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Avença com a angústia.

por Fernando Lopes, 12 Ago 14

Estou numa floresta muito densa, escura, húmida. Corro a refugiar-me junto de uma enorme árvore de aspecto ameaçador cujos ramos se inclinam sobre mim como os dedos longos e finos de uma bruxa. Tenho medo, sinto-me desoladamente só. Grito para que me acudam, num timbre grave e rouco. Chamo a avó, a mãe, a minha mulher. Inútil, ninguém responde. Choro compulsivamente, até que as lágrimas, como gotas de chuva, se acumulem no queixo, um fio de baba fique pendente, os olhos me doam e saiam fora das órbitas.

 

Acordo encharcado em suor e ouço a respiração lenta e sincopada da Teresa. Estranho sonho, em que tenho medo do que está à minha volta, procuro refúgio nas mulheres que me estão mais próximas, ando perdido num labirinto de verde. Talvez uma metáfora para a vida, apenas um pesadelo, ou mais?

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Memória.

por Fernando Lopes, 11 Ago 14

A memória é um polvo ou um cancro: estende sinuosas metástases que se desenvolvem de moto próprio, colonizam o corpo e a ele se agarram com ventosas firmes, beneficiando da fraca resistência que oferece um organismo sem ânimo nem vontade, predisposto à doença que é recordar.

 

Manuel Jorge Marmelo «O Tempo Morto É Um Bom Lugar»

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Vai-se andando.

por Fernando Lopes, 9 Ago 14

O Manel continua desempregado, vai-se andando, o marido bateu na vizinha, vai-se andando, uma família morreu esmagada contra um camião quando ia de férias, vai-se andando, à velha senhora roubaram as jóias, vai-se andando, bombeiros foram tragados pelas chamas, vai-se andando, o banco falido vai ser recapitalizado, vai-se andando, a mãe prostituía a filha, vai-se andando, o gato vadio foi atropelado, vai-se andando, um vírus está a matar os pretos, vai-se andando, o Joaquim teve uma trombose, vai-se andando. Vai-se andando, porque ir andando é a melhor forma de permanecer parado.

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Beleza.

por Fernando Lopes, 8 Ago 14

Numa sociedade de multiplicidade os padrões de beleza são cada vez mais restritos e homogéneos, ignorando a variedade de formas e cores do ser humano. Um desastre. Não consigo definir normas para uma mulher bela. Já as admirei roliças e rubensianas, magras como um caniço, peitudas ou com maminhas ainda mais pequenas que as que sou portador. Sexyness é algo inexplicável que me transporta muito para além do corpo, algo mental na forma de lidar com a corporalidade, um carisma muito para além do que se vê. Ser sexy vem essencialmente de dentro, é um sorriso, um cheiro, uma atitude.

 

Um mercado infindável de cremes, ginásios, cirurgias plásticas, cresceu à volta das mulheres, tornando-as tão padronizadas que o conceito de mulher bela é quase único no mundo ocidental.

 

Hoje em dia estes princípios aplicam-se também aos homens. As revistas enchem-se de belos rapazes, barba de dois dias e torso musculado, sem penugem que se veja, versão masculina da Barbie. O mundo está cheio de belos moços que não correspondem aos padrões de hoje. A Gaffe acha que isto é um momento agridoce de vingança do sexo feminino por tudo o que as obrigaram a passar durante décadas. É justo o seu desabafo. Todavia o novo homem, viril e musculado é, tal como foram as mulheres de sonho, um produto de marketing.

 

Esgotado o mercado feminino de beleza, porque é necessário continuar a vender, o negócio expande-se para os homens. Aceito com bonomia o entusiasmo com o novo padrão masculino; tal como o feminino, nunca me interessou. Nos tempos que correm é muito mais fácil encontrar uma pessoa boa que uma boa pessoa. Literalmente.

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Sinfonia em verde.

por Fernando Lopes, 7 Ago 14

(anatra vivace)
(rana scherzando)
(giglio di aqua maestoso)

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O carteiro de Fernando Lopes.

por Fernando Lopes, 6 Ago 14

Contrariamente ao livro de Antonio Skármeta que deu origem ao filme «O Carteiro de Pablo Neruda», sou incapaz de ensinar poesia, tampouco o único destinatário do serviço de correio. Durante muitos anos o meu carteiro foi o Sr. Zé Pedro, um homem de trinta e tal, quarenta anos, cabeça rapada e sorriso franco. Numa zona com imensas habitações, conseguia prestar serviço atento, personalizado, profissional e simpático, um verdadeiro embaixador dos CTT. Nunca falhava uma entrega importante, a todos sorria e conhecia pelo nome. Há dois ou três anos mudaram a sua zona de trabalho. O substituto nunca o vi, apenas mais um anónimo na prestação de serviços.

 

Hoje ao sair de casa encontrei o Sr. Zé Pedro que saudei com alegria. Parece que regressou aqui à Boavista, garantia de qualidade e confiança. Logo ali me entregou a carta de condução por que aguardava há meses. Um vizinho cavaqueava alegremente com o «nosso carteiro». As rotações de pessoal, comuns nas grandes companhias, são muitas vezes contraproducentes, uma vez que se perde o contacto com a pessoa com quem estamos familiarizados e a quem conhecemos e respeitamos as qualidades de trabalho.

