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A primeira vez nunca é como nos filmes.

por Fernando Lopes, 27 Ago 15

Quando um tipo de 52 anos que apenas dormiu com três mulheres se dispõe a falar de sexo, a coisa corre o risco de ser pouco credível. Um semi-virgem a perorar sobre a sua desértica vida sexual é o ideal para afastar os leitores. Como bem sabem, sou tipo de correr riscos. Ontem, no meio da insónia, fui parar a um site que aconselhava os jovens sobre «a primeira vez». Veio-me à memória a minha. Na época estávamos formatados por filmes e revistas. Na minha imaginação, o meu normal pénis era diminuto face às generosas mangueiras que apareciam nos filmes. As mulheres tinham todas seios de tamanho XXXL e gritavam histericamente perante a simples visão de um falo. Os amantes conseguiam estar horas «naquilo» sem se cansarem.

 

A realidade foi a de dois jovens atrapalhados e apaixonados, não muito seguros do que fazer. Em termos de performance não chegou aos calcanhares do que via dos profissionais da queca. No caso improvável de algum(a) adolescente ler isto, tenho apesar de tudo, alguns conselhos: é melhor quando se está verdadeiramente apaixonado; o prazer do outro é sempre mais importante que o nosso; estão a  fazer amor, não a concorrer a uma maratona.

 

Se a preocupação for mais com o parceiro e menos connosco estamos a meio caminho de transformar o acto sexual naquilo que verdadeiramente importa, dar. Fazer amor com quem amamos é escrever poesia com os corpos.

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Infidelidades.

por Fernando Lopes, 26 Ago 15

O recente ataque de hackers ao maior site de infidelidade do mundo, Ashley Madison, comprometendo os dados de milhões de utilizadores, pôs-me a pensar sobre os quês e porquês de alguém pagar uma quota para ver perfis de homens e mulheres, todos casados, todos disponíveis para uma facadinha no matrimónio.

 

Sou talvez da primeira geração de homens que maioritariamente não se iniciou no amor através de contactos com profissionais. No meio de classe média onde me movia, se bem que alguns tenham frequentado prostitutas ocasionalmente, tal era excepção, não a regra.

 

O casamento é uma sensaboria, todos sabemos disso. Os homens têm noção que o seu sex-appeal cai a um ritmo mais vertiginoso que as bolsas asiáticas quase no dia seguinte ao do casamento. Depois, quando nascem os filhos, o nosso já secundário papel passa ao de mero figurante. Qualquer macho sabe que após a paternidade a prioridade vai para o filho, depois o cão, o periquito e finalmente o marido, que se torna pouco mais que um bibelot falante.

 

Uma sistematização dos tipos básicos de homens infiéis é altamente falível, cada um terá motivações estritamente pessoais. De qualquer modo, mesmo incorrendo no risco de me espalhar ao comprido, posso sintetizar quatro grandes grupos de tipos mais propensos à infidelidade: o mal casado, o egocêntrico, o caçador e o infeliz.

 

Todos os dias lido com mal casados. São homens que não têm orgulho físico ou intelectual no cônjuge. Casaram porque sim. As já não muito esbeltas ou inteligentes companheiras transformaram-se em matronas gordas que vêem telenovelas. Estes infelizes, embora batam no peito sobre os valores de família, sabem que partilham a vida com estafermos obesos, feios e burros. Na comparação qualquer mulher lhes parece melhor e consequentemente arrastam a asa a qualquer uma que possua uma vagina disposta a recebe-los.

 

O egocêntrico é o tipo geralmente razoavelmente bem-parecido que acha que todas caem a seus pés. É conquistador porque acima de tudo está apaixonado por si mesmo. Usa a lisonja – arama que funciona tão bem com as mulheres – para as levar para debaixo dos lençóis. Tem sucesso com mulheres solitárias, que rodeadas de atenções a que não estão habituadas, acham que o bonitão está disposto a mudar o seu estilo que vida por elas. Quase nunca está, e na primeira oportunidade corneará sem apelo nem agravo a novel companheira.

 

O caçador não gosta verdadeiramente de mulheres, mas da caçada. Delimita estratégias, define o alvo, coloca-o sobre mira, e nunca desiste. Verdadeiramente persistente, após o objectivo conseguido pôr-se-á rapidamente a milhas. A excitação está no jogo, nada mais. É capaz de se gabar aos amigos que já dormiu com cem mulheres. Não tem as cabeças como troféu por simples impossibilidade técnica.  

