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O rei Wolof.

por Fernando Lopes, 21 Dez 14

A primeira vez que o vi olhava fixamente para o homem das castanhas. Tem o aspecto de um velho patriarca Wolof, mais de um metro e oitenta, carapinha grande e cinzenta, olhos muito abertos, uma velha gabardina bege, suja e gasta. Uma figura imponente com um ar lunático, não conseguimos perceber se por detrás daqueles olhos imensos e arregalados está o pasmo, a loucura, ou um bocado de ambos.

 

Imaginei-o um rei senegalês, desterrado para uma terra fria e estranha, povoada por gente morena e baixinha onde se sentia alienígena. Como os wolofs antes dele, tinha migrado África abaixo, fugindo à desertificação, ao sirocco que tudo queima. Tinha sido um rei com muitos filhos, lutador incansável como Battling Siki, agricultor e pescador respeitado. A guerra de Casamansa tinha-o trazido para a Europa, um refugiado de guerra sem estatuto, caminhante perdido no velho mundo.

 

No saco plástico que o acompanhava trazia ar quente de África, cheiro a terra húmida, pós e unguentos maravilhosos, como se a essência de um continente estivesse ali miraculosamente armazenada. Neste soba vi a África que me inunda os sentidos e a saudade, porque nascido neste país pequenino, por razões que eu mesmo desconheço, sou na alma um bocado africano.

 

Hoje, os castelos no ar que construi à volta desta personagem sofreram um sério abalo quando o vi caminhar, ébrio e frágil, para o albergue da Rua dos Mártires. Vou esquecer este momento e continuar a sonhar com o rei Wolof.

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Coisas na parede.

por Fernando Lopes, 20 Dez 14

trindade.jpgLateral do parque de estacionamento da Trindade, Porto

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Elas, sempre elas.

por Fernando Lopes, 19 Dez 14

Bukowski.jpgImagem recebida por mão amiga

 

A imagem ancestral de um homem da idade da pedra arrastando a sua amada pelos cabelos não podia ser mais desadaptada dos tempos que correm. Há muito que, nas relações amorosas como em tudo o resto, têm elas a palavra final.

 

Está o meu amigo apaixonado? De nada adianta se ela disser NÃO. Gastou o candidato a sedutor uma fortuna no jantar e flores tentando levá-la para debaixo dos lençóis? Provavelmente vai dizer, NÃO. Tentou descobrir quais os aromas que a seduzem, perfumou-se até nas zonas íntimas, e foi mal-sucedido? Normal. Desfez-se em citações dos seus autores favoritos, procurou descobrir de que pintores ela gosta, decorou poemas de amor? De nada vale.

 

Elas, sempre elas, são detentoras do poder de aceitação ou recusa. Ensinou-me a experiência que poucos amores duradouros vingaram pela insistência masculina. O conquistador – e existem – pode ser senhor de uma noite, de uma semana ou mês, mas nunca conseguirá morada permanente no coração de uma mulher. São as mulheres que nos conquistam, nunca o contrário.

 

Assim, se estás apaixonado, sê cortês mas distante, dá-te ares de gato vadio, insinua-te e depois faz-te de parvo. É muito mais eficaz conquistar o teu amor dando-te ares de «não estou nem aí». Se ela não te convidar, não te tocar de modo ténue, não demonstrar interesse pelas tuas bacoradas, desiste, não é mulher para ti.

 

Podes seguir estes desgraçados conselhos e dar-te mal. Acontece. Ensinaram-te que nem sempre se pode ter tudo o que se deseja quando eras pequeno, não foi? Era verdade então, é verdade agora. E lembra-te, as mulheres são como os autocarros, ficamos furiosos quando perdemos um, esquecendo-nos que logo a seguir vem outro.

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Resumo do dia.

por Fernando Lopes, 18 Dez 14

iwdrm.gif"Woke up, felt like shit. Went to work, felt like shit."

 [Via]

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Espalhar poesia.

por Fernando Lopes, 17 Dez 14

son tus labios mi frontera.jpgAcción Poética Tucumán

 

Na montra da papelaria do centro comercial, cartões brancos, um pouco maiores que cartões de visita. Imaculados, a gritarem «escreve-me». Comprei 50. Ainda não estava certo do destino que lhes estava reservado quando se fez luz. Vou enche-los de poesia e deixá-los onde o destino quiser: no restaurante, barbeiro, café, banco de jardim, caixa de correio ou soleira de porta. Não sei se é uma ideia original, nem sequer importa, já foi tudo inventado. Vivemos tempos cinzentos, vidas cinzentas, num mundo cinzento. Uma pequena frase, um poema, uma citação, basta que arranquem um sorriso, uma reflexão, e já terei dado o tempo como ganho. Quixotescamente, numa base ocasional, vou tentar espalhar poesia por aí. Já escrevi o primeiro. Reproduz a frase acima, da Acción Poética Tucumán, resplandecendo numa parede.

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Quando as palavras são violência.

por Fernando Lopes, 15 Dez 14

Não sei bem a razão, mas a maioria das pessoas tendem a esquecer-se do mundo que as rodeia quando estão ao telemóvel. Algumas vão levantando a voz conforme a distância a que se encontra o interlocutor ou o grau de fúria que se apodera delas.

 

A violência doméstica existe, maioritariamente perpetrada por homens, que maltratam, agridem e matam as companheiras.  É o tipo de violência que faz as parangonas dos tabloides, que gera indignações da esquerda à direita, campanhas de condenação. Longe de mim defender agressões ou agressores, só que o ónus colocado constantemente sobre a figura masculina é apenas uma parte da floresta.

