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A «Caxa».

por Fernando Lopes, 24 Jul 14

8:20. Enquanto me desloco de carro, ligo o rádio. Um homem de voz timbrada explica as maravilhas de abrir conta na «Caxa». Cartões de crédito grátis, isenção de comissão de descoberto e outras alegrias do mundo do consumo. Querida «Caxa» como é que podemos iniciar uma relação comercial se ainda estamos nos preliminares e já me roubaste o «i»?

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O menino foi ao cabeleireiro.

por Fernando Lopes, 23 Jul 14

Como sabem os meus queridos leitores, fui criado com os avós. Passava no entanto os fins-de-semana em casa dos pais, que à época moravam na Rua da Constituição. O tempo era gasto a assistir aos treinos das camadas jovens do F.C. do Porto no velho campo, lambuzavando-me com os pastéis da «Primazia», a família jantava ocasionalmente no «Chamiço». Uma vida pequeno-burguesa, sem glória ou sobressalto. Na rua ainda hoje existe um barbeiro que naquele tempo seria o que pode designar de requinte médio-superior. Um local onde se falava única e exclusivamente de bola. Ainda hoje lá está, quase intocado, com uma placa luminosa - «Salão Elfma – Cabeleireiro de Homens». Nesse tempo os pais tinham uma empregada interna. Um amigo de juventude, o Daniel, liga para casa com o intuito de acordar onde seria a farra daquele sábado.

- O menino Zézinho não está, foi ao cabeleireiro, responde a solícita rapariga.

Com 16 ou 17 anos fui gozado durante meses, questionado sobre o que fazia num «cabeleireiro», que outro eu era o menino Zézinho. Numa caminhada, passei por lá recentemente e recordei-me desta velha estória e de como as gaffes e locais nos marcam, muito para lá do tempo.

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Fumar.

por Fernando Lopes, 21 Jul 14

Harry acendeu o cigarro, inalou profundamente o fumo e tentou imaginar os vasos sanguíneos da parede dos pulmões a absorverem ávidos a nicotina. A vida estava a tornar-se mais curta e a ideia de que nunca iria deixar de fumar enchia-o de uma estranha satisfação. Ignorar os avisos dos maços de tabaco podia não ser o acto mais extravagante de rebelião que um homem podia ter, mas pelo menos podia dar-se a esse luxo.

 

Jo Nesbø, «O Pássaro de Peito Vermelho»

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Armadilha do tempo.

por Fernando Lopes, 19 Jul 14

Uma deusa. Tudo o que sonhaste numa mulher está ali, mesmo à tua frente. Tal como as divindades, permanece intocável, num qualquer patamar inacessível. Observas a distância segura e tudo te encanta; elegância, simplicidade, inteligência, o modo doce. Depois realizas que caíste na armadilha do tempo, que aquela mulher é uma miragem, uma sombra no teu deserto, aconchego no frio glacial. Fora do tempo, fora de tudo, seríamos uma dupla perfeita, yin e yang. Encolhes os ombros e caminhas com a dignidade possível. Não há um tempo, só há o tempo e não é o teu. 

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Fonte: observador.pt

Nunca fui grande leitor de comics. A minha geração lia os sempiternos Tintin, Astérix, Lucky Luke, Spirou, a produção europeia em geral e franco-belga em particular. Comprávamos a revista Tintin que trazia histórias em continuação. Os fascículos eram depois encadernados em volumes de vinte seis e colecionavam-se álbuns, versão mais cara com a aventura completa. Olhando para a estante à minha frente localizo três volumes do Tintin, o Jornal do Cuto, Flecha 2000 e Jacaré, tudo encadernado como mandavam as leis da época. Os comics americanos eram importados do Brasil, numas revistas coloridas, pequeninas. Foram essas edições que, em Portugal, divulgaram heróis como Super-Homem, Hulk, Homem-Aranha, Thor, O Demolidor, Surfista Prateado e muitos outros que se tornaram familiares das massas através de produções cinematográficas nas últimas décadas.

 

A América e a sua obsessão pelo «politicamente correcto», invadem-nos por todo o lado, numa fúria regulatória sem fim à vista. Comer gorduras, fumar, beber bebidas alcoólicas ou dar uma palmada no rabo de uma criança birrenta, transformaram-se em crime de lesa-pátria. Todos formatados, todos iguais, com os mesmos valores e hábitos, numa sociedade cada vez mais orwelliana.

 

Esta paranóia chegou agora do mundo da BD americana. Leio que Thor vai ser mulher e o Capitão América preto, ou melhor, afro-americano. Sempre respeitei as mulheres, nunca fui racista. Aliás, acho mais sexista usar «pessoa do sexo feminino» que mulher ou «negro» em vez de preto. Os eufemismos não passam disso mesmo, formas de suavizar a língua, tornando-a asséptica. Nunca nenhuma mulher ou preto se zangaram comigo por os ter definido assim. Um mundo às avessas em que o pensamento único se insinua até no mundo da banda desenhada. 

