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O direito a não gostar de alguém.

por Fernando Lopes, 17 Dez 16

Sou um homem de pessoas, quem me conhece sabe que rapidamente estabeleço empatias, cumplicidades, sem que isso signifique algum interesse esconso. É o meu jeito. Num mundo em que os afectos são tão efémeros quanto os interesses, convencionou-se que temos de gostar todos de todos, como se o planeta fosse uma infindável fraternidade. Não é. Tem mais traição, ódio, intriga, que lealdade, amor, frontalidade. Na escola, no trabalho, nas relações sociais não afectivas – e daqui excluo esse meu porto de abrigo que é a amizade – todos esperam que gostemos de todos. Perdoem-me, mas existe gente de que gosto de não gostar. Em alguns casos tenho boas razões para isso.

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Pôr açúcar em tudo.

por Fernando Lopes, 15 Dez 16

Qualquer celebração em Portugal tem forçosamente de incluir comida. O Natal não é excepção. A avó era modista dos Riba D’Ave, uma família nobre que habitava o local mais chique desta cidade, a Marechal Gomes da Costa. Era gente de respeito, dinheiro velho, tratavam-nos com cortesia. Apenas 4 ou 5 anos, pela mão da já então velha senhora, abriam-se-me as portas não da vida dos remediados de classe-média a que estava habituado, mas das pinturas dos familiares em pose, candelabros do melhor cristal, enormes espelhos rodeados de uma espécie de talha dourada, salões, criadas de quarto e de sala rigorosamente fardadas. Entrar ali, tão tenra idade, era o equivalente a uma viagem a um planeta brilhante e desconhecido.

 

Uma vez, ainda antes de entrar para a primária, pediram-nos para esperar numa sala lateral à grande sala de jantar, a que então chamavam saleta. Era onde eram recebidos os assim-assim a que pertencíamos, não por onde entravam serviçais e criadagem, nem os ilustres visitantes de tão nobre família. Uma espécie de purgatório, mas em sala.

 

A sra. que tinha um título nobiliárquico qualquer pediu-nos para aguardar um pouco, era época de Natal e estava a supervisionar a feitura dos doces. Chegou-se-nos com uma frase que nunca esqueci:

 

- Desculpem, estava a dar umas ordens na cozinha. Pelo menos o Natal dos pobres é simples, basta pôr açúcar em tudo. Fritam pão e açúcar; rabanadas, farinha com açúcar são sonhos, canela no arroz e está feito o arroz-doce, faz-se massa com açúcar e chama-se-lhe aletria.

 

Verdade que nesta época muita da nossa doçaria tradicional de cariz mais popular mais não é que pegar em alimentos convencionais e adoçá-los. É uma herança de país pobre que fomos, somos, e a que atavicamente continuamos agarrados.

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Rituais ecológicos de purificação.

por Fernando Lopes, 14 Dez 16

Diálogo hoje com a senhora da limpeza da empresa:

 

- Tenho um certo medo de ser enterrado, se calhar vou comprar um jazigo.

 

- Eu cá, quando morrer, quero ser carbonizada.

               

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Sentir-se jovem.

por Fernando Lopes, 9 Dez 16

Procuro treinar no ginásio três vezes por semana. Por conveniência e por haver menos povo costumo ir das 20:00 às 21:30. Hoje fiz ponte, e fui treinar de manhã. Que maravilha, senti-me jovem e atlético. À hora de jantar a população é predominantemente masculina, composta sobretudo por jovens «ratos de ginásio», que levantam 70 quilos como eu 20. Hoje, quando entrei, devia ser dos mais novos, o people era predominantemente «cabeça branca» enquanto me incluo na grisalha. Fiz a minha ceninha, apanhei alguns olhares gulosos de sexagenárias. É uma pena não poder ir mais vezes neste horário, a mudança de ser o cota para passar a ser o puto é muito boa para este fraco ego.

