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Nada de grandioso por detrás das minhas nuvens.

por Fernando Lopes, 31 Mar 16

cedofeita.jpg Fim de tarde na Rua de Cedofeita

 

 

Chuva, chuva, chuva, chuva. Tínhamos planeado uma semana no Minho, desistimos ao quinto dia de chuva quási ininterrupta. Mapas de percursos pedestres ficaram para uso posterior, o mais que consegui foi uma caminhada de três ou quatro quilómetros com o meu cunhado, único suficientemente maluco para andar a pé com aquele tempo.

 

Metemos por estrada asfaltada que de tanta a água que por ela escorria, fazendo ondas, parecia percurso de surf no Alto-Minho interior. Quando chegamos ao café do Cunha a roupa impermeável tinha deixado de o ser, o pólo de mangas compridas debaixo do blusão completamente encharcado. Percurso celebrado com uma mistura de favaios e cerveja para ganhar coragem para a subida de quase mil metros que nos esperava.

 

Malas feitas, regressado à cidade, tudo me parece demasiado ruidoso, intenso, luminoso, uma espécie de caleidoscópio que entontece e enjoa.

 

Castigo o corpo com caminhadas de e para a baixa, quilómetros para cá e para lá. Levam-me as pernas – ou a cabeça – sempre aos mesmos locais de que sou pedra, azulejo, janela envelhecida, como se de um modo só meu me tivesse fundido com aquelas ruas e casas.

 

Sobre o nada escrevo, porque dele é composto o meu dia-a-dia. Nada há de grandioso por detrás das minhas nuvens.

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Vou ali e já venho.

por Fernando Lopes, 24 Mar 16

garranos.JPG

 

Esperam-me dez dias inteirinhos de férias, no ambiente relaxado da «minha aldeia». Fiquem bem e até já. 

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O drama americano.

por Fernando Lopes, 23 Mar 16

Aqui pela parvónia, em termos de presidentes, vivemos um drama inverso ao americano: Cavaco era tão mau, rodeado de tão má rês, que qualquer cão ou gato que o viesse substituir seria infinitamente melhor. Menos mal, calhou-nos em sorte uma pop-star. Obama é tão bom que o seu substituto nos parecerá sempre uma segunda escolha. Trump é inqualificável, um redneck em versão milionária. Desconfio de Hillary. Uma mulher que não é capaz de manter a pila do marido dentro das calças, e após um escândalo global não tem a coragem de o por porta fora por ambição política não me parece um exemplo de carácter para governar o país mais poderoso do mundo. A América e o mundo ficariam melhor servidos com Bernie Sanders.

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Empreendedorismo.

por Fernando Lopes, 21 Mar 16

Eu, que detesto os tiques da moda em que qualquer taberneiro com uma tasca de look vintage passou a empreendedor, tive uma ideia de negócio. É verdade, não consigo vender um gelado em África ou um aquecedor no Árctico, mas tive uma pulsão empreendedora.

 

Dentro em breve com os juros a taxa 0, as poupanças dos portugueses passarão a ser «desremuneradas», isto é, um depositante faz uma promissória de 10.000 euros e após um ano terá 9.990, dez euros subtraídos por despesas de manutenção.

 

É aqui se inicia a minha ideia. Mandar fabricar cofres para que os forretas tenham o dinheiro em casa. Que ninguém duvide que a manterem-se estas taxas de juro a venda de cofres irá aumentar vertiginosamente.

 

Esta é a parte um. A parte dois é num acordo de larápios, combinar com os chineses que construirão o meu cofre um segredo comum. Em regime de outsourcing subcontrataremos uma equipa de ladrões capazes que se encarregarão de aliviar a clientela de tudo o que forem jóias, ouro em medalha ou barra, deixando intocado o dinheiro. Dada a singularidade do procedimento, antes que alguém associe a marca aos roubos já teremos uma poupança capaz de nos deixar uma meia-dúzia de anos nas Caraíbas de papo para o ar.

 

Agora digam lá que não tenho futuro nessa coisa do empreendedorismo.

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Como uma mulher bonita.

por Fernando Lopes, 19 Mar 16

Passeio matinal pela baixa. Chegado aos Clérigos deparo com um grupo de sexagenárias espanholas perdidas entre mapas e GPS. Ofereço ajuda e indico o meio mais rápido para chegar ao local pretendido.

 

- Obrigado, foi muito amável.

- É um gosto. Nasci, cresci, provavelmente morrerei aqui. É a minha cidade. Como quem é casado com uma mulher muito bonita, dá-me prazer ajudar os outros a conhecê-la e admirá-la.

