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Manual de engate.

por Fernando Lopes, 26 Ago 14

Se estás entre os 40 e 50, between girls, a tua mulher te deu com os pés, saíste de casa para comprar cigarros em 2003 e ainda não voltaste, ou simplesmente, não tens sorte ao amor, compilei alguns sábios conselhos que te poderão ajudar a encontrar a mulher dos teus sonhos.

 

 - Depila-te. Estranhamente, no meu tempo só se gostava dos frangos sem pêlo, eram até passados por álcool para queimar a penugem. Hoje em dia os homens são como os frangos totalmente depilados – até no pinto – e com uma barba de dois dias. Pode parecer estranho tirar pilosidades num lado e deixá-las crescer noutro. Habitua-te, é moda.

 - Vai ao ginásio. És do tempo em que bastava um palminho de cara e dois dedos de testa? Hoje tens de ter os abdominais do Cristiano Ronaldo, mesmo que nunca pretendas lançar a tua linha de cuecas. Toma injecções de testosterona, malha duas horas de manhã e duas de tarde, come só saladas. Se não tiveres o corpo perfeito não vais lá.
 
- Aprende a cozinhar. Contentas-te com um bife ao almoço e fazes uma sanduiche de atum quando chegas a casa? Nunca mais vais dar uma queca. No tempo que corre é afrodisíaco saber cozinhar. Nunca digas que fizeste molho, é uma redução, usa ervas estranhas como poejo e rúcula e mantêm presente que a comida pode estar um lixo, mas se usares nomes sofisticados e ingrediente que ninguém conhece, e «empratares» - esse novo verbo - com arte, nenhuma rapariga vai querer fazer figura de patega e achará os teus manjares divinais.

- Diz a maior barbaridade com o ar mais convicto, resulta sempre. Podes não saber do que estás a falar, mas se o disseres com convicção é como o código postal, meio caminho andado. A garina é doutorada em física-quântica? Diz-lhe que te interessas por tudo o igual ou menor que um constituinte básico da matéria. Exprime a tua admiração por Planck e estás safo. Funciona também no trabalho, há quem faça carreiras brilhantes a dizer barbaridades com ar seguro.

- Mostra-te sensível. Só choras quando o Benfica perde? Exige-se uma mudança de atitude. Adorarás o gato horroroso que ela tem em casa, «é quase humano», confessa que não consegues ver o Bambi sem chorar, fala no minimalismo de Mondrian e Kandinsky, confidencia que verteste copiosas lágrimas quando assististe a «As Palavras Que Nunca te Direi».

- Preocupa-te com uma coisa chamada Life & Style. Antigamente não existiam revistas a indicar-te quais os lugares da moda, os bons hotéis, os restaurantes onde deves comer. A Time-Out mudou isso tudo. Hoje, um papalvo precisa que lhe digam o que ler, ver, ouvir, os locais a frequentar. Nunca entendi em pleno o conceito Life & Style, mas acho que essencialmente é: vai aos bares da moda que especialistas aconselham, usa o perfume que eles dizem, vai papar onde possas ver e ser visto, frequenta as exposições que eles acham boas.  Se disseres que preferes o Eça ao Peixoto ou as chamuças do Café Pereira à tosta de cavala com pesto, estás perdido.

 

Vai, meu filho, e segue estes conselhos que eu vou fazer tudo precisamente ao contrário. Assim como assim já cheguei a uma idade em elas só vêem em mim um amigo.

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Passeio de Domingo.

por Fernando Lopes, 25 Ago 14

(varanda junto ao metro da Trindade)

(eléctrico a banhos de sol na Batalha)

 

Nota posterior à publicação: Amo esta cidade, por isso sou particularmente crítico em relação às suas gentes, bairrismo exacerbado, governantes. Para transmitir este amor à minha única descendente achei que era boa ideia fazermos «safaris fotográficos». Temos fotografado o belo e o menos belo, alegre e triste, rico e pobre, sempre com olhar atento e apaixonado.

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A Nova Cruzada.

