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Domesticado, nunca!

por Fernando Lopes, 11 Fev 15

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Ao que parece na Holanda e provavelmente noutros países do norte este sinal é relativamente comum. Querem domesticar-nos. Nunca, jamais, em tempo algum, me porão a fazer chichi sentado. Eu e a minha testosterona conferenciamos aos 7 anos de idade e ela disse-me: um homem mija de pé. É uma coisa territorial, provavelmente vinda da nossa ancestralidade animal e que me recuso a abandonar. Recordo o tempo de petiz em que fazíamos concursos para ver quem fazia para mais longe, prova de masculinidade e divertimento garantido. Lembro-me também de encontrar na Tunísia mictórios colocados a 1,40m de altura. Urinóis para gigantes? Fazíamos uns às cavalitas dos outros com os riscos inerentes? A resposta foi simples, tinham-se acabado os canos, os locais do chichi foram até onde o tubo dava. Inúteis, mas másculos. Haveria estórias destas se como meninos bem comportados fizéssemos sentadinhos na sanita?

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Hibernar.

por Fernando Lopes, 10 Fev 15

Gosto de trabalhar. Tal não significa que se ficasse multimilionário passasse o resto dos meus dias no ofício de amanuense. Com muito dinheiro seria uma espécie de Gaugain sem telas ou pincéis, viajaria por ilhas tropicais, admirando colares de flores e seios desnudos de roliças nativas. A escassez de talento para a pintura levar-me-ia a escrever, sendo culpado de uma assentada do assassínio  da nobre arte dos diários de viagem e da ciência da antropologia.

 

Estou-me a imaginar em tropicais paragens, porque trabalhar no Inverno é-me muito difícil. 7:15 e toca o telemóvel. Carrego no botão do «snooze» para mais 9 minutos de preguiça. Repito a operação. Lá fora brilha um sol de fingimento, que ilumina mas não aquece. Puxo o ederdon deixando apenas a ponta do nariz de fora. Estão 3 graus centígrados e está-se bem ali, protegido, uma espécie de útero materno quente e aconchegante.

 

Todos os dias de Inverno representam um enorme exercício de força de vontade, a luta para não ficar a preguiçar. Nado e criado neste semitropical Portugal, é um mistério como é que os povos do norte todos os dias se levantam, vencem barreiras, a neve, e vão à luta. Num clima extremo ficaria a hibernar até que a Primavera chegasse. Mesmo em Portugal é uma hipótese que não desdenharia.

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Procuramos sempre um primeiro amor.

por Fernando Lopes, 8 Fev 15

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Apesar da minha escassez de experiência na matéria gosto de discorrer sobre amor, de desvendar o que me passa pelo pensamento. O ditado «não há amor como o primeiro», lançado ao ar com ligeireza, deixou-me a pensar sobre o tema.

 

De facto, não há. Digo-o no sentido de ser incondicional, não estar preso a valores ou normas, desinteressado, num estado de pureza que o tempo se encarrega de corromper. Quando nos apaixonamos pela primeira, ou primeiras vezes, pouco nos interessa o mundo que nos rodeia. Só existe aquela pessoa, tudo para lá dela é insignificante. Achamo-la bonita mesmo que o não seja, não importa se é inteligente ou não, não existe futuro, só o aqui e agora que o bailado do coração e hormonas nos dita.

 

É coisa animal, no sentido mais nobre que animal tem.

 

Com o tempo passamos a valorizar o intelecto, sensibilidade, desempenho profissional e outros factores que na adolescência nem sequer nos passavam pela cabeça. Sentíamos e isso era mais que suficiente. De modo pueril, confesso que procurei sempre um primeiro amor, desses que é 100% paixão e 0% de racionalidade. Dou por mim a desejar voltar a ser o rapazinho que apenas sente.

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Estar-se nas tintas.

por Fernando Lopes, 6 Fev 15

Recentemente, nos anos de uma amiga, travei discussão acalorada com o meu advogado favorito. Boémio, inteligente, vivo, amante de uma boa polémica, o Jorge é nesse aspecto uma alma gémea. Discordámos vivamente, diria exageradamente, um modo que nos é comum. Polémica em alta voz, com entusiamo, vocabulário e imagens impróprias face ao assepticismo em vigor.