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À minha volta.

por Fernando Lopes, 18 Jul 14

Surpreendem-me as famílias felizes, funcionais e organizadas, o carteiro equipado à verão e as suas bermudas cinzentas, a tipa que vocifera para o namorado no meio do café, o idoso de rabo-de-cavalo, a cinquentona de vestido curto e justo a exibir dobras de banha, o artista que pinta no meio do chão, a peixeira, a mulher que vende fruta na saída do metro, a brasileira que distribui o jornal gratuito, os preços da loja de luxo, o tipo no carro ao lado a meter o dedo no nariz, os bêbados à porta da tasca, as putas velhas, as viúvas e o seu lanche na confeitaria.

 

Tudo à minha volta é motivo de admiração, pasmo, encantamento. Imagino-me um peixe num aquário em que os humanos são o único fundamento de observação. Queria ser indiferente, não olhar, não ser tocado por quem nunca mais verei. Calhou-me em sorte esta triste sina de gostar de pessoas.

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Zézinho vai aos saldos.

por Fernando Lopes, 17 Jul 14

O título da posta não é totalmente inocente. Apesar de José ser o meu segundo nome, Zézinho é também nome carinhoso que se dá ao órgão sexual masculino. Neste caso dois Zés vão aos saldos, o propriamente dito e o seu inseparável companheirozinho – por este lado assistiram-se a alguns porno, e depois de John Holmes perdeu-se a mania das grandezas. Ora, como todo o velho macho, detesto ir às compras, só o faço em caso de absoluta necessidade. 

 

A tarde vai ser dedicada ao calçado. De sapatos estou pior que um pobre, por aí se vai concentrar a demanda. Pela primeira vez na minha vida, umas botas Timberland deixaram-me ficar mal e rebentaram. Como sou arraçado de madeireiro, há duas peças que nunca dispenso no meu trajar informal (fashionistas, sei que se diz casual wear, mas só uso palavras inglesas quando exprimem algo não exactamente traduzível em português), as botas de montanha e as Levi’s 501.

 

As botas serão, para variar, um qualquer modelo Timberland, eventualmente as que estiverem mais em conta. Como sou um tipo de paradoxos, custa-me muito mais comprar o «sapatinho social», parte da fantasia que me obrigam a levar para o local de trabalho. Confesso que aceito com alguma bonomia pagar mais de 100€ por uma botas ou jeans, torço-me todo se gastar idêntica quantia num fato ou sapatos. Assim, critério rigoroso nas botifarras, sapatos pode ser qualquer coisinha, quanto mais barato melhor.

 

Coragem – digo para comigo. Quão mau pode ser um dia de saldos?

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«É criminoso subir o salário mínimo».

por Fernando Lopes, 16 Jul 14

Tenho para mim que João César da Neves está para os economistas como Ulrich para a banca ou Camilo Lourenço para os jornalistas económicos, a necessidade de aparecer e polemizar é tanta que o esfíncter ligado ao cérebro se descontrola e por ali saí qualquer caca. Desta vez o abominável César das Neves perora sobre o drama que seria para as empresas mais frágeis o aumento desta «garantia mínima» de dignidade. Quinhentos euros não são garantia mínima de coisa nenhuma, pode ser-se trabalhador e paupérrimo se se auferir o salário mínimo. Por outro lado, uma empresa que desequilibra a tesouraria com um aumento da magnitude prevista, tal como os dinossauros, há muito deveria estar extinta.

 

O argumento económico é falso, a Alemanha institui recentemente um salário mínimo para evitar a desregulação do mercado laboral e a «chinezificação». O modelo económico que César da Neves defende é caduco, destinado a ser competitivo pelos baixos salários. Não sabe JCN que a China com os seus 146€ de remuneração mínima é já ela um país caro, tendendo as multinacionais a deslocar-se para o Bangladesh, Vietname ou outros.

 

Enternece-me o seu conhecimento e preocupação com a pobreza, num vídeo capaz de figurar com facilidade no Top Ten dos mais idiotas do ano. 

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Dilma, a ressaca.

por Fernando Lopes, 14 Jul 14

Anterior episódio da saga Dilma, aqui.

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A cidade e as tascas.

por Fernando Lopes, 12 Jul 14

Caminhada de fim de tarde. Como sempre, regresso à Cedofeita da minha infância. A feira da ladra está a terminar, os improvisados comerciantes arrumam mercadoria em utilitários convertidos em carrinhas de ciganos onde tudo se amanha. Meto pela travessa e noto dois novos bares abertos. É a velha sina portuguesa, se alguém abre negócio de sucesso logo se multiplicam por cem as réplicas como se de sismo se tratasse. Os novos comerciantes, incapazes de ideia original, transformam buraco esconso em tasca de tapas, bar rústico, gourmet, artístico ou alternativo. A este ritmo rapidamente alcançaremos o maior rácio de tabernas por habitante do continente europeu. Quando a cidade passar de moda restará aos portuenses a ressaca, passear de bodega em bodega, beber até cair a preços módicos.

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  • Fernando Lopes

    Sou muito sensível quando se trata de transformar ...

  • Ana A.

    Ora, Fernando não seja purista, (carago)!

  • Efeminúsculo

    As pessoas pensam que é "bem" falar assim. E será!...

  • Fernando Lopes

    Incomoda-me um pouco que o sotaque de uma suposta ...

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