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Photo Opportunitity.

por Fernando Lopes, 15 Jan 17

 

Gosto muito de fotografar pessoas embora raramente o faça, excepção às fotos familiares. Aquela treta de «uma imagem vale mais que mil palavras» é, ocasionalmente, verdadeira. Caminhava em frente à igreja do Marquês quando vejo um casal de idosos. Um com uma muleta no braço esquerdo, outro com idêntico aparelho no direito, o braço sobejante dado ao companheiro. Uma coisa enternecedora, uma imagem da vontade férrea daquele casal em caminhar junto, apoiando-se. Peguei no telemóvel e preparei-me para os fotografar de costas. Uma photo opportunitity como poucas, um momento singular e belo. Apontei, desisti. Algo me dizia que estava a invadir a privacidade daquela dupla de resistentes. Ficam esta pobres palavras, que por muito eloquentes que fossem nunca conseguiriam descrever a grandeza daquele momento e casal.

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Profetas.

por Fernando Lopes, 13 Jan 17

A turba gosta do sentimento de pertença, vai daí afadiga-se a militar em associações várias, de clubes a partidos, passando por sindicatos, associações culturais e recreativas, clubes de golfe, religiões esotéricas ou nem por isso. Talvez por ter sido descartado pelos meus pais desde os três meses de idade, nunca a nada pertenci. Gosta o maralhal de se sentir parte de algo maior que si mesmo, transformando a pólis de cidadãos em algo muito similar a rebanho. Todo o grémio precisa de pastor, logo surgem bem intencionados, falsos profetas, charlatães, manipuladores, e espécies variadas, que ao que dizem, trabalhando em prol da cáfila, se abocanham ao maior pedaço. Que as sanguessugas façam pela vida é normal, da sua natureza. Pasmo perante a adulação dos cretinos que, enganados, roubados, secundarizados, seguem alegremente o líder, acriticamente incensando quem chegada a hora se deles descartará como se enxota incómodo muscídeo.

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Ficar sóbrio.

por Fernando Lopes, 12 Jan 17

À minha volta, amigos embebedam-se de paixão. Contrariamente ao que o vulgo diz, estar apaixonado é igual aos 20, 30, ou 50. A diferença só é notória porque existem menos expectativas em relação ao outro, aprendemos a aceitar mais, a tolerar melhor. Um amigo de longuíssima data confessa que só consegue viver nesse estádio, só esse entusiasmo pueril o faz feliz. Por natureza sensível ao estado de alma do outro, gosto de os ver assim, com um sorriso de orelha a orelha, como se nada mais importasse que o amor. Sendo homem de poucas mas fortíssimas paixões, entendo-os, abraço-lhes o coração, vivo pelos olhos dos outros. Embora aprecie estes momentos de inebriamento, enlevo, aconselho-os a ficarem sóbrios. Essa voragem que tudo consome não pode – ou não deve – ser o estado primeiro de alguém. Depois vejo que no fundo todos ambicionamos essa tonta felicidade permanente. Uns vivem para ela, outros habituam-se a mares menos capelosos. O meu conselho é treta. Vivam tão intensamente quanto for possível, entreguem o coração, corpo e alma, tanto quanto conseguirem. Quem não anda num permanente precipício só vive pela metade.

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Mensagem na parede.

por Fernando Lopes, 7 Jan 17

disconnected.jpgDe modo gráfico, o que aqui já escrevi várias vezes: uma cabeça brilhante desligada do coração, nada vale.

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700 gramas.

por Fernando Lopes, 5 Jan 17

Não, não é um remake do mítico «21 gramas», nem a minha alma tem a pretensão de pesar os 21 gramas, quanto mais 700. 700 (setecentos por extenso) é o peso que perco de cada vez que vou ao ginásio, mesmo que beba um litro de água. Banha a derreter, só a sensação revigorante que dá uma banhoca depois, vale a pena.

 

Hoje fui mais cedo e andavam por lá duas ou três ninfas e duas ninfetas. Se os rapazitos tivessem um ataque de agudo de testostateronite e se pusessem a exibir como loucos, seria compreensível, dança do macho para acasalar e essas merdas todas. Dá-me vontade de rir, porque são os tipos já perto dos 40 que fazem as figuras mais patetas. Depois olho para os brinquinhos, os braços cheios de tatuagens e o repetir incessatemente «que cena» e digo para com os meus botões: a cabecinha não dá para mais, têm mesmo de pensar com os tomates.

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Pruridos linguísticos.

por Fernando Lopes, 4 Jan 17

No tempo em que os animais falavam não existia a linguagem formatada, igualzinha, inócua. Habituei-me a tratar um preto por preto, maluco por atolambado, portador de síndrome de Down por mongolóide, coxo por manco, corcunda por marreco, sem que isto significasse nenhum desrespeito pelas pessoas ou suas limitações. Falava-se assim, a linguagem simples do povo, às vezes com piedade, sempre sem maldade. Eu, pelo menos, nunca a tive. Ocorre-se-me isto por as crianças já aprendem na escola esta novilíngua, orwelliana, politicamente correcta. A filha chamou-me à atenção quando contava a «estória» dos meus primeiros cigarros e das que mos venderam, as corcundinhas. Duas primas que tinham um quiosque ali pelos Mártires da Liberdade, deficientes, e a quem assim chamávamos sem vontade de estigmatizar. Vou ali comprar «Provisórios» às corcundinhas e já venho, coisa que tantas vezes disse aos amigos, é para a cria linguagem a evitar. Não tínhamos maldade, dizíamos o que ouvíamos à gente simples, trabalhadora, que nos rodeava. De tanto não querer ferir com as palavras, desapareceram as expressões castiças da minha mocidade. Esta uniformização da língua também tem origem na escola. Os livros falam em frigideiras quando dizemos sertã, chamam às cruzetas, cabides, ao picheleiro, canalizador. Chegará o tempo em que por imposição estranha referir-nos-emos às coisas de igual forma, de norte a sul. Ninguém contabilizará os termos antigos que se perderam, nem se dirá o meu amigo preto, mas o meu amigo negro. Além de redutor, igualitário no mau sentido, é um modo de falar para sempre perdido.

