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Pudesse Eu Contar as Vezes

por Fernando Lopes, 1 Abr 15

Pudesse eu contar as vezes que ferrei os cantos da boca imaginando que eram teus os dentes que assim me amavam; que eram os teus lábios aqueles que, nessas ocasiões, eu mordia. Lembras-te de uma frase que costumavas citar, por tê-la escutado em qualquer parte, ou lido, já não sei bem? Aquela que dizia
- A minha anatomia enlouqueceu; sou toda coração.
Pois é como me tenho sentido, mais ou menos assim, com a anatomia enlouquecida, sem saber já quais são os meus dentes ou qual a minha boca; como se cada pedaço meu não fosse mais do que saudade de ti: o desejo de te voltar a ver, de te cobrir outra vez de beijos - olhos, boca, rosto, o corpo todo de beijos -, de te abraçar e sentir o teu cheiro, de tomar nas mãos o ramo crespo dos teus cabelos e inalar a fragrância do teu pescoço. Possuo agora, em mim apenas, nos limites da minha topografia, toda a exaltação dos nossos corpos e sinto que não chego para tanto porque a soma de nós dois excedeu sempre a existência física dos nossos corpos. É como se rebentasse por dentro e tivesse de esticar a alma - ou lá o que é - para me ser possível reter ao menos um pouco do que daí sobrou.

 

MANUEL JORGE MARMELO, «O AMOR É PARA OS PARVOS»

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Um povo que põe a intimidade à janela.

por Fernando Lopes, 30 Mar 15

roupa_a_janela.jpgPijama, camisa de noite e a bela da cueca de gola alta. O país onde se põe a intimidade à janela.

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Fazer as pazes com o tempo.

por Fernando Lopes, 29 Mar 15

salvador-dali-1024x853.jpgFragmento de «A Persistência da Memória» de Salvador Dali

 

Envelhecer é processo lento e doloroso. Não sei se desejava permanecer eternamente jovem ou se deva conformar-me com a degradação, a marcha imparável dos dias, meses, anos, que se acumulam e atropelam, fazendo o melting  pot a que chamamos experiência.

 

De algo tenho razoável certeza; permanecemos mais ao menos os mesmos passe o tempo que passar, e colocamos o que vivemos em perspectiva, atribuindo às glórias e fracassos o verdadeiro valor que têm: muito pouco.

 

Chegar à meia-idade é isto, saber-se que existe sempre estrada pela frente e que se já não a podemos abordar a passo de corrida, caminhar acelerado nos conduzirá com a mesma eficácia. É fazer as pazes com o tempo, aceitá-lo, não com conformismo mas como um companheiro de percurso omnipresente. Não confrontá-lo, resistir-lhe ou ignorá-lo, apenas ter consciência da sua presença. Saber que há um tempo, o nosso, que um dia parará, e viver com isso sem que tal confrangimento nos faça parar de viver.

 

(*) Post com origem numa pequena conversa com a Carla.

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Pertença.

por Fernando Lopes, 28 Mar 15

Em conversa com a minha querida amiga Xana, alma mater deste blogue, falava sobre Cedofeita. Lamentava-se ela de não ter este sentido de pertença a um lugar. Como quando fazemos amor com uma mulher, unimo-nos pelo corpo e por momentos as almas confundem-se e passam a uma, assim é a minha relação com esta zona da minha cidade.

 

Sou a Farmácia Sampaio, alfarrabista Candelabro, tabacaria Princesinha, sou o café Bissau que agora mudou de nome, recordo com saudade o velho guarda soleiro da esquina com a Rua do Mirante, sou as mercearias, tascas e cafés, sapatarias e lojas de pronto-a-vestir. Sou a velha cerzideira, as lojas de botões e acessórios de costura. Sou também as gentes, bêbado fedorento, músico de rua, burguês barrigudo, matrona às compras, puto ranhoso, prostituta barata, dono de bar. Amo-os, porque eu sou eles, eles são eu.

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Carrossel.

por Fernando Lopes, 26 Mar 15

tunnel_of love.jpgImagem:behance.net

 

Nada para lamentar, pouco que entristeça, algumas cicatrizes para sempre marcadas que como para um guerreiro, são motivos de orgulho não de ocultação. Não estou certo que um amor termine quando outro começa, talvez seja um carrossel em que rodamos entontecidos sem que nunca cheguemos verdadeiramente a parar. Quando te pões a reflectir sobre o que foi a tua vida afectiva, sabes que todos os grandes amores te marcaram um pouco, te entonteceram mais ainda, que de alguma forma giram continuamente no teu pequeno mundo. O amor de ontem, o de hoje, o de amanhã. Giras, giras e voltas a girar. A memória prega-te truques, torna próximo o distante, brilha aqui, apaga ali. Ensinou-me a experiência uma coisa; se não és capaz de valorizar as paixões que tiveste, as que tens e virás a ter, é porque delas não foste merecedor. Estás vivo, nunca deixes o carrossel parar.  

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Falso, qual quê?

por Fernando Lopes, 25 Mar 15

Anda esta taberna com escassa vontade de tratar temas sérios, o dia-a-dia já é pesado e tristonho quanto baste. Regressam à memória episódios pitorescos que por razão nenhuma me apetece partilhar.

 

Na lua-de-mel, há quase vinte e três anos, fui parar ao Brasil. Andei pelos locais turísticos, passeei brevemente por uma favela, banhei-me em Angra e Búzios, fui à feira nos subúrbios, um local ermo que se chamava Duque de Caxias. 

