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Incontinente afectivo.

por Fernando Lopes, 30 Abr 16

Fui acusado pela minha mulher de ser um incontinente afectivo. O formalismo, a guarda dos afectos, é cena que a mim não me assiste. Da mesma forma que liberto vernáculo a ritmo de samba, também o faço com beijos e abraços entre amigos. Heterossexual desde sempre, acho o mais nauseabundo dos pipis infinitamente mais belo que helénica pilinha. Os amigos e amigas nunca manifestaram desconforto por lhes pregar bejufa ou carinho. Aviso assim machos e fêmeas que comigo convivem: somos amigos, se a expressão física do meu carinho vos for desconfortável nada mais têm que fazer senão alertar-me para o facto. Serei sério, contido e asséptico como desejam, ou pelo menos como a minha mulher desejaria que fosse. 

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Vítimas e algozes.

por Fernando Lopes, 27 Abr 16

Durante o almoço conversava com um amigo sobre um pequeno contratempo amoroso que lhe acontecera. Ao contrário do que muitas mulheres pensam também somos sensíveis a pequenos grandes sinais, a um leve toque de pele, sorriso condescendente, piscadela de olho marota. É um mito que apenas os homens pensam frequentemente em sexo, as mulheres fazem-no tanto quanto nós, não valorizamos exclusivamente sexo, existe pelo meio um mundo de pequenas sensibilidades e ternuras que valem quase tanto quanto sexo propriamente dito. Recordei-lhe que nestas coisas do amor, todos nós em algum momento, fomos vítimas ou algozes. Entregamo-nos à mulher amada para uns minutos de céu, sabendo que logo de seguida vem a inevitável queda, passamos mais tempo combalidos no chão, a lamber feridas, que no Olimpo. É assim o amor, mais sofrimento que prazer, mais angústia que alegria. Mas quando estamos bem lá em cima, admirando o mundo de outra perspectiva, sabemos bem que aqueles segundos valem todas as quedas que se seguirão.

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Se algum dia não quiseres o teu marido…

por Fernando Lopes, 24 Abr 16

Vivemos estórias tão inverosímeis que parecem efabulação. Sou amigo há imensos anos de um daqueles casais de namorados de infância que «deram certo». A minha amiga é de Belas-Artes, ele engenheiro informático. Um tipo adorável: é habilidoso, sempre bem-disposto, colabora nas tarefas domésticas, toca guitarra. A antítese deste cão sarnento de raça indefinida que vos escreve.

 

Essa minha amiga tinha uma colega de faculdade completamente choné. Psicótica, com a mania da perseguição, era um desafio que qualquer psiquiatra não desdenharia.

 

Convidam-na para jantar. Ele desdobra-se na sua habitual simpatia, prepara caipirinhas, ajuda no jantar, põe a mesa, sempre com uma piada e sorriso como é o seu jeito. A choné não resiste e observa:

 

- Olha, o teu marido é bem-parecido, jeitoso, colaborante, simpático. Se algum dia não o quiseres, avisa-me, precisava de um tipo assim.

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Rui Moreira, o candidato imbatível.

por Fernando Lopes, 23 Abr 16

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Acordo e leio que o PS se predispõe a apoiar a candidatura de Rui Moreira à câmara do Porto. Pudera, Moreira tornou-se absolutamente imbatível. Depois de anos e anos a aturar o tétrico e bafiento Rui Rio e sua política salazarenta, poupadinha e autoritária, o novo presidente foi uma lufada de ar fresco.

 

A movida portuense que hoje atrai milhares à cidade nasceu contra Rui Rio. A street art que hoje nos rodeia, do D. Quixote do Rosário à velhinha em Miragaia, têm o beneplácito de Moreira. Há nele urbanidade, tolerância, capacidade de diálogo, uma visão para a cidade, tudo elementos de que carecia o ensimesmado Rio.

 

Na prática será eleito com 60% ou mais dos votos, nenhum partido à excepção do PCP e eventualmente o BE quererão associar-se a uma derrota anunciada.

 

Não votei em Moreira, que está a milhas ideológicas de onde me situo, ainda assim penso que tem feito um excelente trabalho. Precedendo Marcelo, trouxe à cidade e à política os afectos de que necessitamos, simplicidade, alguma ternura, empatia, fazendo cair no esquecimento o tenebroso legado da múmia que o precedeu.

 

Vai ser reeleito de modo avassalador.

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Coscuvilhice.

por Fernando Lopes, 20 Abr 16

Não sei quem deu às mulheres fama de cuscas, mas estou quase 100% seguro que foi um homem. Quem pensa que a intriga, maledicência, coscuvilhice, são essencialmente femininas está redondamente enganado. A minha percepção é que os homens o são tão ou mais que as mulheres. É frequente encontrar tipos a dizer mal uns dos outros, das mulheres dos outros, da roupa dos outros, uma miríade de intriguismo de fazer corar alcoviteira profissional. O meu dia-a-dia já é suficientemente caótico para que possa perder tempo a dizer mal de alguém a não ser de modo muito reservado e esporádico, normalmente por me tentaram «fazer o amor», vulgarmente conhecido como f@#er. Cada vez mais me convenço que as diferenças entre homens e mulheres são insignificantes. O que nos difere enquanto humanos tem pouco a ver com género, mais com educação e carácter. Uns têm, outros não.