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Este fim de ano passei-o assim.

por Fernando Lopes, 3 Jan 17

testemunho.jpg

 

Todos os meus amigos sabem que adoro crianças, talvez porque, teimosamente, insisto em permanecer infantil. Consigo-o sem grande esforço e de modo tão natural que parece que da meninice nunca saí. Este fim-de-ano, quando soaram as doze badaladas, estava com este bebé ao colo. Tem a foto algo de simbólico, o velho e o novo, o presente/passado e o futuro. Não é uma passagem de testemunho, mas um instante em que diferentes gerações se cruzam. Neste bebé um mundo infinito de possibilidades, no maduro, mais de cinco décadas de experiência acumulada. 

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E se o teu blogue mudasse a vida de alguém?

por Fernando Lopes, 30 Dez 16

urgência.jpgPalavras de parede, nos Mártires da Liberdade

 

Acho que ninguém decide escrever, fá-lo porque é a forma em que se sente mais confortável a comunicar. Este vosso escriba não tem mais objectivo que o de transmitir sentimentos, ideias, ao outro que está desse lado, como se de uma infantil conversa com um amigo imaginário se tratasse. As consequências das palavras, o modo como tocam quem as lê, já não é algo que consiga controlar. Há quase dois anos, conhecei um tipo artístico e tímido com quem tinha estabelecido empatia, através desta coisa dos blogues. Tornámo-nos amigos, tentei acompanhá-lo, aconselhá-lo, o melhor que podia e sabia, num momento difícil desta coisa transitória a que chamamos vida.

 

Também pela estranha magia da palavra escrita, conheceu uma rapariga por quem se apaixonou. E a rapariga por ele. E tudo começou aqui no blogue. Involuntariamente, apadrinhei uma relação amorosa que me enche o coração de ternura. Quando fala dela sorri com o seu jeito infantil, um menino que reencontrou o melhor que o mundo tem para dar: amor.

 

Estive com ela apenas uma horas. É gira, viva, inteligente, decidida. A delicadeza dele é complementada pelo sentido prático e arrojo dela. Fazem um par de amantes e compinchas plenos de cumplicidade.

 

Só por estes momentos de felicidade que esses dois seres humanos tão especiais estão a viver, já valeu a pena andar estes anos todos a mandar palavras ao vento. Disse. 

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PlayGirl.

por Fernando Lopes, 29 Dez 16

Passas por mim, pernas magras e longas, longo cabelo cor de fogo, olhos índigo, e sorris. Sei que a sedução é o teu jogo, algo que fazes inconscientemente. Não brinques com corações velhos, marcados por cicatrizes, que doem e choram, e só às vezes brilham. Lança o teu feitiço a quem a ele possa sobreviver, para quem sejas apenas mais uma estória, acaso feliz.  Vai playgirl, bela, jovem, e vê o que os meus olhos te falam: a sedução é um jogo onde sempre alguém perde, tem cuidado em não destroçar quem é ainda mais frágil que este que te olha e retribui o sorriso, para quem não passas apenas de uma beleza que oprime, e ao mesmo tempo, enternece.

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Uma puta como as outras.

por Fernando Lopes, 28 Dez 16

musico_cedofeita.jpg O homem, a guitarra, a liberdade. Ainda e sempre em Cedofeita.

 

Sais de casa no eu primeiro dia de férias de ano novo. No cruzamento de Oliveira Monteiro com Nossa Senhora de Fátima, na esplanada da velha confeitaria, um homem toca clarinete para ninguém, só pelo prazer de tocar. Em Cedofeita páras para conversar com outro músico de rua já teu velho conhecido. Na rua da Fábrica um asiático tira sons melodiosos de uma espécie de xilofone. Invejas-lhes a liberdade. Depois reflectes e vês como te tornaste prisioneiro do teu modo de vida: salário confortável, apartamento em zona nobre da cidade, casa de campo, férias em destinos «exóticos», popó de quase 200 cavalos. Não escolheste este ou outro caminho, o destino simplesmente empurrou-te. És uma puta, uma puta como as outras, talvez mais venal. Essas só transaccionam o corpo, tu, meu merdas, vendes diariamente a tua liberdade. Consolas-te com o fraco pensamento que a tua cabeça é inexpugnável, nela reside o teu espaço último de independência.

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Feedback

  • Henedina

    Parabéns! Benvindo a minha idade jovenzito

  • redonda

    Muito bem dito/escrito :)

  • redonda

    E com este texto lembrei-me do jogo do sisudo - eu...

  • Fernando Lopes

    Confesso que não sei avaliar, sei apenas olhar ass...

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