 

Numa das múltiplas feiras um vendedor aliciava os clientes com roupa de uma única marca de prestígio.

 

- Quanto custam essas t-shirts e camisas?

 

- O vendedor deu um preço que andaria à volta dos dez dólares a peça.

 

- E achas que vou pagar dez dólares por roupa falsificada?

 

- Fausificada, quau quê? Ais péça foi róbada onte à noite de um caminhão.

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Trinca com nome italiano.

por Fernando Lopes, 24 Mar 15

risotto.jpg

 

Sabem os meus queridos leitores da minha simplicidade no que à gastronomia concerne, e não só. Pouco dado à novidade, prefiro sempre um bom restaurante tradicional à sofisticação gourmet. Incapacidade do meu palato que prefere umas sardinhas com pimentos à orientalidade do sushi e por aí fora. Nunca entendi a febre à volta do extinto El Bulli pois não deixei de fazer um esgar quando vi num dos menus «orelhas de coelho crocantes». Bragggghhh.

 

Anda muito em voga o risotto. Um arroz supostamente diferente, proveniente de uma localização especial (Arborio) com propriedades e textura particulares. Experimentei-o e confesso que o sabor não me cativou e o aspecto me fez recordar a trinca que a avó fazia para os cães lá de casa. Mas como sabem sou um parolo, incapaz de dar valor a estas subtilezas.

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Natural born shopper.

por Fernando Lopes, 23 Mar 15

Eu, num centro comercial ao domingo. Improvável mas possível. Culpada, a minha filha. Herdou do tio a capacidade de pedir algo umas 10.000 vezes ininterruptamente; ou cedes ou ficas louco. Que queria comprar os presentes de aniversário da mãe, que lhe tinha prometido, que estava de passeio à capital durante a semana. Dez anos, um metro e trinta e poucos, vinte e oito quilos de gente. Vence-me sempre.

 

Como já não frequentava um centro comercial há largos meses, aprecio-lhe a desenvoltura. Controla as luzes verdes dos lugares de parqueamento vagos. Lá dentro a surpresa continua. É melhor irmos primeiro à Parfois que fica mais perto, diz-se Parfuá porque é francês, depois vamos à loja dos perfumes, é já ali, seguimos para a electrónica que é ao lado de não sei quê. Orienta-se muito melhor que eu, e no entretanto dá conselhos: na Primark as coisas não são muito boas, mas como quero só uns chinelos de praia, é melhor ir lá porque é tudo baratinho. E eu arrastado a dizer que sim. Chegada à joalharia/bijuteria não encontra o que viu na net. Menina, pode ver na internet? Está em acessórios. Conduz a lojista pelo site até encontrar exactamente o que pretende. Sacos na mão leva-me de volta ao parque.

 

Dêem-lhe um cartão de crédito e não a distinguirão das shopperólicas. É só mais pequenina e magrinha.

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Danos colaterais.

por Fernando Lopes, 22 Mar 15

Existe muita conversa sobre os jovens que emigraram, o potencial de renovação perdido, o investimento português em formação de que outros países irão usufruir. Ver a juventude sair para não mais voltar é um drama pessoal e nacional que entendo bem. Tenho amigos que se espalharam pela Inglaterra, Holanda, Angola, Estados Unidos, até Austrália.

 

Mas e os que ficaram? Os que são simultaneamente demasiado velhos para partir, novos para se reformarem? Os que simplesmente já viviam de modo tão precário que nem dinheiro para tentar a aventura tinham? Ocorre-se-me esta prosa porque ontem encontrei uma colega de liceu. Perto dos 50, sem qualificações especiais, encontra-se desempregada há três anos, está no fim do subsídio de desemprego. Foi-lhe detectada uma doença reumática que não lhe dá invalidez e ao mesmo tempo a impede de trabalhar. Que futuro?

 

Há um vazio de preocupação social com a geração entre os 45 e 55 que se vê na situação de desemprego. Foram alvo de despedimentos colectivos, empresas mal geridas que faliram, da concorrência desenfreada que se estabeleceu no mercado de trabalho em que «young is beautiful», dos estágios profissionalizantes pagos pelo governo que basicamente servem para ter os mais novos a trabalhar por tuta e meia enquanto mostram aos trabalhadores mais velhos que há quem faça por menos.

 

Milhares de pessoas de meia-idade estão nesta situação. Regressam envergonhados a casa dos pais já idosos, caminham encostados às paredes, uma invisibilidade feita de vergonha. Esta crise transformou muitas destas pessoas num problema social que ninguém vê e de que não se fala. Socialmente ignorados, uma inexistência para as preocupações e programas governamentais, são apenas danos colaterais de uma crise que por muito que anunciem a luz ao fundo do túnel, parece não ter fim. Quem cuida, quem se preocupa com eles?

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Watch me date.

por Fernando Lopes, 20 Mar 15

Cada semana escolhemos duas pessoas diferentes, damos-lhe um par de Google Glasses e organizamos um encontro romântico (habitualmente há muito álcool a rolar). A filmagem começa minutos depois de se terem conhecido, e o botão de off só é desligado após se terem despedido. O resultado? Está ali com eles, nestes estranhos, frequentemente divertidos e às vezes românticos primeiros encontros.

 

 

Não sei exactamente o que pensar sobre isto. Enternece e repugna ao mesmo tempo. Que tipo de pessoa está desesperada ao ponto de aceitar um encontro pré-organizado, saber que está a filmar e ser filmada e seguir em frente? Necessidade de protagonismo? Busca desesperada para encontrar o amor? Seria eu capaz disto? Tu eras?

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