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Envelhecer rodeado por jovens.

por Fernando Lopes, 29 Jul 15

Costumo perorar sobre as desvantagens da idade, a memória que já não ostenta a frescura de outrora, um ou outro dente que se fragiliza, o perímetro da barriguinha que se aproxima perigosamente da centena de centímetros não se acomodando minimamente pelo facto de ser moda.  

 

Certo é que a idade traz uma catrefada de incomodidades, envelhecer, por muito que o digam, não é coisa bonita, apenas inevitabilidade a que se sobrevive.

 

Uma das vantagens, por paradoxal que pareça, é que deixamos de ser vistos como objectos sexuais. Somos apenas um senhor, medianamente apresentável, que reúne saber de experiência feito.

 

Isso é particularmente divertido porque, por mera casualidade, frequento estabelecimentos em que os empregados são particularmente jovens. Tenho a idade dos pais deles mas sendo brincalhão por feitio tenho facilidade em ser adoptado.

 

Adoptado pela rapariga morena da tabacaria que despeja sábio conselho sobre os malefícios do tabaco enquanto me vende um maço com ar entre o complacente e severo; pela moça do restaurante, que torce discretamente o nariz se a sobremesa que peço não for do dia; pelo jovem pai que troca experiências sobre o crescimento da filha; pela miúda do café que nos conta as suas peripécias com enlevo filial.

 

Na prática nunca tive tanta atenção de jovens mulheres, simplesmente porque já não represento perigo. Encontram nas nossas conversas disponibilidade afectiva. Envelhecer rodeado de pequenas atenções e cortesias de jovens raparigas é bem mais simpático do que esperaria.

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Quem disse que as mulheres de sonho têm idade?

por Fernando Lopes, 27 Jul 15

Michel pfeiffer.jpgEm 2014, bela como nunca.

 

Aos 57 anos continua a ser um ícone da cultura popular. Pfeiffer continua a fazer sonhar homens de todo o mundo com a sua beleza tranquila e qualidade como actriz. É ainda e sempre aquela que sonharíamos levar a jantar, elegante e simultaneamente simples, permanece com um ar plácido, não renega os anos sem perder pitada do seu encanto.

 

Saber envelhecer é saber viver. Recatada na sua vida pessoal, recordo-a a fazer celibatária resistente, contracenando com o monstro Al Pacino na deliciosa comédia romântica «Frankie & Johnny», ou com George Clooney em «Um Dia em Grande», mãe solteira, totalmente empenhada no trabalho e maternidade.

 

Belíssima num papel secundário em «People Like Us» de 2012, é a prova que as mulheres de sonho não têm idade, existem e andam por aí.

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A gente gosta da terra.

por Fernando Lopes, 26 Jul 15

vegetais oferecidos.jpgVegetais oferecidos pelos vizinhos 

 

A gente gosta de ir à terra, mesmo que seja nossa apenas por adopção. Sabe que a nossa gente nos acolhe, que gosta de nós, nos convida para as suas festas. A gente sabe que a gente do campo é nossa amiga, mas também sabe que pequena faúlha basta para provocar uma catástrofe. A gente gosta da sua matreirice, dos dichotes, das piscadelas malandras de olho, dos subentendidos, do que se diz sem dizer. A gente sabe que a vida é dura, que o campo não dá férias, que o pão nosso de cada dia é regado com suor. A gente gosta do bêbado, do maluco, do abandonado, da moça vistosa, do rapaz das motas, do sr. padre, do vereador da câmara. A gente gosta da terra, porque é terra que nos corre nas veias, porque a amamos como a uma mulher caprichosa.

 

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Mascalzone!

por Fernando Lopes, 24 Jul 15

Nove. Somos nove este fim-de-semana em Arcos. Quatro cunhados, um sobrinho, a sogra, nós os três. Vem também uma amorosa cadela de raça bulldog francês que ressona como uma locomotiva. Uma reunião que promete enorme confusão, caminhadas pelas montanhas, enfardamento pantagruélico, longas noites de conversa com as serras de fundo e um tecto de estrelas. Os Sopranos eram uns frouxos.