 

No tempo que vivemos ninguém quer ser conflitual, com medo de se expor – ou pior ainda – de perder o debate. Não nós. Se a argumentação não for viva, hiperbólica, vai-se a piada.

 

O embaraço de alguns dos presentes trouxe-me a um tema que é muito querido nos tempos que correm: a imagem, o que os outros pensam de nós. Constato que nunca liguei muito ao que pensam de mim. Estou-me nas tintas. Preocupo-me em não afectar as pessoas de quem gosto, de as respeitar, por educação e por uma enorme necessidade de me sentir amado. Essa urgência em sentir-se querido não faz de mim uma prostituta. Desde que considere quem me rodeia, não maltrate ninguém, tudo o resto, o socialmente correcto, é uma irrelevância.

 

Dou por mim a ter pena das pessoas constrangidas, que se preocupam com o que pensam delas, que agem segundo as normas, que se preocupam com o «parece mal». Que vidas infelizes devem ter, manietadas por normas, incapazes de exprimir com entusiasmo infantil o que lhe vai no recôndito da alma, nunca se aventurando no prazer de uma boa discussão.

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Fernando, ainda te surpreendes?

por Fernando Lopes, 5 Fev 15

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Definitivamente. Olho para esta notícia e quase não acredito. A última vez que vi um Gang de Cotas foi na TVI, um qualquer programa humorístico a forçar a nota que o humor não tem idade. O que leva quatro homens entre os 51 e 71 anos a roubar? Atendendo a que tenho a idade do puto do bando custa-me a crer que o façam pela adrenalina. Hiena dos Matos e quejandos estarão aptos a zurzir nesta trupe, eu, apenas me interrogo. O que os motivava? Se era a necessidade, estão de alguma forma legitimados, se o prazer, necessitam de tratamento psiquiátrico urgente.

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Genética.

por Fernando Lopes, 4 Fev 15

Escrevo muitas vezes sobre a mulher de todas as mulheres, sangue meu, coração partilhado, criança que me habita a alma, a minha filha. Este monumento vivo de amor tem uma característica que me confunde e encanta; é gaja. Com 9 anos, tem cenas de gaja, pensamento de gaja, modus operandi de gaja.

 

Sábado. A minha mulher não pôde almoçar connosco. Convoco o amigo do costume e lá vamos à francesinha, comme d’habitude. Duas chamuças e um príncipe, pão bem torrado, Tabasco com fartura. Quando o festim se aproxima do fim, três príncipes bebidos, peço-lhe:

 

- Tilucha, podes por favor pedir um fino para o pai?

 

- O quê, ainda vais beber mais?

 

Foda-se, 1 metro e 30, 25 quilitos de gente e já me modera o consumo de bebidas alcoólicas?

 

Aqui que ninguém nos ouve, vocês mulheres já nascem assim ou frequentam aulas secretas em que menino não entra?

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Grandes comerciantes, pequenas irritações.

por Fernando Lopes, 3 Fev 15

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As poucas vezes que acompanho a minha mulher às compras é para desempenhar com pundonor o papel de carrejão. Perguntem-me preços, e à excepção de leite, bolachas, vinhos e cervejas, não saberei o que é barato ou caro.

 

Recentemente reparei numa praga que me irrita sobremaneira: nas grandes superfícies, todas, quando digo todas, quero dizer rigorosamente todas as maçãs vêm com um pequena etiqueta colada. Trazem o tipo de maçã e muitas vezes a marca da superfície comercial. Começaram a fazer parte do meu vocabulário variedades do fruto como: Red Delicious, Granny Smith, Fuji, Reineta ou Gala. Todo um conhecimento que não me foi necessário durante cinco décadas, até porque não tenciono tirar nenhum mestrado em «maçalogia». O estupor das etiquetas parecem grudadas com SuperCola3. Quem usa as unhas muito curtas como eu, vê-se e deseja-se para retirar aquela treta.

 

Todas têm uma camada fina de cera, para dar brilho. Ora este vosso humilde criado quer comer maçã que não saiba a soalho, vai daí perde tempo a tirar o autocolante da fruta e depois tem de as lavar com um esfregão de cozinha para que percam o brilho artificial e pareçam finalmente maçãs.

