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Galinha velha ainda faz boa canja.

por Fernando Lopes, 23 Nov 14

A vida de uma mulher pode ser recordada por pequeno actos simbólicos de quebra do statu quo, como casar com um homem mais novo. Ocorre-se-me isto a propósito da morte da Duquesa de Alba, duas vezes viúva e lembrada por ter quebrado convenções ao casar com um homem vinte e tal anos mais jovem.

 

Existe uma razão orgânica para os homens se sentirem «confortáveis» junto de mulheres jovens; somos capazes de reprodução por um período mais longo que as mulheres. Se isto fazia sentido em sociedades patriarcais ou quando ter muitos filhos era o que mais se aproximava de um PPR, nos dias de hoje o preconceito subsiste porque a maioria das mulheres não são capazes de desligar a sua afectividade e sexualidade do que a sociedade convencionou como aceitável.

 

A desculpa feminina muito comum que «não estão para aturar crianças» é completamente falsa. Nós homens, somos e permanecemos crianças, independentemente da idade constante no cartão de cidadão. Uma mulher apenas pode optar por gradações do nível de infantilidade do companheiro, não se pode alhear que a mesma estará sempre presente.

 

Não tenho preconceitos em relação a mulheres mais velhas, se me apaixonasse por uma, seguiria em frente. Apaixonamo-nos por pessoas, não por idades. Cumpre pois às mulheres libertarem-se de estigmas patetas e viverem livremente, ignorando o socialmente correcto.

 

Como diz o ditado, «galinha velha ainda faz boa canja». Provem-no.

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Não peço muito.

por Fernando Lopes, 22 Nov 14

Não peço muito. A frase, ouvida entre a morte do Botas e a desbotada Primavera do Marcello. Poderia exprimir uma humildade ou frugalidade sentidas, na verdade é um manifesto à resignação. Aquando dos desejos para 2014, um dos mais recorrentes era «manter o emprego». Três anos de austeridade, desemprego, humilhação, ajudam a quebrar uma já frágil auto-estima colectiva. A gente já não sonha, não se indigna, já só quer trabalhar, ter comida na mesa, ir ao restaurante uma vez por mês ou num aniversário. Quem podia fugiu, restaram os incapazes e os que os exploram, ridicularizam e humilham numa base diária. Mea culpa, mea maxima culpa. Restaram abutres, sobrevoando a carniça em círculos cada vez mais apertados, e nós, os animais assustados que empurramos os despojos para os bicos dos necrófagos. Restou uma imprensa económica que abraçou a austeridade, flagelou um povo simples e humilde endividado maioritariamente pela compra de casa própria, e continuou subserviente a lamber o rabo aos poderosos. Restou a revolta de meia-dúzia de cretinos como eu, que com uma arma na mão hesitariam entre «limpar» a assembleia da república ou acabar com a sua miséria dando um tiro nos cornos. Mea culpa, mea maxima culpa.

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A minha metade feminina.

por Fernando Lopes, 21 Nov 14

Sempre me soou ridícula a ligação mental que certas mães diziam ter com os filhos. Isto antes de ser pai, claro. Nós homens, muito másculos, a expelir testosterona por todos os poros, não somos dados a essas sensibilidades. Verdadeiros machos, honrosa excepção feita a bruxos e poetas, não querem que se saiba que também temos intuição, sensibilidade, e essas coisas tão femininas. Ora eu tenho uma metade feminina, de 9 anos, a quem me ligam laços para lá do que a ciência define como conhecido.

 

Como eu, a minha metade irrita-se, desespera, e bate com as portas. Tal como eu, logo esquece. Como eu, adora prolongar abraços e beijos repenicados, num perpetuar de carinhos que poderiam ser definidos como «pegajosos». Como eu salta, rapioqueira, se há petiscos e dança, pronta para enfrentar a noite, até que esta, cansada e empurrada pelo nascer do sol, nos segrede ao ouvido que são horas de voltar a casa.

 

O elo inqualificável, fino como um fio de teia de aranha e resistente como um cabo de aço, existe. Já o tinha sentido antes. Hoje, com a criança doente, mesmo antes de ligar a indagar do seu estado, sabia que estava bem. Uma comunicação por essa linha inexistente, e pela qual no entanto, transmitimos. Mandando para trás das costas preconceitos, percebi finalmente o que quis dizer Shakespeare quando escreveu «Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia».

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Faca na banca de jornais.

por Fernando Lopes, 20 Nov 14

Bowling4columbine.jpg

 

No ano de 2002, Michael Moore lançou um documentário, «Bowling for Columbine», que na sequência do massacre na escola com o mesmo nome, questionava a tradição da liberdade de porte de arma existente nos EUA. Olhámos com incredulidade na facilidade com que os cidadãos norte-americanos podiam adquirir todo o tipo de armas, inclusive material de guerra. Como máxima deste disparate, um banco no Texas, que na abertura de uma conta oferecia uma carabina e respectivas munições. O narrador questionava a sra. do banco, sobre o paradoxo de um lugar apetecível para assaltos, oferecer aos clientes material para os mesmos.