por Fernando Lopes, 24 Ago 14

Anda pelo mundo um novo espírito de cruzada. Nas velhas cruzadas, ao abrigo da expansão da fé, cometeram-se atrocidades infindas. É a guerra, dirão os cínicos. O objectivo último das cruzadas era a pilhagem, a submissão pela força, uma guerra santa com muitos pontos comuns com a Jihad. Os fundamentalistas islâmicos foram peões numa guerra travada, de facto, entre os EUA e a URSS. Quem tenha memória recordar-se-á que Bill Clinton apelidou os talibãs de «combatentes da liberdade». Viu, num exercício de má propaganda, Rambo lutar do lado dos afegãos bons. Os Estados Unidos, Rússia e Europa estão agora a lidar com o monstro que alimentaram durante décadas. Libertou-se, ganhou vontade própria, ambição a controlar ideológica e politicamente o mundo, ou uma parte dele. Através do petróleo, claro. Esta fronda ocidental não se destina a salvaguardar a existência de minorias, a patrocinar governos democráticos. A ISIS, essa encarnação do mal quer controlar uma parte substancial das reservas energéticas do planeta. Uma das ditaduras mais ferozes, uma sociedade medieval como a Arábia Saudita é apoiada incondicionalmente pelos Estados Unidos. Onde pára a democracia? Ao contrário do que querem fazer os bons espíritos ocidentais esta é uma guerra pelo controlo do petróleo, ainda e sempre o bom, velho, petróleo. Estando o ocidente salvaguardado nos seus interesses, o sangue, morte, fome, ditadura, não serão mais que inconveniências históricas. Matem os jihadistas, destruam o pouco que resta, mas não me atirem poeira para os olhos com a defesa de interesses humanitários. 

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Contra os optimistas.

por Fernando Lopes, 24 Ago 14

Chamam destino ao rifão do acaso

e chamam à fraude boa fortuna.

Crêem no Batman e na Virgem Maria.

Duvidam do frio, não da polícia

e nunca dão crédito àquilo que vêem.

 

Reservam a tempo um lugar na geral,

põem o pé entre duas ciladas

e ficam a rir-se nas fotografias.

Sujam a roupa tal como nós, mas

mandam-na sempre a lavandarias

que sabem tratar dos casos difíceis.

 

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Temas:

O direito de morrer em paz.

por Fernando Lopes, 23 Ago 14

Leio no Público sobre a associação Dignitas e o suicídio medicamente assistido. Escapa à minha compreensão a polémica que possa existir em torno de alguém com uma doença terminal ou incapacitante seja impedido de decidir o momento da sua morte. Assisti à agonia do cancro ou Parkinson e numa situação idêntica gostava de poder decidir sobre a hora da minha partida. Nascemos porque alguém o escolheu por nós, porque se amou, até por mero acaso.  Uma vez que o direito à existência não foi opção nossa que o seja o direito à morte em situações de sofrimento e degeneração. 

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Temas:

Silêncio ensurdecedor.

por Fernando Lopes, 22 Ago 14

Ontem, no jantar em casa da mãe, a confusão habitual. O meu irmão com as inevitáveis piadas e palhaçadas, as cunhadas a trocarem impressões, as mais novas a contarem os episódios do dia. Agrada-me a latinidade, confusão, alegria, conversas trocadas. Uma família é para mim, animada, barulhenta e confusa.

 

Admiro a sobriedade dos povos do norte, mas não é esse o meu modo. Não sei se a personalidade colectiva pode ser assimilada, certo é que os portugueses que conheço que vivem nos países nórdicos, são também eles um modelo de contenção. Falam baixa e pausadamente, são sóbrios e calmos. Se estas características são inatas ou produto de aculturação só eles poderão dizer.

 

Recordam-me deste modo, uma experiência asfixiante. De férias em Palma de Maiorca, optámos pelo local mais calmo da ilha, a umas boas dezenas de quilómetros da confusão cockney  que se vive no centro. À nossa espera um mini-bus que nos levava aos três e a uma família dinamarquesa. Iniciada a viagem os habituais «olha isto, que giro», «que bela paisagem», «senta-te direito, filha». Os nossos companheiros de viagem permaneciam em silêncio, o pai a admirar a paisagem, a mãe a ler um livro, as crianças entretidas com os seus brinquedos. Ao fim de meia-hora continuavam mudos. Nem as crianças emitiam um som. Calámo-nos instintivamente, esmagados por aquela calma. Até à chegada ao destino, nada. Das sensações mais sufocantes que me foi dado viver. Venham as gordas matronas, os putos ranhosos, os fala-barato. Essa é a minha gente, queira ou não. 

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Reacções parvas.

por Fernando Lopes, 21 Ago 14

Todos conseguimos ser cool, calm and collected quando existe previsibilidade nos acontecimentos. Perante situações inusitadas temos as reações mais disparatadas. Partilho duas estórias de atitude parvas perante o inesperado.

 

Anos atrás, durante uma mudança de casa, a minha mulher pediu-me que fizesse uns furos na casa de banho para pendurar prateleiras. Falei com o engenheiro da obra, que me garantiu que acima de uma caixa onde estava tubagem e que era bem visível, podia furar à vontade. Iniciei a coisa a medo, com uma broca muito fininha. Operação bem-sucedida. Já mais confiante, usei uma broca ligeiramente maior com idêntico resultado. Ao terceiro furo levo com um charcado de água na cara. O engenheiro tinha-se esquecido que o tubo principal que abastecia todos os outros passava precisamente naquela parede. A reação expectável seria ir desligar a água. Não eu. Fiquei ali com o dedo no tubo, a tomar um chuveiro forçado enquanto gritava desesperadamente para a Teresa fechar a água. Quando me ouviu já eu estava encharcado como um pinto e a casa de banho inundada. Mas o ineficaz dedo a que atribuí  propriedades isolantes continuava firme no seu posto.

