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A cidade e as tascas.

por Fernando Lopes, 12 Jul 14

Caminhada de fim de tarde. Como sempre, regresso à Cedofeita da minha infância. A feira da ladra está a terminar, os improvisados comerciantes arrumam mercadoria em utilitários convertidos em carrinhas de ciganos onde tudo se amanha. Meto pela travessa e noto dois novos bares abertos. É a velha sina portuguesa, se alguém abre negócio de sucesso logo se multiplicam por cem as réplicas como se de sismo se tratasse. Os novos comerciantes, incapazes de ideia original, transformam buraco esconso em tasca de tapas, bar rústico, gourmet, artístico ou alternativo. A este ritmo rapidamente alcançaremos o maior rácio de tabernas por habitante do continente europeu. Quando a cidade passar de moda restará aos portuenses a ressaca, passear de bodega em bodega, beber até cair a preços módicos.

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Comprava casa a estes caramelos?

por Fernando Lopes, 11 Jul 14

Comprava casa a esta gente? Nem sempre a ideia de vídeos com gente real funciona, eis um fracasso completo. A jovem salta freneticamente como se estivesse numa festa ou com pulgas nas cuecas... A senhora de mais idade parece mais apta a vender lugares num lar de terceira idade. Not a good idea.

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As mais belas férias.

por Fernando Lopes, 10 Jul 14

 (Vista do Ilhéu das Rolas para S. Tomé)

Fechado em casa, férias na praia adiadas sine die por bons motivos, pus-me a pensar qual teria sido a visita mais marcante. Embora conheça Londres, Paris, Barcelona e algumas outras cidades europeias, não sou turista de cidade. Já conheci o luxo e deslumbramento do Índico, vivi a alegria berbere do norte de África, saltei de ilha em ilha nas Caraíbas, dancei mornas e coladeiras em Cabo Verde, mas a terra que me vestiu o coração foi S. Tomé. Já passaram uns bons dez anos, confesso no entanto que não gostava de morrer sem voltar.

 

A única companhia que voa para S. Tomé é a TAP, na altura aproveitamos uma campanha da extinta Air Luxor e viajamos a preços bem em conta. À época não havia reabastecimento no aeroporto S. Tomense pelo que o avião saía de Lisboa com carga completa, isto é, metade dos passageiros e combustível suficiente para ir e voltar. Na volta todos os lugares podiam ser ocupados uma vez que a aeronave já só trazia metade do peso em combustível. Só havia um voo semanal à quarta-feira, localmente conhecido como «Dia de S. Avião».

 

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O poder do calduço.

por Fernando Lopes, 9 Jul 14

Sabem os estimados leitores da vetustez do escriba. Tal traduz-se em hábitos fora de moda, que se me continuam a fluir devido a educação no século passado; uso abundante do se faz favor, obrigado, e heresia das heresias, dar sempre primazia às senhoras. Hoje, ao almoçar com a Treza e o Luís, recordei-me do porquê de deixar sempre as mulheres passarem à frente. Não é tal, acto de machismo, mas memória reflexa da educação dada pelo avô.

 

Teria uns sete ou oito anos e visitávamos uma qualquer loja. Entusiasmado com a perspectiva do presente que iria receber, não refreei a ansiedade e passei à frente de umas senhoras que transpunham a porta. Acto contínuo recebo um calduço, sou puxado para trás pelos colarinhos:

- Rapaz, não viste as senhoras? – perguntou o avô.

Mais que o calduço, o embraço caiu sobre mim.

- Tem razão avô, desculpe.

 

E nunca, mas nunca, nunca mais, passei à frente de alguma representante do sexo feminino. Primado às senhoras, sempre. Hoje em dia discutir-se-ia a igualdade dos sexos, o tratamento diferenciado, questões pedagógicas. Em verdade vos digo, nunca se deve subestimar o poder educativo do calduço.

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Amor na parede.

por Fernando Lopes, 8 Jul 14


Rua da Boavista, Porto.

