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Olhares.

por Fernando Lopes, 20 Out 14

«If looks could kill, they probably will» cantou Peter Gabriel. No departamento está uma jovem estagiária, analista de métodos, a preparar a sua tese de mestrado. Um companheiro de trabalho comentou algo que também tinha notado: quando lhe estamos a explicar algum procedimento, olha-nos fixamente nos olhos. Gosto de olhares, de olhos nos olhos, o prolongar dessa fixação provoca-me sentimentos mistos. Por um lado sabemos que está atenta ao que explicamos, por outro não consigo deixar de sentir algum desconforto, uma espécie de nudez, algo de hipnótico. Diga-se o que se disser, é difícil assentar os olhos nos de alguém que não nos é familiar durante períodos prolongados de tempo.

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A menina que ia sozinha para a pré.

por Fernando Lopes, 19 Out 14

Hoje já quase não se vêem crianças, mochila às costas, a ir para a escola. Recordo-me bem do dia em que a avó me levou ao primeiro dia de escola, ensinou o caminho. Fê-lo duas ou três vezes. A partir desse momento estava por minha conta. O percurso, embora longo, só implicava atravessar a Rua dos Bragas com paragem obrigatória na confeitaria do Neves, para abastecimento com uma bola de Berlim.

 

Mas às vezes levamos um soco no estômago da nossa infância protegida, despreocupada. Há tempos, falando de crianças, uma rapariga de trinta e poucos anos, contou-nos que na localidade onde habitava, na zona de Aveiro, ia sozinha para a pré. Com quatro anos. Regressava a casa para o almoço e retornava ao infantário. Sempre só. Assumiu esta bizarria com ar de pretensa normalidade, mas os olhos negavam-no. A mãe era doméstica, mas não possuía o tempo ou empenho para a acompanhar. E isso dói, dói para a eternidade, mesmo que o tentemos negar. Não me atrevo a imaginar a solidão que acompanhava essa menina. Já mulher, enquanto os lábios diziam uma coisa, o rosto mostrava outra. Ia sozinha para a pré.

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Porto adentro.

por Fernando Lopes, 18 Out 14

abelhas_cedofeita.jpgPorta da abandonada esquadra de polícia, Cedofeita

rua do mirante.jpgRua do Mirante

leoes.jpg«From The Lions Mouth»

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A procura do sagrado, do que transcende, é importante para muitos dos que me rodeiam, cada vez mais irrelevante a nível pessoal. Sou dos poucos da minha geração que não foi baptizado, não teve educação católica, que desde tenra idade pôde escolher. Escrevo sobre morte porque, uma vez mais, estive num funeral. Sinto-me colocado num daqueles tapetes gigantes das fábricas que conduzem a carne até ao vazio. A fila da frente caiu nesse abismo desconhecido, eu sou a seguir, olho a distância que me separa da queda com total indiferença. Não me comovem os rituais da igreja, o padre que diz a missa com a insensibilidade de um escriturário, a esperança em algo indefinível, melhor, perfeito. As coisas são como são, átomos e nada mais. Com a idade e a proximidade da morte, muitos tentam agarrar-se a uma forma vã de permanência, de existir. Nada vejo excepto o tapete que rola, a ritmo certo, com destino inexorável. Não encontro Deus e ele faz questão de me evitar.

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Já tenho presentes preferidos para 2015.

por Fernando Lopes, 16 Out 14

Sabem os meus queridos leitores que sou um fumador furioso e apreciador incondicional de cerveja. Uma vez que estes bens – uma vez mais – estão sobre a mira do OE de 2015 podem os amigos que me lêem optar por me presentear no Natal com uma mini e um maço de Pall Mall. Os mãos largas que comprem um volume, ou meio, e um pack de 12 cervejas. Esqueçam as roupinhas do Cortefiel, o «Le Male» do Gaultier ou os livros de Pynchon. Uma bejeca e uns paivantes transformaram-se na nata dos presentes.

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Costa foi às exéquias do BE.

por Fernando Lopes, 15 Out 14

antoniocosta-livre8248aacf_400x225.jpg

Não me entusiasma, até porque da sua boca pouco mais ouvi que banalidades. As eleições do PS foram de personas e não de ideias, perdeu o «líder da triste figura». No entanto, ninguém pode acusar o bom do Costa de inabilidade política, daí que o seu primeiro acto público depois da imperial foi ter comparecido no congresso do «Livre».