 

- Não acha perigoso? Não lhe parece tolo? Nunca um cliente insatisfeito ou demente vos ameaçou com a vossa «oferta»?

 

Com impassibilidade a bancária achava tudo aquilo absolutamente natural. Rimo-nos – eu ri – das maluquices e idiossincrasias americanas.

 

Hoje, quando fui comprar cigarros à tabacaria do Sr. Lopes, bem por cima do JN e Correio da Manhã, um enorme conjunto de facalhões de cerâmica. Numa pequena tabacaria, em que normalmente só trabalha o proprietário, desprotegida, com dinheiro na caixa, aquilo pareceu-me tão despropositado como a oferta bancária americana. Indaguei-o, reagiu com a bonomia habitual. É natural, nunca aconteceu nada, etc. etc.

 

No dia em que se der um drama, e um tresloucado assaltar, ou pior, matar um pequeno comerciante, de quem é a culpa? É o nosso ridículo assim tão diferente do americano?

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Porque escreves, Fernando?

por Fernando Lopes, 18 Nov 14

Podia tentar respostas complexas, falar de sensibilidade, armar-me em candidato a artista. A razão é muito mais prosaica: escrevo porque necessito de ser amado. Em mim ainda existe o rapazinho que foi criado como filho único, sem companheiros de brincadeiras, que se entretinha sozinho. Nunca fui especialmente popular ou dotado. Aluno razoável, desportista mediano, tirando meia-dúzia de amigos incondicionais, sempre fui um solitário. Escrever publicamente funciona como uma dupla catarse; encontro alguém que do lado de lá da internet faz minhas as suas dúvidas e partilha idênticas angústias. Um modo simples de dizer aos outros e a mim mesmo, não estás só.

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Caminho à noite.

por Fernando Lopes, 17 Nov 14

tucuman.jpgImagem: Acción Poética Tucuman

 

Saio todas as noites à tua procura sabendo que não te vou encontrar. Percorro ruas e avenidas, pequenos becos, locais burgueses e operários. Às vezes demoro a observar o teatro de sombras nas janelas tentando antever-te. Porque te procuro? Porque se demanda a luz? Porquê encontrar a outra metade de nós? Sei que não vou ser bem-sucedido e não desisto.Vejo-te com uma criança pela mão, encostando a cabeça a ombro protector. Inicio uma corrida e logo paro, incapaz de aceitar que não existes, que és de alguém, que não passas de um logro. E no entanto procuro-te, o meu verdadeiro e único amor, porque no dia em que desistir de te encontrar terá morrido em mim a esperança. Por isso continuo, caminho à noite, tentando encontrar-te.

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Filha de elefante.

por Fernando Lopes, 15 Nov 14

É uma história feminina. Verdadeira, pura. Uma aventureira em que a vida e carácter fazem pensar noutras grandes figuras que, também elas, foram capazes de esquecer maridos e prudência. Alexandra David Néel, Karen Blixen, Dian Fossey… Partindo para viver os seus sonhos no fim da selva, savana ou Himalaias.

 

Esta é a história de uma amizade com um casal de elefantes adoptados e a vida rude e selvagem no sul da Índia. É também uma história verdadeira; a de Prajna Chowta, indiana nascida em África, educada na Inglaterra onde estudou, e onde um dia decidiu largar tudo para iniciar uma nova existência no coração desse país ainda preservado.

 

De regresso à terra dos seus antepassados, a jovem instala-se no coração da floresta de Bangalore no estado do Karnataka, na peugada de um ermita mitológico que aqui vivia há 2.500 anos, para partilhar a vida de uma tribo de camponeses e elefantes.

 

Podia ser apenas uma bela história, conjugando respeito pelo ambiente, estudo de animais ameaçados e defesa da condição feminina. Mas a chegada de uma criança, não prevista mas rapidamente muito desejada, Ojas, nascida ao mesmo tempo que Dharma, sua «irmã» elefante, vai colocar em questão esta existência selvagem.

 

«Filha de elefante» é um livro soberbo. Soberbo porque é ilustrado por Stéphanie Ledoux, desenhadora mais que talentosa, que soube captar a essência de  Prajna Chowta, da sua filha, dos aldeões e elefantes que partilham o seu quotidiano numa galeria de croquis e pranchas, desenhados ou trabalhos como pinturas.

 

Mas igualmente porque se conta sem verniz a dureza da vida indiana, as tradições retrógradas, os danos do álcool e as interrogações de uma mãe que ganha consciência que a sua filha deverá um dia abandonar aquele lugar para lá do tempo para integrar o mundo dos homens.

 

Dizem que os elefantes nunca esquecem. Os leitores de «Filha de Elefante» também não esquecerão este livro.