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queda_S_tome.jpgO local do «avistamento»

Em Maio de 2003, aproveitando uma promoção da entretanto falida Air Luxor, decidimos ir até S. Tomé. Era à época um destino quase inexplorado turisticamente, havendo somente dois hotéis dignos desse nome na ilha, o do ilhéu da Rolas e o principal, em plena capital.

 

Acompanhavam-nos o Cunha e a mulher. O Cunha é um «adiantado mental», tipo de inteligência brilhante e humor cáustico, mente livre e libertária, companheiro ideal para passeios e aventuras.

 

Ficamos quatro dias nas Rolas e três dias em S. Tomé. Como conhecíamos um português que lá morava, tivemos direito a visitar sítios virgens de turistas. Num desses passeios fomos dar a umas quedas de água cujo nome desconheço. Imensas crianças, umas a regressar da escola, outras a cabular, aproveitavam o rio para se refrescarem e divertirem. Ficamos ali, a brincar com os miúdos e a conversar. De repente o meu amigo sussurra:

 

- Olha para o tamanho da pila daquele puto.

 

Efectivamente o miúdo era um tripé. Não devia ter mais de 6 ou 7 anos, e o pénis – seria ofensivo chamar àquilo pilita – dava-lhe quase pelo meio da coxa. A criança era anatomicamente desproporcional, nu e inocente. O pénis teria 8 a 10 cms, um badalo quase assustador.

 

- Eh pá o puto tem um piloca enorme, comentei.

 

- Não digas nada, senão as nossas mulheres pensam que são todos assim e nunca mais querem sair daqui.

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O que é que eu fiz?

por Fernando Lopes, 21 Jul 15

Quando a minha mulher passa por mim de trombas ou olhar flamejante, só pergunto: O que é que fiz? Podem ser crimes tão graves como deixar os boxers no chão em vez de os pôr na tulha; mudar o papel higiénico e esquecer-me de deitar fora o rolo castanho; não passar por água o copo de leite que bebi. Coisas insignificantes, que no feminino se transformam em crimes de lesa-pátria. Melhor é ir pedindo desculpa em avanço, mesmo sem me ter apercebido do erro que cometi. Uma mulher furiosa faz-nos sentir como um chihuahua face a um pastor alemão: é deitar-se no chão, levantar as patinhas e mostrar-se indefeso, pois ninguém se quer confrontar com um colosso enfurecido. Por isso, caro leitor, para prevenir males maiores vá pedindo desculpa mesmo que não saiba o porquê. O tubarão que atacou o surfista é coisa de mariquinhas comparado como uma mulher enfurecida.

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Divagações sobre francesinha.

por Fernando Lopes, 19 Jul 15

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Num artigo do El Pais sobre a vinda de Sandra Carbonero, a francesinha é referida como a comida típica do Porto. Erro crasso do articulista, o nosso prato típico foi, é, e será, as famosas «tripas à moda do Porto» quer pelo seu valor gastronómico quer pelo seu peso histórico, que deu apelido a todos os habitantes desta cidade. A francesinha foi criada nos anos 50 por um ex-emigrante.

 

Trata-se de uma variante do celebérrimo croque-monsieur reinventado no restaurante «A Regaleira», onde a Rua do Bonjardim termina.

 

Até aos anos 80 era um prato de boémios, que se comia essencialmente no triângulo de cervejarias do Campo Alegre (Galiza, Gambamar, Capa Negra). Como prato de noctívagos destinava-se a energizar para o resto da noite, e não lhe era adicionado bife e batatas fritas. Era simplesmente composta por dupla camada de fiambre, salsicha fresca, mortadela, queijo e molho picante, pois o objectivo era ser um mata-fome barato.