 

Está a piscar o olho à esquerda da esquerda que não se limita a protestar, que quer «meter as mãos na massa» e intervir politicamente num governo. O BE está morto, assassinado pelo seu ex-líder, pela recusa em ser mais que um partido de protesto. Exactamente três pessoas acreditam no futuro do BE: Catarina Martins, João Semedo e aquele moço careca, matemático, que perdoem-me, parece uma cópia de Seguro. O homem emana carisma que até atrapalha.

 

A política é a arte do possível, para conseguir uma pequena vitória são necessárias inúmeras cedências. É assim também na vida, coisa que a malta bloquista teima em não compreender. Sem ter mestrado em futurologia, vejo o Livre a esmagar o Bloco nas próximas eleições.

 

Porque sabem essa coisa tão simples, nada é de borla, para dar um passo à frente, às vezes é necessário recuar dois. Esse espírito de compromisso, capacidade de cedência e negociação parecem ser a sua grande vantagem. Um certo eleitorado de esquerda está cansado do pensamento que em nome da ideologia, a nada cede. Estou entre eles, prefiro alguém mesmo em posições subalternas a puxar à esquerda, que seja a consciência crítica do PS. Costa entendeu isso, muitos eleitores como eu também, o Bloco só vai atingir que errou quando o piano de cauda chamado eleições lhe cair em cima da cabeça.

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A praga das mosquinhas.

por Fernando Lopes, 15 Out 14

Vivemos um tempo de trópicos, com temperaturas amenas e muita humidade. Notei que aqui em casa existia uma praga de pequenas moscas, uma espécie ridiculamente pequena que mal consegue voar. Matámos umas tantas com um pano de cozinha, mas, como que do nada, surgiam sempre mais. Dei com a dona do estabelecimento e do meu coração, a lavar furiosamente batatas, fruta e tudo o tivesse sido tocado pela bicharada. Ao contar o pitoresco episódio, recebi, para surpresa minha, cabeceios de assentimento. Parece que, pelo menos aqui no Porto, a invasão é generalizada e anda meio mundo literalmente a matar a mosca. Dotado de qualidades asininas, sinto falta da cauda, que tão útil me seria no extermínio da bicharada.

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Gestão à portuguesa.

por Fernando Lopes, 13 Out 14

Quando leio que a «PT admite chamar pré-reformados para voltarem ao trabalho» quase me escangalho a rir. Tenho um tio que durante mais de quatro décadas trabalhou para a PT. Com sessenta anos e quarenta de serviço, foi-lhe proposto passar à reforma, uma vez que a sua área ia ser extinta e passada para outsourcing. Sem perda de salário ou regalias, obviamente aceitou. Coordenava aquelas equipas que colocavam contentores com antenas para telemóveis em cima de edifícios. Passados uns dias foi contactado por uma empresa que prestava esse serviço à PT para fazer … rigorosamente o mesmo.

 

Que me recorde, esteve quatro ou cinco anos a receber «a dois carrinhos», pela PT e novo empregador. Durantes anos pagou-se uma barbaridade a um prestador de serviços para resolver uma questão que poderia e deveria ter sido tratada internamente.

 

Obviamente não acredito que esta opção tenha sido ingénua, e alguém ganhou dinheiro, muito dinheiro, com estas «adjudicações». É que as equipas com que o tio trabalhava eram maioritariamente compostas por ex-funcionários da PT. São estes os gestores de excelência que temos, «vendilhões do templo» que desbaratam milhões em soluções de eficácia duvidosa. Como é bela a excelência da gestão em Portugal.

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Quando estou contigo.

por Fernando Lopes, 12 Out 14

Quando estou contigo as palavras enrolam-se-me na língua, tremo das pernas, começo a transpirar em bica. Quando estou contigo, as coisas são simples, o mar e o céu azuis, não há dúvidas, incertezas, insegurança, amanhã. Quando estou contigo a poesia não é distante, hermética, mas coisa viva, à minha frente, que me sorri. Quando estou contigo, me recolho no teu ombro e choro, todos os males do mundo são insignificantes. Quando estou contigo, estou sempre nu, porque me despes no mais íntimo da alma. Quando estou contigo sou com uma criança que se ri divertida das suas próprias tontearias. Quando estou contigo pareço um marinheiro bêbado, delirante e alegre, porque sei que vou estar contigo.

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Na parede.

por Fernando Lopes, 12 Out 14

drunk_face.JPGRua Miguel Bombarda, Porto

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