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Golden-Silver-Platform.jpg

 

Regressemos às frivolidades, que o tempo é de Verão, a vida já e dura quanto baste e aqui a taberna tem andado depressiva.

 

Sei que as senhoras que me lêem têm um fetiche com sapatos. Todas as mulheres valorizam imenso o que calçam, o que para nós homens é um mistério. Um pé de mulher é sempre mais bonito sem sapato. De preferência um pé bem tratado e sem unhas pintadas. Não sei bem porquê, mas unhas dos pés pintadas dão normalmente ar de Messalina às suas portadoras.

 

Vendo no calçado uma função meramente utilitária, sei bem como podem valorizar o porte da sua utilizadora. Admito também que existem modelos que são belas obras de design e outros uns socos que até as holandesas envergonhariam. Democrata, tolero quase tudo, até os sapatos de manco que muitas agora usam.

 

Como cada tolo tem a sua mania, quando vejo alguém com sapatos prateados ou dourados, sinto uma fúria canina que me transforma um Boby pronto a destrui-los à dentada. Não há coisa mais horrorosa que sapatos destas duas cores. Por isso, e incapaz de contabilizar os que pensam como eu, deixo um alerta: pelo sim, pelo não, não usem sapatos desses num primeiro encontro. Podem significar o fim de uma relação que até poderia ser promissora.

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Epifania da morte.

por Fernando Lopes, 4 Ago 15

Recordo-me bem. Teria nove ou dez anos. Subitamente, do nada, uma ideia fica clara na minha cabeça: vou morrer. Esta súbita tomada de consciência da mortalidade é um momento de profundo terror. Senti calafrios, um tremor na boca do estômago. Aninhei-me em posição fetal, senti todo o corpo gelar e encolher como se a morte ela mesmo me tivesse vindo anunciar a sua presença, a dizer: estou aqui, sou a única certeza da tua vida. Agora que me conheces habituar-te-ás à minha companhia, ignorar-me-ás, mas estarei sempre presente.

 

Aprendemos a dominar este medo, a viver com ele. Até hoje nunca tinha partilhado este episódio com ninguém, pois não sabia se era uma singularidade ou algo comum. Um destes dias a minha filha a meio da noite entra pelo quarto dentro a chorar. Também ela tinha visto a ceifuda, tomado consciência de que não era para sempre. Eu, pai híper-protector manifesto a minha incapacidade em lidar com esta epifania. Apenas lhe disse que esse momento era distante, um sono de que não se acorda, natural porque tudo o que vive morre.

 

A paternidade coloca desafios imprevisíveis, não estava de todo apto para falar sobre morte com uma criança de dez anos.

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Auto-Estima.

por Fernando Lopes, 2 Ago 15

Tenho poucas razões de queixa, a vida deu-me mais do que merecia tanto no plano afectivo como familiar. Vivo numa pequeno-burguesa despreocupação, rodeado por amizades sólidas, amores seguros, sem pensar demais nos escolhos que possam surgir neste caminho tranquilo. Não tenho invejas ou ódios no farol que me orienta.

 

Poderia esta tranquilidade minimizar as minhas inseguranças, mas fazem parte de mim como pêlo incrustado na pele. Um psicólogo dir-me-ia que este facto remonta à permanente sensação de abandono que me acompanha desde a infância. Facto é, que o trauma de ter sido colocado de um modo temporariamente permanente em casa dos avós, teve o condão de fazer com que sempre me sentisse enjeitado.

 

Sempre fui inseguro, nunca me achei particularmente talentoso no que quer que fosse. Vivo rodeado por pessoas – particularmente machos – que se acham a quinta-essência. Belos, talentosos, habilidosos, eloquentes, garanhões, não há fim para a sua auto-estima.

 

Vejo-lhes qualidades e defeitos, muito raramente a grandeza por que se acham abençoados. Peno por não encontrar esse caminho onanista, onde fazer amor com o espelho é o sexo mais compensador que se pode encontrar.

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Por ser o último dia de colégio da criança saí um pouco mais cedo. Quase a chegar a casa, um táxi tenta sair de um estacionamento irregular para a rua e tenho de fazer uma manobra de recurso para não bater. O filho da puta buzinou-me.

 

Quando fico colérico qualquer pingo de educação ou bom senso desaparecem. Saio do carro.

 

- O que é que queres? Estás a buzinar porquê?

 

- Não pode andar assim.

 

- Ó meu filho da puta, sais de um sítio em que é proibido estacionar, quase me abalroas e ainda estás a mandar bitaites? Põe-te a andar ou eu dou-te uma tareia que nunca mais te levantas; seu filho da puta, atrasado mental.

 

O marmelo caiu em si, viu a asneira e arrancou rapidamente. Bom para ele, porque possesso como estava o cabrão acabava num hospital. Podia tolerar a infelicidade se partisse de um condutor normal, mas de um profissional?

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Envelhecer rodeado por jovens.

por Fernando Lopes, 29 Jul 15

Costumo perorar sobre as desvantagens da idade, a memória que já não ostenta a frescura de outrora, um ou outro dente que se fragiliza, o perímetro da barriguinha que se aproxima perigosamente da centena de centímetros não se acomodando minimamente pelo facto de ser moda.  

 

Certo é que a idade traz uma catrefada de incomodidades, envelhecer, por muito que o digam, não é coisa bonita, apenas inevitabilidade a que se sobrevive.

 

Uma das vantagens, por paradoxal que pareça, é que deixamos de ser vistos como objectos sexuais. Somos apenas um senhor, medianamente apresentável, que reúne saber de experiência feito.

 

Isso é particularmente divertido porque, por mera casualidade, frequento estabelecimentos em que os empregados são particularmente jovens. Tenho a idade dos pais deles mas sendo brincalhão por feitio tenho facilidade em ser adoptado.