 

Outra reação pateta que à posteriori me fez rir a bandeiras despregadas aconteceu perante um tremor de terra. Duas da manhã em casa do meu amigo Artur. Assistíamos a um qualquer programa de televisão, durante as férias do liceu. A casa começa a tremer. Como muitas casas de antigamente tinha uma cristaleira onde estavam porcelanas, cristais e utilidades várias. Estava cansado de saber que o local mais seguro num tremor de terra é debaixo de uma mesa ou na esquadria de uma porta aberta. Acham que fiz isso? Nem pensar. Limitei-me a segurar o armário para que não se partisse o conteúdo. Após breves segundos tudo acalmou. O Artur olhava para mim e ria desalmadamente. Se fosse algo de intenso certamente teria encontrado repouso eterno entre pratas e peças Vista Alegre.

 

Quem quiser partilhar as figuras patetas que fez perante o inesperado, faça o favor de usar a caixa de comentários.

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Os parvos dos telemóveis.

por Fernando Lopes, 19 Ago 14

Fotografia: Kc Alfred/Reuters

 

O tema não é novo, mas particularmente irritante. A boa juventude assiste a concertos através do telemóvel. Num dos últimos, aturei um bacano de rastas e ar de parvo que comentava que «tinha comprado um cartão de 8 gigas para gravar o concerto». Não tenho nada contra quem tira meia-dúzia de fotografias de um espectáculo, eu próprio o faço, mas dois ou três bonecos são mais que suficiente. Esta malta não vê os músicos a não ser através do ecrã, não se concentra na música, apenas está preocupada em registar para a posteridade não se sabe bem o quê. O primeiro concerto a que assisti, há mais de 35 anos, foi de Lene Lovich, no saudoso pavilhão do Infante de Sagres, ali junto à Marechal. Recordo-me de imensos pormenores porque estava lá para curtir a música, o som, as luzes, não armado em Spielberg.

 

Leio no The Guardian que Kate Bush pede aos fãs para não usarem telemóveis ou tablets no seu show de regresso: «Tenho um pedido a fazer a todos os que estarão presentes nos próximos shows. Propositadamente escolhemos um pequeno teatro em vez de uma grande sala ou estádio. Seria muito importante se evitassem tirar fotos ou filmar».

 

Talvez explicar aos espectadores que as mais belas imagens e recordações não ficam gravadas no Youtube, iCloud ou similares, mas na nossa memória. É para isso que temos um cérebro em vez de um dispositivo electrónico.

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MacGyver.

por Fernando Lopes, 18 Ago 14

Este fim-de-semana tive por companhia um casal amigo e os filhos. O pai é um tipo de estatura média, nem gordo nem magro, careca a despontar e sorriso franco. Diz o que pensa sem fosquinhas, uma bela base para estabelecer amizade. Ficou decidido que faria os churrascos, porque também ele um incondicional da boa mesa e boa pinga. Começou a tratar das brasas, faltando no entanto um abanico.

 

- Se não te importas, procura nos arrumos. Não te assustes por estar tudo num caos.

 

Vinte minutos passados, nem sinal do visitante. Desço ao jardim e vejo um monte de lixo cá fora e tudo muito limpo e arrumado.

 

- Aproveitei para arrumar isto e já encontrei o abanador.

 

Dedicou-se depois à canalização, tendo-se proposto substituir um cano velho de uma pia, tarefa que realizou com rapidez e eficácia. Como a velha mesa exterior de refeições estava a precisar de uns ajustes, logo a desmontou, apertou aqui e ali, deixando-a operacional para mais uma temporada.

 

Como sou um desastre em bricolage, pouco mais ajudei que a fazer de «chega-me isso». Se ficasse mais uns dias lá por casa estou certo que me renovaria o casebre por completo. Fiquei ali, embaraçado e aparvalhado, sem saber se havia de lhe pagar em pão e vinho, passar um cheque ou contratá-lo como supervisor de obras. Pelo sim, pelo não, vou passar a semana a treinar aperto de parafusos, montagem de canos e afins.  

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Plo Minho.

por Fernando Lopes, 17 Ago 14

Passei por Ponte da Barca,
curti cogumelos psicadélicos
e viajei numa trip de verde.
Vi espigueiros com antena de TV,
e andorinhas «electro».

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