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Ocasionalmente, este coração empedernido, comove-se. Não com histórias de amor grandiosas, daquelas que dão livro e filme, carregadas de erotismo, corpos perfeitos e libidos insaciáveis. Vidas como a do Joaquim e Maria, pacatas, de gente humilde, simples, mas em quem arde inextinguível o fogo da paixão.

 

Foram namorados de infância e juventude em tempos em que o amor, como o conhecemos, era fruto proibido. Joaquim era carpinteiro, exuberante e um bocado boémio. Os pais de Maria não viam nele um futuro para a filha. Quando este foi prestar serviço militar para a Guiné, logo a convenceram de que não retornaria vivo, ou, no caso improvável de tal acontecer, regressaria ainda mais pobre do que tinha abalado.

 

No intervalo da separação forçada, começou a ser visita de casa o Manuel Costa, empregado no Banco Fonsecas & Burnay, moço com alguns estudos, de fino trato e ambições a gerente. A distância corrói a paixão como o metal é consumido pelo ácido. Maria cedeu e acabou casada na Igreja do Bonfim.

 

O ex-militar passou tempos como cão sem dono, gastando aqui, embebedando-se acolá, sendo salvo da sua solidão por Maria da Fé, viúva de peito generoso, pensão certa e tendência para acolher desvalidos. Viveram juntos por décadas, sempre sobre a sua asa prudente e piedosa.

 

Maria enviuvou, Joaquim viu-se também sem a companheira protectora. Encontraram-se por acaso, numa loja modesta da baixa, e logo ali retomaram conversa como se não a intervalasse três décadas de separação. Contra conselhos de filhos e netos, resolveu a mulher do ex-bancário viver com Joaquim. A pensão de viuvez e as modestas poupanças do carpinteiro eram suficientes para uma vida digna.

 

Contam a história como se o seu reencontro fosse uma inevitabilidade, mão na mão, olhos tranquilos, sorriso doce e cúmplice. Há sempre uma segunda vida para o verdadeiro amor.

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g'noc noc

por Fernando Lopes, 3 Out 14

Imaginem arte em qualquer espaço, numa casa, bar, restaurante. Dança, artes plásticas, poesia, performance, em locais improváveis. Uma cidade que se transforma num enorme museu colaborativo, aberto a todos. Cede a sua casa para uma exposição de pintura e com simpatia abre as portas e coração a todos que desejam participar. No seu jardim assentam arraiais músicos e espectadores. É isto o g noc noc, uma imagem da generosidade desta cidade. Porque esta prodigalidade, partilha, é minhota, mas plural. Vemo-nos em Guimarães.

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O cabo Almeida.

por Fernando Lopes, 2 Out 14

Nos idos de Março, o cabo Almeida fez furor por ter dado um show de strip-tease com a arma de serviço. Exibiu o militar, além do material de peleja, depilado rabinho e vistosos abdominais, para gáudio da raparigada. Nada me move contra cabos da GNR ou espectáculos eróticos. Com as remunerações que todos auferimos não me surpreende que o jovem se sentisse tentado a reforçar o modesto pecúlio.

 

Leio agora que, além de jeitoso, o cabo é também trabalhador, pois naquele 8 de Março actuou quatro vezes, performance digna de registo. Querem julgá-lo por «comércio ilícito de material de guerra». Parece-me mal. Primeiramente porque não creio que tivesse intenção de comerciar a Glock, em seguida porque as espectadoras estariam interessadas em outros produtos e serviços que não uma pistola. A não ser que nos estivéssemos a referir à «espingarda de carne», horrorosa metáfora, ao que sei de Lídia Jorge, para pénis. Quem se refere a um pénis como «espingarda» concentra-se demasiado no que é exibido e não no que se faz com ele, além de demonstrar uma visão bélica do acto sexual, que, de todo, não partilho.

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A linguagem é um vírus.

por Fernando Lopes, 1 Out 14

Um amigo de longa data é homossexual. Tal nunca lhe deu direito a tratamento especial na caserna verbal que frequentemente criamos. Digo muitas vezes «deixa-te de paneleirices», sem que isto implique algum tipo de avaliação das suas preferências sexuais. Chamaram-me à atenção, porque a linguagem, marca, diminui, estigmatiza. Ora neste caso, a expressão surge sem carácter ofensivo, apenas com o sentido de «não sejas conas» ou «não me venhas merdas». Recuso-me terminantemente a linguajar de modo diferente apenas porque a sexualidade do meu amigo não é convencional. Se alterasse a verbalização para «não sejas conas» não o estaria a desaconselhar a uma mudança de sexo, apenas a dizer, vá lá, alinha com a malta. Exactamente o mesmo que «deixa-te de merdas» não significa que o condene a castigo de obstipação eterna. Por paradoxal que pareça, o modo igualitário de tratar este amigo, é precisamente falar como sempre fizemos, não permitindo que o libertador vernáculo seja aprisionado nas malhas do politicamente correcto.