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Não há pai para esta filha.

por Fernando Lopes, 18 Abr 16

Como sabem os fregueses regulares do blogue sou ateu convicto, fiz questão de não passar valores religiosos à minha filha. Adopta-los-á se assim o entender. Fez hoje um ano que faleceu um familiar próximo e fiz questão de estar presente por respeito ao que partiu, dever de solidariedade aos vivos. Além da homenagem aos falecidos, naquela cerimónia também se celebrava um centenário. Chegado o momento da colecta lá depositamos as habituais moedas.

 

- Pai, também se podem dar cheques? É que aquela senhora deixou um envelope.

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Vale a pena?

por Fernando Lopes, 16 Abr 16

O Carlos Azevedo coloca no seu novo blogue uma questão pertinente: o que andamos a fazer por aqui? Quem está do outro lado? Temos de facto empatia, pontos comuns com que nos lê e lemos? Quantas pessoas conhecemos para além do modo virtual? Vale a pena? Que me recorde – e perdoem-me se me esquecer de alguém – conheci duas pessoas que admiro imenso: a Treza Alves e Soliplass. Comecei por pedir à Treza que me fizesse um layout para o blogue. Não só o fez como criámos mútua admiração e respeito. Sempre que vem ao Porto telefona-me, vamos sair e beber uns copos juntos. Conheci o seu companheiro Luís, também ele um criativo, almoçamos juntos com a minha família, mostrei-lhes bocados secretos do meu Porto como quem se desnuda sem vergonha. Com Soliplass tenho dois pontos comum: a enorme admiração por J. Rentes de Carvalho e o amor pelos livros. Perto dele sinto-me «intelectualmente anão», mas a sua afabilidade, o seu jeito calmamente nórdico, a paixão pela liberdade metaforicamente simbolizada numa moto amarela só me fizeram gostar ainda mais dele. Ao Carlos, que conhecia de amigos comuns ganhei um carinho e respeito que só se consegue quando se conversa para lá do ambiente de festa. É um tipo simples, despretensioso, mas extraordinariamente arguto. Mesmo quando discordamos admiro-lhe a inteligência e qualidade de argumentação. Valeu a pena? Claro que valeu, estas três pessoas entraram no meu coração e aqui ganharam lugar cativo.  

 

P.S. – Imperdoavelmente, esqueci-me de mencionar o Filipe. A razão é simples: entrou pela minha vida como um camião desgovernado, estamos tantas vezes juntos e trocamos tantas confissões e angústias que os blogues ficaram bem lá para trás. Desculpa, Filipe.

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Não sendo versado em ciência política como o dr. Soliplass, uma coisa admiro no capitalismo: a sua capacidade adaptativa de, como uma esponja, tudo absorver e transformar, fazendo dos seus adversários ícone e lucrando com eles. Vem esta prosa a propósito da marca de cigarros «Che» que encontrei à venda numa tabacaria. Nunca o revolucionário pensou ver-se nestas andanças, mas o capitalismo é assim mesmo. Tudo é bom desde que dê lucro.

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Dia do beijo.

por Fernando Lopes, 13 Abr 16

Logo pela manhã oiço na rádio que é o dia do beijo e que andam a distribuir beijos pela baixa lisboeta. Parece-me bem, o mundo anda negligente com os afectos. Como já aqui devo ter referido, na empresa onde trabalho existem jovens «outsourcers», a maioria deles acabadinhos de sair da faculdade. Duas das mais novinhas, com pouco mais de 20, distribuíram beijinhos no «defumadouro», gaiola nas traseiras do edifício onde nos é permitido fumar. Não resisti à piadola:

 

- Já se passaram imensos anos desde que recebi beijos de duas miúdas cuja idade somada é inferior à minha!

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O escolhido.

por Fernando Lopes, 12 Abr 16

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Esta fotografia já foi publicada no Instagram e Facebook, mas é um resumo de uma relação que me é mais preciosa que todo o ouro do mundo. Partilho a «estória» por detrás da mesma. A minha mulher tinha um jantar, foi dada a hipóteses à cria de escolher com qual dos progenitores queria passar a noite. Mesmo com outras crianças no evento concorrente fui o escolhido. Combinámos jantar na pizzaria favorita da miúda, na Praça Carlos Alberto. Sempre tive espírito boémio, a Matilde sempre foi boa companheira de farra. Partilho com ela as tabernas, bares e restaurantes que me são mais queridos. Se forem com ela à ribeira aconselhará a esplanada da D.Deolinda, dir-vos-á onde é a «Badalhoca da Baixa» e como gostas das sandes de panado, referenciará as tostas mistas do «Aduela» e uns copos de sumo no «Candelabro». Já comemos iscas oleosas num tasco, mesmo tasco, da Sé, dançamos até às 4 no S.João frente ao «Rádio». Não faço questão que ela me siga as noites perdidas entre cervejas e conversa, mas é meu dever como pai mostrar esse lado risonho da vida. Assim não será uma pateta deslumbrada quando chegar a sua vez de sair à noite.

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