 

Fonte: liberation.fr 

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Estados alterados de consciência.

por Fernando Lopes, 13 Nov 14

Contrariamente ao pensamento em vigor não me tenho em elevada estima, as mais das vezes não gosto do mundo que vejo. Procuro então atingir estados alterados de consciência. Se fosse poeta como Antero procuraria o nirvana através da palavra escrita, encarnando Amadeu veria o mundo pelas minhas cores. Não tendo nenhum talento especial recorro a substâncias que me fazem ver o mundo e a mim mesmo de modo diverso: o álcool e uma ou outra pedrada. Não é esta fraca prosa conselho para que se embebedem ou fumem haxixe como se não houvesse amanhã; apenas uma descrição dos meus modos ocasionais de fuga da concha que me mantem cativo.

 

Bebedeiras, perdi-lhe a conta. Já me levaram em braços, dancei frente a um polícia que me mandava calar, saí por um tecto de abrir de um automóvel, e, a 20 à hora, criei o «surf urbano», pés em cima do tejadilho, a rasgar o ar. Tenho a felicidade de me rodear de uma panóplia de amigos sequiosos, o que muito facilita a tarefa.

 

O haxixe altera-me a percepção espácio-temporal. Tudo se passa muito de-va-gar, como se o mundo rolasse em câmara lenta, as luzes ganham um brilho especial. Recordo uma subida de carro da avenida da Boavista, em que, fascinado, parava para admirar o alinhamento dos candeeiros de rua e as diversas matizes de luz que produziam.

 

Na Jamaica tive uma «bad trip» de marijuana. Fruto da inexperiência fumei uma broca XXL. Alucinei, o mobiliário voou, estranhei as cadeiras dançantes, deitei-me quando tudo que me rodeava se colocou num plano superior ao meu. Estranho, muito estranho.

 

Serve esta confissão apenas para esclarecer que gosto de sair de mim mesmo, de ver o que me rodeia de outro modo, de atingir estados de consciência alternativos. Não sei se é bom ou mau, apenas o assumir que necessito de mecanismos de fuga da realidade. Não serei propriamente um místico, mas meus caros, é o que se pode arranjar.

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Cutucar os russos com vara curta.

por Fernando Lopes, 12 Nov 14

putin.jpgImagem roubada do blogue «Tempo Contado»

Admiro sempre as diatribes anti-russas que ciclicamente enchem o peito de alguns e as páginas dos jornais ocidentais. Goste-se ou não, o longo reinado de Putin trouxe melhorias significativas ao padrão de vida russo, basta ver o gráfico acima. Os que sonham com uma cavalgada pela planície russa desconhecem a história que castigou Napoleão e Hitler, a capacidade de resistência decisiva nas guerras do século XX. Tendem a ignorar que o leste da Europa tem uma enorme dependência energética deste semi-continente. Recusam-se a sair do passado, tendo ainda e sempre os russos como «inimigo convencional». Melhor virar a página, notar que mudamos, que o mundo mudou, baixar do reino da fantasia para o da realpolitik.

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Tipo de família.

por Fernando Lopes, 11 Nov 14

Encontramo-nos no bar do costume, pouca luz, copos vários, conversas livres, onde o fumo sobe azul e livre como num feitiço de xamã. O primeiro que te vi foram os cabelos, longos, loiros, lisos, enquanto cumprimentavas o Manel sentado a meu lado.

 

O acaso colocou-nos frente a frente. Olhos azuis translúcidos como pedras preciosas, sorriso franco, pele clara sem ser branca, dentes pequeninos e certinhos, um batom rosa a dar-te um ar delicado e infantil. E falámos. Falámos dos teus projectos de escultura orgânica, dos lugares que visitamos e gostávamos de conhecer, do Stonehenge, de bares e música, relações falhadas, tudo de forma quase pueril.

 

Estávamos só nós, o resto tinha deixado de existir, sequer de fazer sentido.

 

Colocaste a tua mão, os dedos longos e finos sobre os meus e disseste:

 

- Gosto de ti.

 

Não foi um gosto de ti qualquer, havia nele promessas futuras.

 

Expliquei que o teu interesse, carinho, me deixou, como deixaria qualquer outro homem, nas nuvens. Mais que tudo sentia-me lisonjeado pelo interesse de uma mulher tão jovem, tão bonita, que via o rapaz escondido atrás dos cabelos brancos.

 

- Sabes, podia apaixonar-me por ti com facilidade, pela tua frescura, frontalidade. Talvez o devesse fazer. Mas sou um tipo de família, ladro muito mais que o que mordo e não seria justo para ti, para mim e para os outros.

 

Beijei-a na testa, um beijo longo, que não era paternal, antes ternura em estado puro e saí para a rua.

 

As andorinhas estavam a terminar o seu festim de fim de tarde, sabia que era tempo de voltar a casa.

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