 

Deviam os gestores saber que «as empresas são as pessoas» é muito mais que um chavão de Recursos Humanos, são elas a imaginem de integridade e competência da própria empresa. Por isso, bem-vindo de volta Sr. Zé Pedro, obrigado CTT. 

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Inapto.

por Fernando Lopes, 5 Ago 14

Numa conversa recente dei comigo numa confissão capaz de embaraçar qualquer homem que viva neste século.  Em relação às lides domésticas, tarefas do dia-a-dia e afins, não evoluí nada em relação ao avô. Se a minha mulher me deixasse, seria incapaz de conseguir quem decidisse partilhar vida comigo. Fui educado num ambiente tradicional e machista, em que a avó dizia com solenidade: Não quero ver homens na cozinha. 

 

Era uma provedora por educação e personalidade de modo que me casei sem ser sequer capaz de estrelar um ovo, fazer uma cama, lavar uma peça de roupa ou loiça. Após o casamento, a minha mulher, então com 21 anos, compatibilizou a faculdade com o papel de mãe de família, prosseguindo a tradição da avó. Estou tão habituado a que tomem conta de mim, que cuidem por mim das pequenas coisas, que não sei rigorosamente nada de nenhuma tarefa doméstica.

 

Hoje em dia os papéis de género mudaram substancialmente, praticamente todos os meus amigos sabem cozinhar, desenrascam-se com desenvoltura num supermercado, têm elevada capacidade de colaboração e autonomia. Não eu. Sou péssimo na domesticidade e um desastre como bricoleur. A única coisa em que sou bom é nas tarefas parentais. Empurrei a parteira para mudar a primeira fralda, entendi-me com biberões e banhos de água tépida, sempre tive independência quase absoluta em tudo o que fosse relacionado com a minha filha. Ainda hoje somos os melhores «companheiros no crime».

 

Admiti pungentemente que necessitaria de uma «mulher que tomasse conta de mim», coisa tão rara de encontrar nos dias de hoje como piolho em careca. A constatação desta enorme fraqueza fez-me ver que provavelmente terei de percorrer um caminho difícil de adaptação ao presente, partilhando as tarefas do lar, aprendendo. Resta-me a felicidade de ter algum tempo para o fazer; a T. raramente lê o blogue, posso sempre tentar surpreendê-la com um arroz à lá Bimby. Eu, homem das cavernas, publicamente me penitencio.

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Imprensa económica.

por Fernando Lopes, 4 Ago 14

 A «imprensa económica», e aqui existem nomes, «Diário Económico» e «Jornal de Negócios», foram e são ainda dos maiores apoiantes da política austeritária levada a cabo por um governo eleito na base da demagogia e mentira. O que nos trouxe até este beco sem saída não foi exclusivamente a política keynesiana de Sócrates, mas quarenta anos de destruição sistemática da agricultura, pescas e indústria portuguesa, o crer que seríamos um país de serviços, quando não temos I&D que nos permita ambicionar tal. O coveiro-mor de Portugal assenta formoso nalguedo na Presidência da República, os jornais económicos papagueiam o spin governamental com uma ou noutra honrosa excepção – Pedro Santos Guerreiro e Nicolau Santos são dos poucos que recordo terem pensamento próprio. No caso BES-GES limitaram-se a fazer eco das atoardas governamentais e mensagens tranquilizadoras do BdP, sem uma linha de análise própria, independente, como seria de esperar de «imprensa especializada». O entusiasmo com que acolheram Passos e a troika levou-os a ficarem aprisionados no seu próprio labirinto económico-ideológico. Os leitores – que se assume serem homens de negócios, alinhados com a política governamental – e a dependência das receitas publicitárias fizeram o resto. Não existe contraponto às medidas que nos arrastaram para esta crise, criou-se o sentimento de inevitabilidade. Para tentar entender a crise no BES comprei imprensa económica, li e reli, tentei compreender, só me deparei com univocidade. Confrangedor que no momento histórico que vivemos não haja um jornal especializado a pensar «fora da caixa», com coragem para enfrentar lobbies. No fundo tudo o que podemos esperar é unicamente uma versão urbana e polida do inefável Camilo Lourenço. Entende-se pois, que a sua missão é vender jornais, manter anunciantes e não desagradar aos apaniguados da maioria, em vez que ajudar a criar cidadãos críticos e informados. 

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Mensagem na parede.

por Fernando Lopes, 3 Ago 14

(Travessa de Cedofeita, Porto)

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Falar demais.

por Fernando Lopes, 2 Ago 14

Em conversa com as minhas compinchas fui demasiado duro em relação a um conhecido comum por quem nutro respeito intelectual e simpatia pessoal. Sei como são os homens, conheço demasiados que padecem de uma auto-estima inesgotável como é o caso. Não gostei do que disse, soou a má-língua, despeito ou inveja. Curioso é que um homem de cinquenta anos não se consiga colocar filtros, verbalize algo que deveria ser apenas pensamento. Ser como os malucos, dizer tudo o que se pensa, gera estas inconveniências. A ver se aprendo a ficar calado.

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