 

As mulheres agridem, e muito, sobretudo verbal e psicologicamente. Embora não existam danos físicos que façam capas sangrentas, muitas maltratam com requintes de malvadez os companheiros. Uma senhora, no café, bem à frente de todos, falava com enorme desprezo com o companheiro, destratava-o alto e bom som, humilhava-o pelo facto de estar desempregado. Era absolutamente impossível não ouvir aquele enxovalho público. Embora descontextualizado da vida daqueles dois, senti-me profundamente chocado. Se aquela mulher fala assim em público imagino como será em privado.

 

A violência não tem sexo, e se as palavras matassem, o homem do lado de lá do telefone certamente teria caído fulminado. As palavras também podem ser uma forma de violência.

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Salva-me.

por Fernando Lopes, 14 Dez 14

Salva-me dos demónios que me perseguem, da prisão que me cerca com grades de pretensa normalidade, das manhãs de luz onde só antevejo breu. Salva-me desta angústia impressa na alma, da voz que constantemente me diz «estarias melhor morto». Salva-me do mundo, de mim. Acolhe-me e serei teu súbdito dedicado e obediente, amante fiel. Salva-me com o poder do teu abraço, candura de amante experiente, olhar dedicado. Salva-me, porque preciso de ser salvo.

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Já recebo comunicados de imprensa!

por Fernando Lopes, 11 Dez 14

Especiarias de O Pretinho do Japão.jpgOs silos que recordo da infância

 

Há uns tempos escrevi sobre uma mercearia da infância, «O Pretinho do Japão». Para surpresa minha, aqui a taberna recebeu um convite para a inauguração de um renovado estabelecimento. Já recusei inúmeras propostas de publicidade, não faço posts a pedido, enquanto tiver trabalho e amor-próprio jamais me transformarei num vendilhão do templo. Escrevo o que quero, quando quero. Assim, embora insensível à publicidade, não o sou aos afectos. Defender o comércio tradicional não é gostar muitas das lojas tradicionais e depois ir a correr para o hiper poupar meia-dúzia de cêntimos. É frequentar lojas com gente que conhecemos, que tem nome, passado, que atendem personalizadamente. Vou lá comprar os damascos secos que o meu amor devora como louca por épocas do Natal. É importante praticar o que se prega, por isso, se vos interessar dêem um salto a este sítio emblemático, apreciem a vetustez dos silos, vejam as senhas de racionamento dos anos 40. Porque uma mercearia também pode ser um bocadinho de história.

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Humildade.

por Fernando Lopes, 9 Dez 14

Quando era criança a humildade era qualidade que nos era incutida, se tirássemos melhor nota que os outros guardávamos prudente silêncio. Hoje em dia, das artes ao desporto, do trabalho à escola, a humildade é vista como sinal de fraqueza. Por isso anões gritam alto as suas qualidades, corcundas sobem a palco e peroram sobre a sua infindável beleza. Pior que isso, a gabarolice passou a ser socialmente aceite, é coisa vulgar, sinal de auto-estima em vez de cretinice. Os seres verdadeiramente excepcionais não necessitam de apregoar as suas qualidades; elas são notadas pelos demais. São modestos porque sabem que por muito conhecimento que tenham há um mundo interminável por descobrir. Estes sinais de fraco carácter pululam transversalmente pela sociedade. Por esta e muitas outras razões sinto que já não sou deste tempo. Felizmente.

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Guia para conquistar um homem maduro.

por Fernando Lopes, 8 Dez 14

Os homens são frequentemente acusados de pensar o amor com a genitália. Incapaz de negar esta evidência, constato que alguns de nós amadurecem afectivamente. Na meia-idade, vivemos um enorme paradoxo, tornamo-nos menos desejáveis e mais exigentes.

 

Não sou hipócrita, uma carinha laroca, olhos limpos, seios firmes, rabo bem-feito, podem fazer-nos perder a cabeça e mandar a teoria às malvas. Temporariamente, apenas temporariamente.

 

Há quem valorize mais ser estimulado intelectualmente, outros procuram coração acolhedor. Embora queiramos tudo, pertenço essencialmente ao segundo tipo, sempre me foi mais simples encontrar intelecto que afectos. Mas, como disse um amigo, «nesta idade, uma mulher, antes de me foder fisicamente tem primeiro de me foder na cabeça». Uma verdade tão simples que dói. Um homem maduro conquista-se pela cabeça.

 

Nesta luta pela felicidade o belo sexo tem tendência a cometer erros capitais. As mulheres mais jovens querem pacote completo, uma família, filhos, cão e carrinha. Ora um investimento financeiro e afectivo deste calibre pode não ser a melhor abordagem a um homem já com três filhos e que se vê mensalmente em palpos de aranha para a pagar a pensão de alimentos. Às mais velhas falta muitas vezes adaptabilidade. Viver junto é um compromisso, vão existir mais desarrumação, imprevistos, e o habitual laxismo masculino. É necessário ter jogo de cintura e alguma paciência. Somos animais de hábitos, mas mais difíceis de treinar que os vossos gatos. A vossa vida sozinha, perfeita, organizada, arrumada, planeada, terminou. Se não se querem meter numa carga de trabalhos e inconveniências o melhor é desistirem rápido.

 

Ficam estas pérolas de sabedoria para as mulheres que não desistiram de se apaixonar e por alguma razão se interessaram por um tipo pós-45.

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