 

A partir de meados dos anos 80, com o aburguesamento da sociedade portuguesa, a francesinha democratizou-se, e muitos que até então nunca tinham comido o petisco, começaram a fazer dele refeição. Acrescentou-se-lhe o bife e a batata frita, exigência de uma nova horda de consumidores que já não os jornalistas, estudantes, boémios, e gente da má vida em geral.

 

Em alguns locais (poucos) ainda se pode comer a francesinha à moda dos anos 80, i.e., sem bife.

 

Uma dos factores essenciais para uma boa francesinha é o pão bem torrado, para suportar o peso do queijo e não se esboroar perante a dose generosa de molho, que deve ser bem picante para puxar à cerveja e não esses molhos «amaricados» a saber a polpa de tomate que por aí se comem. É por isso que me dá vontade de me levantar e pregar um estalo aos pais de família, de fato de treino vestido, que se deslocam com a prole a comer francesinha e se queixam, como já ouvi, por estarem a usar pão torrado porque era «recesso» e querem um molho pouco picante para os anafados descendentes.

 

A democratização é muito bonita mas tem destas coisas: o que prevalece é muitas vezes o mínimo denominador comum. É a vida.

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Obras.

por Fernando Lopes, 17 Jul 15

Passados uns anos as casas necessitam de reabilitação. Obras. Existem poucas coisas que me aterrorizem mais que ter de mexer as minhas coisas de sítio, desligar aparelhos e aparelhinhos, mudar mobílias, esvaziar armários. Detesto mudar seja o que for, entendo-me bem no caótico organizado que existe por aqui.

 

As minhas mulheres têm espírito de acumuladoras, guardam tudo, tudo pode vir a fazer jeito, os 148 m2 transformaram-se num enorme armazém. Neste escritório existem estantes com três filas de livros, e já comecei a preencher os espaços de cima. Mudar os 500 LPs ou outros tantos CDs é tarefa de Sísifo.

 

As gavetas do aparador têm lá dentro chaves, pens, envelopes, transformadores, um mundo de utilidades de fazer inveja a muitas lojas do chinês.

 

Revolve-se-me de medo a boca do estômago só de pensar que, inevitavelmente, teremos de fazer obras.

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Secessão.

por Fernando Lopes, 16 Jul 15

No meio de toda a cacofonia do processo grego, de avanços e recuos, de sins que se transformam em nãos, há algo que fica para mim muito claro: este não é um processo financeiro, nem sequer económico, é essencialmente um processo moral. As diferenças entre o calvinismo do norte e uma certa permissividade do sul entram em choque. Como o carácter dos povos não é passível de ser alterado por decreto, porque o modo do sul é vista pela gente do norte como um «crime moral», as brechas criadas pelo processo grego são de algum modo insanáveis. Para o cidadão comum existe um eles e um nós, que se aplica não só aos políticos mas também aos povos. Fraca é a união que não tem em conta nem respeita a visão do mundo do outro. A semente da secessão está aí, mesmo que a não queiramos ver.

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Dia 5 – Estrada Fora.

por Fernando Lopes, 15 Jul 15

estrada fora.jpgA bordo da pick-up vermelha

 

Longe de mim dar uma de Kerouac, até porque a ilha apenas tem uma estrada alcatroada. Existem mais duas ou três de paralelos em bastante mau estado, mas para conhecer os locais emblemáticos é necessário andar sobretudo por caminhos em terra batida e alguns troços nem o epíteto de caminhos merecem, são apenas sulcos da passagem diária de veículos todo-terreno. O único meio de se deslocar é em veículos 4x4. Aqui, como no Sal, são usadas sobretudo pick-ups, com a caixa aberta transformada com duas filas de bancos frente-a-frente. Os mais aventureiros têm a possibilidade de andar de moto 4, e aviso já que alguns percursos têm dificuldade elevada para principiantes.

 

 

 

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