 

O infeliz é o tipo mais comum. As coisas não lhe correm bem e opta muitas vezes pela infidelidade como uma busca pueril de felicidade. Sente-se menos amado que outrora e tenta reencontrar o tempo e o paixão perdidos. É simultaneamente o mais ingénuo e o mais perigoso. É capaz de se apaixonar por quem o não quer e sofrer com isso. É o tipo que cai na esparrela da amante que lhe esvazia a carteira, que se embebeda porque levou uma nega. É o homem que toda a mulher infiel quer forçosamente evitar, pois corre o risco de o ter à janela a gritar para esta abandonar o marido e fugir com ele para uma cabana à beira-mar.

 

Apesar de todas as falhas – e muitas serão – que este pequeno texto possa ter, pode sempre abrir pistas a futuros utilizadores(as) deste tipo de serviço. A infidelidade é um jogo em que as mais das vezes, julgando que se está a ganhar, perde-se.

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Sobre a China.

por Fernando Lopes, 25 Ago 15

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Desculpas.

por Fernando Lopes, 25 Ago 15

E, sobretudo, pedir desculpa. A Igreja Anglicana pede desculpa a Darwin, a Virgínia pede desculpa pelo drama da escravatura, a Companhia de Energia Eléctrica pede desculpa pelo mau serviço, o governo canadiano pediu oficialmente desculpa aos Inuítes. Não se deve dizer que a Igreja reviu as suas antigas posições sobre a rotação da Terra, mas o Papa pede desculpa a Galileu.

É verdade, e nunca percebi se esta moda de pedir desculpa assinala uma onda de humildade ou, pelo contrário, de desfaçatez: fazes qualquer coisa que não deverias ter feito, depois pedes desculpa e lavas as mãos.

 

UMBERTO ECO IN «NÚMERO ZERO»

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Não há amor na cidade.

por Fernando Lopes, 22 Ago 15

Se coisas maravilhosas me acontecem é porque provavelmente mereço. Fim de tarde. Meto-me ao caminho para um dos habituais passeios por Cedofeita. Cioso das minhas rotinas, paro na esplanada mesmo em frente à Rua do Mirante, uma pausa ao quilómetro 3 para café e água mineral. Habituée, aproveito para trocar conversa sobre futebol com o empregado que também é filho do proprietário.

 

Quase a chegar a Carlos Alberto, um homem com perto de setenta anos, magro, cabelo e bigode branco, pede-me um cigarro com um gesto. De altura média, vestido humildemente mas muito limpo. Aproximo-me.

 

- E falar, nada?

 

- Era um cigarro se faz favor.

 

- Com todo o gosto. Quer lume?

 

Dá-me um toque paternal na cara e depois abraça-me. Retribuo com palmadas gentis nas costas.

 

- Eh pá, não é preciso tanto, não lhe dei o euromilhões.

 

- Muito, muito, obrigado. Afasta-se.

 

Associações tentam suprir a falta de alimentos, roupas, tecto. Trabalhamos pouco a parte dos afectos. Mais do que um cigarro, queria sentir-se amado, respeitado. Um simples abraço pode extravasar o significado convencional. Obrigado meu caro, eu é que lhe agradeço.

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Selfies aos pés.

por Fernando Lopes, 21 Ago 15

Há mimetismos incompreensíveis. Não sendo grande utilizador do facebook, dou de caras com uma série de marmelas que fotografam os pés, às vezes parte das pernas e o mar de fundo. Desculpem, mas é idiota. Se querem que nos recordemos de vocês, mostrem a cara. Se têm pretensões ao erotismo, o rabo. Embora recorde caras bonitas e rabos bem-feitos, não há um único pé nas minhas memórias eróticas.

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Ai, as vertigens.

por Fernando Lopes, 20 Ago 15

6840365-base-jumping-hd-wallpaper.jpg Basicamente, era isto 24 sobre 24

 

Tenho andado calado porque me foi diagnosticado síndroma vertiginoso. Eu achava que as vertigens eram coisas de tias afectadas ou daqueles rapazes que se mandam monte abaixo com uns fatos térmicos e um pequeno pára-quedas nas costas, o base jumping.

 

Involuntariamente tornei-me praticante de modalidade similar mas com menos riscos, o mais que podia era partir uma unha, ou vá lá, na pior da hipóteses, rachar a cabeça. Como já aqui tinha escrito, no primeiro dia foi divertido, no segundo enjoei, no terceiro comecei a ficar preocupado.

 

Fui ao médico, fiz exames ao coração, TAC, análises ao sangue, electrocardiograma, otorrino e saí de lá com um «não sei o que é, o melhor é consultar um especialista em medicina interna». Ora eu julgava que medicina interna tinha a ver com interiores. Nada mais errado, é um médico que faz uma abordagem integrada das patologias, um equivalente ao João Sabichão da medicina.