 

Adoptado pela rapariga morena da tabacaria que despeja sábio conselho sobre os malefícios do tabaco enquanto me vende um maço com ar entre o complacente e severo; pela moça do restaurante, que torce discretamente o nariz se a sobremesa que peço não for do dia; pelo jovem pai que troca experiências sobre o crescimento da filha; pela miúda do café que nos conta as suas peripécias com enlevo filial.

 

Na prática nunca tive tanta atenção de jovens mulheres, simplesmente porque já não represento perigo. Encontram nas nossas conversas disponibilidade afectiva. Envelhecer rodeado de pequenas atenções e cortesias de jovens raparigas é bem mais simpático do que esperaria.

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Quem disse que as mulheres de sonho têm idade?

por Fernando Lopes, 27 Jul 15

Michel pfeiffer.jpgEm 2014, bela como nunca.

 

Aos 57 anos continua a ser um ícone da cultura popular. Pfeiffer continua a fazer sonhar homens de todo o mundo com a sua beleza tranquila e qualidade como actriz. É ainda e sempre aquela que sonharíamos levar a jantar, elegante e simultaneamente simples, permanece com um ar plácido, não renega os anos sem perder pitada do seu encanto.

 

Saber envelhecer é saber viver. Recatada na sua vida pessoal, recordo-a a fazer celibatária resistente, contracenando com o monstro Al Pacino na deliciosa comédia romântica «Frankie & Johnny», ou com George Clooney em «Um Dia em Grande», mãe solteira, totalmente empenhada no trabalho e maternidade.

 

Belíssima num papel secundário em «People Like Us» de 2012, é a prova que as mulheres de sonho não têm idade, existem e andam por aí.

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A gente gosta da terra.

por Fernando Lopes, 26 Jul 15

vegetais oferecidos.jpgVegetais oferecidos pelos vizinhos 

 

A gente gosta de ir à terra, mesmo que seja nossa apenas por adopção. Sabe que a nossa gente nos acolhe, que gosta de nós, nos convida para as suas festas. A gente sabe que a gente do campo é nossa amiga, mas também sabe que pequena faúlha basta para provocar uma catástrofe. A gente gosta da sua matreirice, dos dichotes, das piscadelas malandras de olho, dos subentendidos, do que se diz sem dizer. A gente sabe que a vida é dura, que o campo não dá férias, que o pão nosso de cada dia é regado com suor. A gente gosta do bêbado, do maluco, do abandonado, da moça vistosa, do rapaz das motas, do sr. padre, do vereador da câmara. A gente gosta da terra, porque é terra que nos corre nas veias, porque a amamos como a uma mulher caprichosa.

 

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Mascalzone!

por Fernando Lopes, 24 Jul 15

Nove. Somos nove este fim-de-semana em Arcos. Quatro cunhados, um sobrinho, a sogra, nós os três. Vem também uma amorosa cadela de raça bulldog francês que ressona como uma locomotiva. Uma reunião que promete enorme confusão, caminhadas pelas montanhas, enfardamento pantagruélico, longas noites de conversa com as serras de fundo e um tecto de estrelas. Os Sopranos eram uns frouxos.

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queda_S_tome.jpgO local do «avistamento»

Em Maio de 2003, aproveitando uma promoção da entretanto falida Air Luxor, decidimos ir até S. Tomé. Era à época um destino quase inexplorado turisticamente, havendo somente dois hotéis dignos desse nome na ilha, o do ilhéu da Rolas e o principal, em plena capital.

 

Acompanhavam-nos o Cunha e a mulher. O Cunha é um «adiantado mental», tipo de inteligência brilhante e humor cáustico, mente livre e libertária, companheiro ideal para passeios e aventuras.

 

Ficamos quatro dias nas Rolas e três dias em S. Tomé. Como conhecíamos um português que lá morava, tivemos direito a visitar sítios virgens de turistas. Num desses passeios fomos dar a umas quedas de água cujo nome desconheço. Imensas crianças, umas a regressar da escola, outras a cabular, aproveitavam o rio para se refrescarem e divertirem. Ficamos ali, a brincar com os miúdos e a conversar. De repente o meu amigo sussurra:

 

- Olha para o tamanho da pila daquele puto.

 

Efectivamente o miúdo era um tripé. Não devia ter mais de 6 ou 7 anos, e o pénis – seria ofensivo chamar àquilo pilita – dava-lhe quase pelo meio da coxa. A criança era anatomicamente desproporcional, nu e inocente. O pénis teria 8 a 10 cms, um badalo quase assustador.

 

- Eh pá o puto tem um piloca enorme, comentei.

 

- Não digas nada, senão as nossas mulheres pensam que são todos assim e nunca mais querem sair daqui.

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O que é que eu fiz?

por Fernando Lopes, 21 Jul 15

Quando a minha mulher passa por mim de trombas ou olhar flamejante, só pergunto: O que é que fiz? Podem ser crimes tão graves como deixar os boxers no chão em vez de os pôr na tulha; mudar o papel higiénico e esquecer-me de deitar fora o rolo castanho; não passar por água o copo de leite que bebi. Coisas insignificantes, que no feminino se transformam em crimes de lesa-pátria. Melhor é ir pedindo desculpa em avanço, mesmo sem me ter apercebido do erro que cometi. Uma mulher furiosa faz-nos sentir como um chihuahua face a um pastor alemão: é deitar-se no chão, levantar as patinhas e mostrar-se indefeso, pois ninguém se quer confrontar com um colosso enfurecido. Por isso, caro leitor, para prevenir males maiores vá pedindo desculpa mesmo que não saiba o porquê. O tubarão que atacou o surfista é coisa de mariquinhas comparado como uma mulher enfurecida.

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