pelos meus pais desde os três meses de idade, nunca a nada pertenci. Gosta o maralhal de se sentir parte de algo maior que si mesmo, transformando a pólis de cidadãos em algo muito similar a rebanho. Todo o grémio precisa de pastor, logo surgem bem intencionados, falsos profetas, charlatães, manipuladores, e espécies variadas, que ao que dizem, trabalhando em prol da cáfila, se abocanham ao maior pedaço. Que as sanguessugas façam pela vida é normal, da sua natureza. Pasmo perante a adulação dos cretinos que, enganados, roubados, secundarizados, seguem alegremente o líder, acriticamente incensando quem chegada a hora se deles descartará como se enxota incómodo muscídeo.

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