 

Com uns comprimidos fiquei muito melhor, já consigo caminhar sem me parecer que bebi cinco cervejas de seguida. É uma lição de humildade para este velho macho latino com a mania que as vertigens eram coisa sem importância. O desconforto e incapacidade temporária que me causaram vão fazer com que nunca mais encare tal estado com a sobranceria habitual. Vivendo e aprendendo.

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Existem cada vez menos surpresas. As apps, facebook, blogues e outros media passam a vida a aconselhar-nos sobre o que fazer, que ver, que ler, onde comer. Ainda sou do tempo em que a melhor recomendação era o passa-palavra, no cinema, livros, locais para visitar, restaurantes e bares. Hoje, tanto na internet como na imprensa tradicional pululam os «guias de lazer» que nos dizem tudo o que fazer, onde e quando. Repare-se que também a minha geração não ficou imune. Tenho no telemóvel uma lista de (quase todos) os restaurantes do país. Se me convidam para um sítio desconhecido, raramente resisto a uma pesquisa. Resultado: quando chego ao local raras são as estranhezas que me esperam.

 

Não há muito os amigos desempenhavam um papel fundamental nestas descobertas, hoje vamos a uma exposição porque alguém lá esteve e postou no facebook, porque lemos num roteiro, ou até porque a página tem imensos likes.

 

Isto mata a capacidade de nos surpreendermos com um autor, um filme, um restaurante, um bar. As máximas «fazer um desvio de 100 kms para ir a um restaurante não é um desvio é ir na direcção certa» ou «Na dúvida escolhe sempre sítios com nome de gente. Normalmente há sempre alguém com esse nome, que se responsabiliza e dá a cara» são coisas cada vez mais distantes.

 

Fica aqui a promessa solene que vou deixar de coscuvilhar sobre os sítios, à moda antiga quero ter o impacto de não saber nada sobre o destino e simplesmente saborear o prazer da surpresa e descoberta. 

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Luta de classes.

por Fernando Lopes, 16 Ago 15

Gosto de escutar conversas, é muito mais educativo do que se pensa. Por isso alegro-me sempre que encontro ao pequeno-almoço duas mulheres de meia-idade, redondas e pequeninas, a conversar animadamente. Tomo café ao balcão e admiro a sua pose de patroas. Fartas de servir, estão ali para serem servidas. Sentam-se numa minúscula mesa e não mexem uma palha para ir buscar o que quer que seja ao balcão. Anda a proprietária para lá e para cá já que as Exas. além de pedirem com maus modos não se querem deslocar.

 

Pela conversa apercebo-me que se trata de duas ex-operárias que perderam o emprego e que «graças a Deus estão muito melhor agora». Falam com um ódio ao patronato que nunca vislumbrei em intervenção do camarada Jerónimo. Se ser comunista não fosse pecado certamente estrariam no comité central.

 

Ambas fazem a velha jigajoga de receberem a dois carrinhos, pelos «patrões» e pelo subsídio de desemprego.  Uma faz limpezas em duas casas, a outra cuida de um idoso. A segunda é particularmente acintosa e reivindicativa. Disse à patroa que todos os dias saia mais tarde, que não estava satisfeita e que o drama era ter-se afeiçoado ao velhinho que cuida e leva a passear. «Disse-lhe tudo, até me deu os cinquenta euros, agora são setecentos e cinquenta, mais o subsídio, que agora, como já passaram não sei quanto anos é poucachinho, só cento e tal».  

 

Há muitos casos assim, e neste admirável mundo velho, a crise não é igual para todos. Estas mulheres venceram à sua maneira, tendo como inimigo não o poder mas as casas e impostos de classe média que as sustentam. Por muito está tudo bem desde que não tenha megeras deste calibre a limpar-me o rabo se chegar a idade para tal.

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Nunca tive grande talento ou ambição. Sentei-me à mesa da vida, comi o que foi servido com aquela segurança insegura de nunca ter ilusões, e consequentemente, nunca me ter sentido defraudado. Para os valores de hoje faltar-me-á o que hoje se designa pomposamente por proactividade. Estou sentado a meio de uma escada. Daí posso ver os que estão acima e abaixo. Não forçosamente em fortuna, mas em engenho ou pretensão. Está-se bem ali no meio, equidistante dos problemas de quem está no topo ou no fim. Um território de nenhures, de aceitação, sem que isso signifique falta de vontade de se superar, de ser melhor. Tenta-se, e recebe-se com bonomia o que a vida nos dá.

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