 

Senhores do marketing do Pingo Doce, Continente, Lidl e restante família: e se fossem pôr cera e autocolantes na pata que vos pôs? Eu só quero fruta, duas sílabas apenas. Fru-ta.

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Acção Poética (II)

por Fernando Lopes, 1 Fev 15

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«O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.»

Fernando Pessoa
 
Deixado num «orelhão» na Rua de Cedofeita, perto da Praça Carlos Alberto

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«Se, pelo menos, pudéssemos viver duas vezes: a primeira para cometer todos os inevitáveis erros; a segunda para lucrar com eles.»
 
David Herbert Lawrence
 
Deixado colado na porta do bar «Candelabro», Praça de Montpellier 

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 «Não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele.»
 
Jean de La Fontaine
 
Deixado no quadro de recados do Pingo Doce da Praça da República

A minha cidade é muito mais que um aglomerado de casas, ruas, monumentos. Como todas, é essencialmente pessoas. Sei de cor comerciantes, cafés e tascas, artistas e burgueses. Todos, do seu modo particular, correm-me nas veias. São histórias, vitórias, fracassos, heroísmos, medos, representam multiplicidade de cores, os vários modos de ser. Ser, ser humano, ser parte de uma paisagem mais de gente que de coisas. Ao sair de casa, menos de cinco minutos caminhados, encontrei o mimo-pintor. Conversámos sobre o que está a pintar, uma paisagem deste nosso Porto. Parei para o café habitual em Cedofeita, frente à Rua do Mirante. Ao fundo o Kurt Cobain de Cedofeita dedilhava uma melodia suave, a sua voz rouca estava hoje suave e melancólica, quase um sussurro. A angústia tinha-lhe dado folga. Estes dois mal-amados são também a minha gente. Aqueles que me tocam mais porque mais desprotegidos. Aqueles que estão à margem, que necessitam mais de carinho. Estranhamente ou talvez não, aqueles de que me sinto mais próximo.

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Namorar no Séc. XXI.

por Fernando Lopes, 31 Jan 15

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Enquanto observo o jovem casal à minha frente entendo o namoro do Séc. XXI. O rapaz exibe uma postura corporal que tenta ser sedutora, a jovem sorri, troca duas palavras, e mergulha no telemóvel. O facebook, WhatsApp, o messaging instantâneo, tornaram-se rivais de peso para aquele miúdo nos seus vinte e poucos. Nenhum homem com dois dedos de testa quer ser segundo, menos ainda sabendo que a primeira escolha é um telemóvel. Por isso, jovens senhoras que me lêem, se optaram por sair com um rapaz deixem ficar o mundo virtual na carteira. Conversem, troquem ideias, experiências, e parem de teclar a toda a hora como se o que não existe fosse mais importante que o ser humano à vossa frente. Estas palavras são obviamente extensíveis aos geeks que acham o 4G e o processador Dual Core uma extensão da sua masculinidade.

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O fatinho do ajustamento.

por Fernando Lopes, 28 Jan 15

Hoje, enquanto fazia o nó da gravata e vestia o casaco, olhei para a roupinha. É a imagem do proprietário, coçadito mas ainda digno. Tempos houve em que comprava fatos de qualidade média e gastava 300 euros sem entusiasmo ou sofrimento. Uma farda e ponto.

 

No cabide está um casaco de penas da Timberland, velho de 10 anos, que era relativamente caro. Hoje não teria dinheiro para o comprar. De facto não sou aumentado desde 2005, os impostos subiram, tive até uma redução de vencimento. Não me posso queixar, tenho um padrão de vida muito superior à maioria dos portugueses, mas longe vão os tempos em que não tinha de fazer muitas contas.

 

Apeteceu-me mandar um mail à gorda da Merkel, e explicar-lhe que como eu, milhares de portugueses iniciaram o «ajustamento» há 10 anos. Hoje não posso gastar o mesmo dinheiro, estou limitado à Zara ou ao C&A, e viva o velho. Fuck You, Mrs. Merkel, I’m adjusting since 2005.

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