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Se perguntarem aos homens o que apreciam mais numa mulher, uma enorme percentagem dirá que é a inteligência. Uma meia verdade; olhamos primeiramente para o rosto, rabo e peito, não necessariamente por esta ordem. Depois de conhecermos a mulher em causa poderemos admirar-lhe a argúcia, mas mente quem disser que o animal, numa primeira observação, não se sobrepõe ao racional.

 

Não creio que nas mulheres seja muito diferente, talvez apenas mais subtil. As feromonas, hormonas e similares são base de uma primeira apreciação. Recuso-me a deixar de lado esta animalidade que nos é tão natural, ou como confidenciou um idoso, «meu caro amigo, o facto de não se tourear não significa que não se seja aficcionado».

 

Chegado à meia-idade e não colocando à margem o aspecto físico – sempre importante – o que verdadeiramente me motiva numa mulher é o seu coração, generosidade, empatia. Num mundo competitivo tendemos a sobrevalorizar as capacidades que nos permitem o sucesso pessoal e profissional. Admiro mulheres inteligentes, tenho-lhes até inveja, mas nada me consegue tocar tão profundamente como a capacidade de se dar, partilhar, sentir. O intelecto, por si, define parte do ser humano, dá conhecimento, capacidade de análise e solução de problemas, mas não é tudo.

 

Conheço pessoas inteligentes intrinsecamente más, que manipulam, distorcem. A inteligência sem coração é tão inútil como barco sem mar. 

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Ser magro é uma coisa, ser isto é outra. O homem mais cobiçado do mundo, aquele que poderia escolher quem quisesse, foi contrair matrimónio com um cabide sobre pernas. Pode a rapariga ser inteligente, com sentido de humor e bem-parecida, mas se não é anorética, parece. A pobre da moça tem ar tão frágil que sexo mais vigoroso acabará por causar dano. Já não falo na pimbalhice de «fechar» Veneza, coisa de novo-rico e possidónia até mais não, mas fica o aviso para as estimadas leitoras do blogue, isto não é elegância, é doença.

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«Hás-de ser infeliz toda a vida!»

por Fernando Lopes, 28 Set 14

A frase, leio-a páginas 165 de «Montedor», uma espécie de síntese da demanda do protagonista. Recuo décadas porque também eu ouvi esta sentença da boca da avó, incapaz de compreender a angústia, inquietação, mal-estar, que as mais das vezes me acompanham. Uma insatisfação, um permanente vazio, sempre presentes, mesmo nos dias mais solarengos. Inútil dizer que é caminho que se não escolhe, antes praga que persegue, porque a felicidade das coisas simples, a do que é igual aos outros, do que esperam de nós, sempre parece insuficiente. 

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Perdidos & achados na KLM

por Fernando Lopes, 27 Set 14

e agora ponham lá um gato a fazer isto ...
 

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São despesas de representação, senhor!

por Fernando Lopes, 26 Set 14

Um casal gay, Pedro e Paulo, tinha um modo de vida frugal. Pedro, o africano, um rapaz bem-intencionado, sonhava com a cooperação entre os povos e leva desinteressadamente ajuda aos pobrezinhos. Mas Paulo era muito forreta, e não deixava que se gastasse dinheiro da CE a ajudar necessitados, em aeródromos inexistentes, que formavam pessoal sem função ou préstimo, já que lá nenhum aparelho poisava e coisas assim. Paulo gostava era de submarinos, escafandros e coisas que andassem debaixo de água.

 

À revelia do companheiro, Pedro envolvia nas saias cachupa e outras comidas para dar aos famélicos. Paulo surpreendeu-o um dia, quando este estava a dar benesses desnecessárias a pobres que eram claramente «pobres acima das suas possibilidades».

 

- Que trazeis nas saias, senhor Pedro?

 

- São despesas de representação, senhor.

 

Paulo era muito desconfiado e disse: - mostra lá!

 

Pedro levantou as saias e Paulo ficou muito admirado com aquilo que viu.

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Estrategas e carregadores de piano.

por Fernando Lopes, 25 Set 14

Nunca me realizei pelo trabalho; agarrei o que surgiu, fiz o melhor que pude. O sonho, como já aqui confessei, era ser locutor de rádio, entrar pela madrugada dentro a passar o melhor do pop-rock. Talvez por isso, raramente falo de trabalho, apenas um meio para garantir a subsistência, minha e dos que me são queridos.

 

Uma conversa de amigos descambou para essa área. Alguns de nós trabalham em grandes empresas, espalhadas por todo o país, mas com pontos fortes em Lisboa e Porto. Chegámos à mesma conclusão: na capital estão os «departamentos de estratégia», «áreas de planeamento», «áreas de análise e optimização», «gabinetes de estudos» e tudo que no mundo empresarial pomposamente se designa por macro.

 

Cá em cima as formigas laboriosas, os executores, as tarefas duras. Um país onde se concentram os ideólogos numa cidade e os carregadores de piano noutra. E isto diz muito sobre a macrocefalia existente, as tão faladas assimetrias, que todos prometem combater e sentados na cadeira do poder, logo acentuam. 

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