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Mosca de padaria.

por Fernando Lopes, 17 Mar 16

Falávamos de um colega cuja vida amorosa definiria no mínimo como intensa. Uma das camaradas referiu-se-lhe como «mosca de padaria». Perguntei-lhe o que significava, recebi como resposta um «poisa aqui, poisa acolá, mas nunca pára em sítio nenhum». Parece que no Brasil  se referem à «mosca de padaria» como o que tenta com todas e nunca consegue com nenhuma. Seja como for é mais uma bela expressão.

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Da ignorância dos técnicos da Peugeot.

por Fernando Lopes, 15 Mar 16

Um diário não é composto de factos grandiosos, antes de pequenas observações e outros tantos nadas que nos espantam. O carro da minha mulher sofreu um ataque de nervos e de quando em vez, sem aviso prévio, desliga-se. Como isto é particularmente perigoso para quem anda na VCI, sujeitando-se ao esmagamento por camião TIR apressado, levámo-lo à Peugeot.

 

Três mil metros quadrados de oficina e nem um macacão, os funcionários da marca mais parecem os pilotos do Paris-Dakar com camisas azuis e brancas e logotipos à maneira.

 

Dois dias depois e face à ausência de contactos informaram-na que não sabem o que o carro tem. Dezenas de licenciados em engenharia mecânica, electricistas, recepcionistas – gosto do termo recepcionista nas oficinas, parece que levamos o chasso a um spa e não a arranjar – e ninguém sabe dizer de que mal padece o veículo. Meios de diagnóstico electrónico, maquinetas para tudo e para nada e o mistério permanece.

 

A minha mulher disse-lhes o óbvio: se não derem uma volta com ele não conseguem descobrir nada. Virá então um «experimentador» que mais não é que um funcionário que passeia os carros dos clientes a ver se descobre alguma anormalidade.

 

As oficinas reproduzem as empresas modernas; muito sainete, show-off à fartazana, mas ninguém percebe a ponta de um corno do que está a fazer, limitando-se a ler e actuar acriticamente perante os diagnósticos que aparecem no portátil.

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Temas:

Amor no passeio.

por Fernando Lopes, 14 Mar 16

FullSizeRender.jpg Um qualquer apaixonado deu-se ao trabalho de pintar inúmeros corações no cimento da Rua de Oliveira Monteiro. Ficou um feio chão mais alegre e colorido, este coração empedernido tocado por tão pueril demonstração de amor.

 

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Receitas para homens sós.

por Fernando Lopes, 13 Mar 16

Vês-te com 40 anos e dois filhos, divorciado e só. Se fores do tipo convencional levarás para a cama tudo que é fêmea que mexe numa procura desesperada por recuperar aquele sentimento perdido. Se fores como eu, o mais provável é atirares-te à garrafa. À noite, o silêncio é tão intenso que ouves o teu próprio coração a bater. Músculo inútil, num exercício mecânico, porque não tens nada lá dentro a não ser o vazio. Beberás para esquecer e esquecerás tudo, até quem e o que és. Habituar-te-ás a essa solidão que corrói e se te impregna na pele como o cheiro a lixivia parece ser o perfume das senhoras de limpezas. Uma forma de te amares é cozinhar. Por ti, para ti. Escrito por um tipo que não sabe cozinhar parecer-te-á anedota, mas não é.

 

Atum de cebolada:

 

- 1 lata de atum

- 1 cebola média

- polpa de tomate ou ketchup

 

Colocas um fio de azeite na sertã (frigideira se fores do centro ou sul). Deixas a cebola alourar até que tome a cor do cabelo daquela menina por quem te apaixonaste na primária. Colocas o atum previamente escorrido de azeite por cima da cebola e misturas como se misturam o amor, angústia e amargura no teu peito. Adicionas o ketchup ou polpa de tomate (prefiro a polpa) e continuas a mexer até tudo ficar com a cor vermelha dos lábios do pedaço de mau caminho que contigo se cruza no metro todos os dias. Fá-lo com amor, como se estivesses a homenagear as tuas paixões passadas, presentes e futuras. Podes acompanhar com uma salada de alface, tomate, pepino e rúcula. Gosto também de pickles ao lado. Dão cor e fazem-te recordar que a vida é sobretudo avinagrada entrecortada de modo ocasional por momentos doces.

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Temas:

Os homens que se apaixonam são parvos.

por Fernando Lopes, 11 Mar 16

Homem que é homem não se apaixona, permite que uma mulher tenha o prazer de usufruir da sua companhia, sabedoria infinita, auto-estima à prova de bala, performance sexual arrasadora. Ama-se a si próprio acima de todas as coisas, acha-se atraente mesmo que seja feio, interessante, culto, bon vivant.

 

Os tolos capazes de se apaixonar balbuciam disparates, colocam os olhos no chão timidamente, são inseguros, indecisos, fracos, inábeis, frágeis. Têm medo de tudo e sobretudo de si mesmo.

 

Gostava de ser um homem, homem.

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