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A prostituta que dizia adeus.

por Fernando Lopes, 7 Jul 14

Passou quase uma década. Trabalhava na baixa, deixava o carro no parque dos Poveiros, descia Passou Manuel bem cedinho. Ao fim da tarde repetia o percurso no sentido inverso. Entre as 18:30 e as 19:30 entrava no carro, gozando o fim do dia e o regresso ao meu castelo. À saída do parque, do lado esquerdo, existem uma série de tascas de mal-ajambradas, frequentadas por bêbados crónicos, operários a deixar o fígado destilar a sua dose diária de esquecimento, empurrando o vinho com pataniscas oleosas. Poiso de esquecidos pela sorte que se unem como se ouvissem o apelo de uma longínqua trompa de Rolando. Numa das últimas portas, prostitutas encostadas à porta, vendendo amor para consumar numa pensão manhosa estrategicamente colocada em cima do tasco.

 

Uma rapariga chamava a atenção, crioula com cheiro a ilha longínqua, alta, pernas compridas, elegante, olhos rasgados e lábios pequenos, uma mescla racial bela e exótica como as moças de Cabo Verde ou S. Tomé. Um dia, sorriu e disse-me adeus. Dentro do carro, levantei ligeiramente a mão do volante num cumprimento tímido. Como cliente, um engravatado era uma impossibilidade tão grande como a Disneylândia ser ali ao fundo do jardim de S. Lázaro. Durante meses, diariamente, ela sorriu e cumprimentou, eu disse um tímido «Boa Tarde».

 

Hoje, ao passar pelo local, recordei-me dela. Da teia de cumplicidades que se estabelece entre seres humanos que nunca trocaram mais de uma palavra, do seu ar de trópicos, da pele escura e dentes brancos, sorriso entre o matreiro e infantil. Onde quer que estejas, morena, desejo-te a maior sorte do mundo.

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Este blogue tem memória. Não esquece, Passos Coelho também não. Vítor Bento, há mais de uma década na SIBS, foi promovido por mérito no BdP. Quando funcionários estão em comissão de serviço as promoções por antiguidade podem acontecer, dependendo do regime acordado. As de mérito habitualmente destinam-se a que exerce funções efectivas na empresa. Ao que parece Bento foi promovido acima das suas possibilidades

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O «chinês» da Rua da Boavista.

por Fernando Lopes, 4 Jul 14

Passo por uma «loja do chinês» na Rua da Boavista para satisfazer um desejo da criança; comprar bolas de ping-pong para jogar com as raquetes de praia. Deparo com um cenário único: ao lado do balcão três idosas sentadas em cadeiras de praia, em amena cavaqueira. Dão conselhos sobre o que comprar, parecem ser habitués. Acho encantador o convívio e a informalidade daquele bando improvável de octogenárias e uma comerciante asiática. Saio sem saber quem é útil a quem. Servem as senhoras de tradutoras? Intercâmbio cultural? Centro de dia ou prova provada que a paciência de chinês é muito mais que um mito?

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Gelados.

por Fernando Lopes, 3 Jul 14

Vou-me convencendo que não sou deste tempo, não cesso de me espantar com minudências. Passo por uma confeitaria e olho estupefacto para a enorme quantidade de gelados disponíveis. Quando era criança um gelado era um bem raramente consumido, partilhávamo-lo com os amigos, o célebre «dá cá uma chupa». Só havia uma marca e o catálogo era composto por quatro ou cinco produtos: o Epá, de leite com uma chiclete no fim, o Supermaxi, clássico de leite com cobertura de chocolate, o Perna-de-Pau, com os componentes do anterior e abrilhantado por umas tiras de morango, os de laranja e ananás. Na lista de hoje contei mais de trinta! Era fácil optar porque o dinheiro era pouco e a escolha ainda menos. Hoje os meninos ficam estarrecidos com tanta oferta, e a simples escolha do gelado eleito pode demorar uns bons 15 minutos. Aburguesámo-nos, tornámo-nos pretensiosos, pasmamos com a infinidade de oferta quando temos de comprar uma máquina de lavar roupa, uma torradeira, um computador. Ao menos nos gelados não podiam ter mantido a coisa simples para não baralhar as crianças?   

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Envelhecer como Iggy Pop.

por Fernando Lopes, 2 Jul 14

Iggy Pop é um mito. Consegue aos 67 anos transformar uma bebida sensaborona como a Schweppes em algo cool. Personagem limite, gerou alguns dos boatos mais repetidos do rock: relação homossexual com Bowie, masturbação compulsiva e consequente impotência, internamento num manicómio. O autor de «The Passanger» envelheceu bem, mantêm ar rebelde e tresloucado, aspecto de quem continua a jogar com todo o baralho da vida. 

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