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Até que a teta da vaca seque.

por Fernando Lopes, 8 Dez 16

vaimaisum.jpgRua de Passos Manuel, Porto

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Um oceano de supermercados.

por Fernando Lopes, 7 Dez 16

Antigo como sou, recordo-me da única cadeia de supermercados da cidade, «Invictus». Na infância a maioria das compras eram feitas na mercearia mais próxima. Quando a solenidade da ocasião assim o exigia, ia pela mão da avó às mercearias finas do Bonjardim. Embora muito desse comércio tradicional se tenha modernizado, transformado em gourmet, agora pelo Natal irei comprar queijo da serra e frutos secos a um dos estabelecimentos tradicionais sobreviventes. O cúmulo da finesse era ir ao «Augusto» da Foz, que ainda hoje existe. Esse foi o pioneiro do comércio de produtos alimentares premium, só se frequentava para compras muito especiais. Vem-me isto à cabeça porque deparei com a inauguração de dois «Continente» quase em simultâneo. Esgotado o modelo dos hipermercados, criam-se áreas mais pequenas em cada canto e esquina. Não sei se existirão clientes para tanta comida, mas havemos de arrotar só da visão de tanta loja alimentar.

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Mais de tasca que de salão.

por Fernando Lopes, 3 Dez 16

Aprecio os tipos delicados, calmos, elegantes. São tudo o que não sou. Ainda hoje, num almoço de amigos, brindei-os com a minha excessividade, a voz grossa, o vernáculo, o meu jeito especial de fazer de qualquer taberna a minha casa. Ocasionalmente sujeito a ambientes elegantes, consigo comportar-me discretamente, com a sobriedade mínima para não destoar demasiado. Mas sou demasiado exuberante, apalhaçado, bruto. A tasca é o meu meio, a conversa, aquilo que gosto verdadeiramente. Digo isto com um sorriso, porque ainda hoje tiveram de colocar ponto final na troca de galhardetes com o dono do restaurante. Não fora isso, ainda lá estava, a comer petinga, beber vinho verde branco, ferrar broa com chouriço. Sou, definitivamente, um tipo de tasca, não de salão.

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Elegância em tamanho grande.

por Fernando Lopes, 1 Dez 16

exuberancia.jpgMas que belo nome, porra.

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Vão-se foder, fedelhos mal-educados.

por Fernando Lopes, 1 Dez 16

Sou de esquerda, ateu, republicano. Mas os meus pais e avós ensinaram-me respeito pelos outros. Queira-se ou não, o rei de Espanha é uma figura que representa uma parte da sociedade espanhola. O país vizinho vive numa monarquia constitucional, tem instituições democráticas a funcionar. Ninguém os obrigava a aplaudir – também eu o não faria – permanecer sentado é o equivalente a uma pirraça ideológica. O PCP foi coerente e respeitador. Há muito que perdi a paciência para os infantilismos do Bloco, desde que Louçã, não o esqueço, abriu a porta a quatro anos de governo de direita. Portuguesmente, vão-se foder, fedelhos mal-educados.

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Bem-Feita.

por Fernando Lopes, 29 Nov 16

Sou pai, adoro sê-lo, a minha cria é uma espécie de farol que me ilumina sempre, mesmo quando o nevoeiro tudo torna difuso. Tenho apenas um irmão, e este lidar com o desenvolvimento no feminino é novo para mim. Começa a miúda a esgadanhar a adolescência, eu a transformar-me num pai preocupado. Consigo lidar com isso. Tal não me impede de recordar deliciosas estórias de infância de uma ingenuidade que, lentamente, desparecerá.

 

Quando andava no infantário a Matilde era muito amiga do Afonso, mas pegavam-se por tudo e por nada. Uma espécie de cão e gato, que primeiro se chateavam para logo a seguir fazerem as pazes.

 

- Pai, tropecei, caí e chorei.

 

- Não faz mal.

 

- Faz, faz, o Afonso riu-se e chamou-me bem-feita. Eu não quero ser bem-feita.

 

- Isso dizes agora, estou certo que daqui a uns anos mudarás de opinião.

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