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Rituais de passagem.

por Fernando Lopes, 6 Mar 15

Nos dias de hoje a escolaridade mínima é de 12 anos. Paradoxalmente, como os pais, avós e bisavós, continuamos a considerar a conclusão do ensino primário um ritual de passagem. Tal apenas se deve a uma questão cultural, a antiga 4ª classe não significa que estamos aptos à vida activa como no tempo dos nossos antepassados. Mas persiste. O pai recebeu de presente uma caneta de tinta permanente (já não corria o risco de borratar), eu, como a maioria da minha geração, um relógio de pulso.

 

Hoje, o símbolo de fim desse ciclo é a oferta de um telemóvel. Não queria, mas também não posso combater o hábito que se enraizou. A pequenota vai receber um télélé que faz mais e melhor que os computadores de há uma dúzia de anos atrás. The times they are A-changin’.

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Projecto feminino.

por Fernando Lopes, 5 Mar 15

projectos.png

 

Projecto: substantivo masculino, aquilo que alguém planeia ou pretende fazer; esboço de trabalho que se pretende realizar; plano gráfico e descritivo.

 

Num espaço de poucos dias, duas amigas, mulheres jovens entre os trinta e cinco e quarenta, contavam-me as suas desilusões na busca do amor. A conclusão é que face aos potenciais eleitos não tinham capacidade de construir um «projecto comum». Fiquei a matutar no que seria o projecto: constituir família, terem carreiras bem-sucedidas, filhos, cão e carrinha, como as famílias supostamente normais?  

 

Não sabem estas queridas que não há espaço mais disfuncional que a família; nela se mata e morre, trai e glorifica, se cometem os maiores actos de amor e de crueldade que um ser humano pode perpetrar? As coisas acontecem se as deixarmos acontecer. O amor, os filhos, a vida. Viver não é um projecto de fundações sólidas, antes coisa que surge no nosso caminho, sem plano. Hoje sou pai de família, supostamente concretizei o projecto. Nada foi pensado, nada me garante que amanhã não seja marido traído, pai falhado, homem sozinho.

 

Não entendo esta feminina mania de tudo querer prever, arquitectar. A vida não se planeia, vive-se, aproveitando o que ela nos dá, bom e mau. Nunca projectei o futuro, até porque, amanhã, ele pode não existir ou esboroar-se como uma construção na areia.

 

Alguém me explica se estou a ter uma má interpretação, ou se a ansiedade destas jovens com o futuro não se transformou num impedimento à sua simples fruição?

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Um certo nojo pelo dinheiro.

por Fernando Lopes, 4 Mar 15

Dou por mim a pedir à minha mulher que pague a conta do restaurante, supermercado, a maioria das transacções. Desenvolvi um certo asco pelo dinheiro, não pelo objecto em si, mas pelo que significa. Isto é escrito sem sobranceria ou manias de artista. Sem ser rico, nunca lhe dei grandemente pela falta. Talvez seja essa uma das razões do meu desdém.

 

Há porém outras. Por dinheiro trai-se, mata-se, prostitui-se, faz-se de tudo. Sei bem que nos pode proporcionar o essencial, continuo a não gostar dele. Hoje desmaterializou-se, tudo o que fazemos é via cartão, internet. De facto, o objecto tenderá a desaparecer. Não ficamos hoje tranquilos por ver num ecrã os dígitos que nos permitem seguir com a vida para a frente? Alguém paga um carro, uma casa, em cash?

 

Um simples depositante, se for a um balcão bancário levantar cinco ou dez mil euros, terá fortes probabilidades que uma quantia desse calibre não esteja no cofre. Não deve existir em papel-moeda nem um décimo do dinheiro que circula virtualmente. Não gosto de dinheiro, e recordo-me de um velho refrão de uma canção: What’s the coulor of money? Don't tell me that you think is green, me I know it’s red.

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Epifania.

por Fernando Lopes, 2 Mar 15

Não sou particularmente culto ou grande bibliófilo; leitor mediano, não ultrapasso os vinte livros por ano. Gosto sobretudo de romances, «estórias». Quando uma obra me chega precedida de grandes encómios e adjectivação generosa, como ao cão sarnento, arrebita-se-me a orelha de suspeição. Conduziram-me a «Stoner» Mestre J. Rentes de Carvalho e o Ricardo Gonçalves com que partilho muitas das descobertas.

 

«Stoner» é uma obra especial. Toda ela cruzada por uma enorme melancolia e pelo amor ao ensino e sobretudo à literatura. Uma biografia romanceada que poderia ser a de qualquer académico aprisionado no seu universo e circunstância. A vida de Stoner é de algum modo, a minha, a tua, a do homem comum. A diferença é a autenticidade, despretensiosismo e elegância de escrita com que ela é contada.

 

Ocasionalmente provocou-me uma ou outra epifania: o que sinto, sentimos, está ali retratado com rigor e transparência. Atente-se nesta pequena amostra:

 

Depois, sorriu com ternura, como que perante uma recordação. Pensou que tinha quase sessenta anos e que deveria estar para lá de uma tal paixão, de um tal amor.

Mas não estava, sabia que não estava e nunca estaria. Debaixo da dormência, da indiferença, do distanciamento, ali estava paixão, intensa e firme; sempre ali estivera. Na juventude, dera-a livremente, sem pensar …

 

De estranhas maneiras, dera-a a cada instante da sua vida e talvez a tenha dado mais plenamente quando não estava ciente de o fazer. Não era uma paixão nem da mente nem da carne; era, isso sim, uma força que as abrangia a ambas, como se fossem a matéria do amor, a sua substância específica. Dedicada a uma mulher ou a um poema, dizia simplesmente: Olha! Estou vivo.

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Ninguém vive sem amor, quando muito sobrevive. Existimos para amar e ser amados. Sem isso nada faz sentido. Podemos ter sucesso, dinheiro, conforto, nada é verdadeiramente importante se não tivermos amor. Saber que alguém me ama é o meu combustível, quase tudo o que necessito para ser feliz. Serei porventura um tipo estranho, mas no dia em que deixar de ser amado, morrerei, talvez não de imediato, mas a vida será tão sentido que não merecerá ser vivida. 

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Pacheco, por ele mesmo.

por Fernando Lopes, 27 Fev 15

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«Está para sair um livro com entrevistas suas... Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras.» Luiz Pacheco, semanário «Sol», Janeiro de 2008. Grande prosador, Luiz Pacheco foi também um dos melhores conversadores da imprensa. Estas entrevistas, publicadas nos últimos 20 anos em jornais e revistas, apresentam-nos uma das vidas mais agitadas da literatura portuguesa e são bem a expressão de uma inteligência desperta, desafiadora e implacável, batendo forte e feio em algumas personalidades da nossa vida pública. Caso humano riquíssimo, impossível de resumir aqui, o mais sensato é dar-lhe a palavra: «Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco nasceu em 7 de Maio de 1925 e espera morrer no ano 2000. Está bem-disposto, porque está desempregado. Publicou muitos livros de outros autores. Não se lembra de publicar nada (dele) que prestasse. Escreveu muitas obras e perdeu quase todas. Teve três mulheres, nove filhos e netos, nem conta. Folhetos de sua autoria: Os Doutores, a Salvação e o Menino, Carta-Sincera a José Gomes Ferreira, O Teodolito, Os Namorados, O Cachecol do Artista. Teve 18 valores na admissão. O Urbano teve 12.» 

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Respeita os aleijadinhos, o caralho!

por Fernando Lopes, 26 Fev 15

schauble.jpgExistem modelos eléctricos, ó forreta!

 

 

A minha avó, uma santa, que se o céu existisse já teria destituído deus e era a gestora do empreendimento, gostava de me dar conselhos. Não te metas com prostitutas, não andes na droga, fuma menos, e um sentido, não gozes com os aleijadinhos.

 

Esta advertência deu-ma porque em criança gostava de imitar um tipo com um problema neurológico qualquer, que tremia como varas verdes, arrastava penosamente a perna direita e a quem baptizei de digue-digue. Ainda hoje gosto de arrojar a perna, colocar as mãos como um louva-a-deus e fazer essa imitação. Faço-o em privado, com medo que um calhau do politicamente correcto me caia sobre a cabeça, a esmague, e se veja, claramente visto, que cá dentro só tenho serradura.

 

A avó – não sei se já disse isto, mas era uma querida – ensinou-me a respeitar os aleijadinhos, e como bom menino, faço-o. Ou melhor, fazia-o. Tenho na vida um momento A.W.S. e D.W.S., trocado em miúdos, Antes de Wolfgang Schäuble e Depois de Wolfgang Schäuble. O homem tem um ar sinistro, parecendo daqueles pérfidos vilões de cinema que têm um guarda-costa de dois metros de alto por dois de largo a empurrar o aparelho em que se locomove. Como o preço dos bodyguards deve estar pela hora da morte, até para um boche maléfico e forreta, contratou a nossa ministra das finanças para lhe empurrar a cadeira.

 

Frau Albuquerque trabalha fiel e graciosamente só para aparecer na fotografia, é o protótipo da enfermeira que se apaixona pelo paciente. Acho que existe ali uma pérfida atracção sexual. Sabe bem que o velho Schäuble, mesmo em cadeira de rodas, já conseguiu foder 10,8 milhões de portugueses, 10,7 milhões de gregos, 4,8 milhões de irlandeses, and counting.

 

É por isso que, pela primeira vez na vida, pus de lado os conselhos da vovó e desejei que o levassem e à sua cadeirinha até ao cabo da Roca e lhe dessem um piedoso empurrãozinho. Respeita os aleijadinhos, o caralho! 

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Resgatar uma prostituta.

por Fernando Lopes, 25 Fev 15

 

Uma mania recorrente dos homens etilizados em despedidas de solteiro em casas de má fama, é a tentação – que passa com a sobriedade – de resgatar uma qualquer jeitosa à má vida. Conheço vagamente o caso de um salvador que transformou uma dançarina exótica em senhora respeitável, teúda e manteúda. Recordo também o caso de acompanhante que quando questionada sobre o que a levara àqueles caminhos respondeu com desarmante simplicidade: eu gosto é de foder!

 

Hoje, ao observar o multi-cromático Romeu e a plastificada e experiente Julieta, pensei para com os meus botões que Roxanne, essa bela história de amor, nunca seria a canção da insólita parelha.

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D.Quixote.jpgD. Quixote e Sancho Pança, num mural na Rua Diogo Brandão à Miguel Bombarda

Sozinho neste dia de anos, resolvi fazer algo diferente. Acordei às 11:00 e pedi à Isilda (a nossa ajuda cá de casa) para preparar um sopa com a «trounchuda» que a Tia Helena, minha vizinha de Arcos, nos tinha dado. Os vegetais rurais têm um sabor completamente diverso das espécies irmãs criadas industrialmente. E como gosto de uma boa sopa de couve. Fui almoçar e decidi-me por um cachorro especial, extra-picante. Meti pés ao caminho para fotografar este mural gigantesco de D. Quixote junto à Miguel Bombarda.

 

 

 

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A pergunta.

por Fernando Lopes, 23 Fev 15

 

Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou-se se os assolaria com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular. Nem sequer tinha a certeza se a pergunta surgia das causas mais imediatas e óbvias, daquilo que a sua própria vida se tornara. Provinha, julgava ele, do acumular dos anos, da densidade de acidentes e circunstâncias, e do que aprendera sobre eles. Tirava um prazer cruel e irónico da possibilidade de o pouco que aprendera o ter levado a essa certeza: que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar aquela conclusão, eram fúteis e vazias, e por fim reduziam-se a um nada que não conseguiam alterar.

  

John Williams, «Stoner»

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